segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A PRIORIDADE DA PREGAÇÃO NO MINISTÉRIO PASTORAL

“Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1 Timóteo 5.17).

Recentemente participei da ordenação de um amigo ao Sagrado Ministério. Como ex-tutor do ordenando, foi-me dada a honra de dirigir-lhe a parênese, que nada mais é do que um breve discurso exortativo. Na ocasião, exortei-o a que tivesse bem definidas diante de si as prioridades do ministério, a saber, a oração e a pregação da Palavra. Creio que tal conselho é mais urgente hoje do que nunca, visto que o pastor de uma igreja local é obrigado a cumprir vários tipos de atividades ligadas ao pastorado, como por exemplo, estudos bíblicos, pregações, atos pastorais em congregações, visitas, discipulado, evangelismo, aconselhamento, administração e etc. Em muitos casos, encontramos pastores que tomam para si o encargo de mestres-de-obras.

Como consequência, as prioridades do ministério têm, paulatinamente, deixado de serem prioridades. Atividades legítimas, porém não prioritárias, acabam tomando o lugar da oração e da pregação da Palavra. Minha intenção aqui é discorrer um pouco a respeito de uma destas duas prioridades – a pregação do evangelho –, e a sua desconsideração por parte de muitas igrejas, que priorizam mais as visitas pastorais. R. Albert Mohler, Jr., afirma que, “a prioridade da pregação simplesmente não é evidente em grande número de igrejas”. [1]

O caráter prioritário da pregação da Palavra pode ser percebido, visto que ela é a primeira marca de uma igreja verdadeira. Não reconhecemos uma verdadeira igreja pelo número de visitas que o seu pastor faz, mas sim por sua fidelidade à exposição de todo o desígnio de Deus. Creio veementemente que, antes de qualquer outra coisa, é a fiel pregação que deve ser buscada em uma determinada igreja, como acertadamente pontua Mark Dever:
Se você está procurando uma boa igreja, esta é a coisa mais importante que deve ser levada em conta. Não me importo se você acha que os membros devem ser bastante agradáveis. Não me importo se a música é boa ou não. Estas coisas podem mudar. Mas o compromisso da igreja com a centralidade da Palavra que vem do púlpito, do pregador, daquele a quem Deus dotou de modo especial e chamou ao ministério – este é o fator mais importante que você deve procurar em uma igreja. [2]

Não é à toa que o pastor é chamado de Ministro da Palavra ou Ministro do Evangelho. Isso porque o seu grande chamado é para pregar, para expor a Palavra inspirada, autoritativa e inerrante de Deus. Creio também que é esse o padrão apresentado na Palavra de Deus.

As chamadas epístolas pastorais do apóstolo Paulo a Timóteo são bastante elucidativas a este respeito. Em todo o seu escopo encontramos a pregação da Palavra e o ensino da vontade de Deus como a grande função do pastor. Por exemplo, ao apresentar as qualificações necessárias para o episcopado, Paulo elenca, dentre elas, a aptidão para ensinar as Sagradas Escrituras (1 Timóteo 3.2). Se observarmos bem, não encontraremos que aquele que aspira ao episcopado deve ser um bom visitador. Ele deve ser irrepreensível, monogâmico, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar, não dado ao vinho, não violento, cordato, inimigos de contendas, desapegado dos bens materiais, bom marido, bom provedor e bom pai, experimentado e deve possuir bom testemunho diante de toda a sociedade (vv. 2-7). Porém, quão dificilmente encontramos uma comunidade que julgue a “empregabilidade” [3] dos seus pastores pelos critérios apresentados por Paulo.

No capítulo 4 de 1 Timóteo, encontramos outra evidência da primazia da pregação: “Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido” (v. 6). De que maneira Timóteo seria, verdadeiramente, um bom ministro de Cristo? Pelo número de visitas que viesse a fazer? Não! Pela exposição da bondade da criação de Deus em oposição àqueles que exigiam o ascetismo como regra de vida? Sim! O critério era a exposição da vontade de Deus. Ainda no verso 11, vemos o seguinte: “Ordena e ensina estas coisas”. No verso 13: “Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino”. Logo em seguida, o apóstolo acrescenta uma exortação a Timóteo: “Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto”. Timóteo seria negligente se não desse à pregação e ao ensino a primazia em seu ministério. Ele não poderia trocar a pregação por nenhuma outra faceta ministerial. Em vez disso, ele deveria ser diligente na proclamação da vontade do Senhor. Dessa forma, o seu crescimento e progresso seriam manifestos diante de todas as pessoas. Tudo passava pela pregação, não pela visitação.

Quando chegamos a 2 Timóteo, vemos que o padrão permanece inalterado. Logo no capítulo 1, falando acerca do evangelho, Paulo afirma que foi designado por Cristo como “pregador, apóstolo e mestre” (v. 11). Três ofícios inextricavelmente ligados à pregação. Em 2 Timóteo 2.14-15, está escrito: “Recomenda estas coisas. Dá testemunho solene a todos perante Deus, para que evitem contendas de palavras que para nada aproveitam, exceto para a subversão dos ouvintes. Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”.

O texto áureo da primazia da pregação é 2 Timóteo 4.1-2: “Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina”. A colocação feita por Mark Dever a respeito deste texto é extraordinária:


Essa foi a razão porque Paulo disse a Timóteo que “formasse um comitê”. Certo? É claro que não. Paulo nunca disse isso. No Novo Testamento, você nunca achará um pregador sendo instruído a formar um comitê. “Faça uma pesquisa”? Não! Paulo também nunca disse que alguém fizesse uma pesquisa. “Gaste seu tempo fazendo visitas”? Não! Paulo também nunca disse que um pregador fizesse isso. “Leia um livro”? Não! Paulo jamais disse ao jovem Timóteo que fizesse qualquer dessas coisas. Paulo disse a Timóteo, de modo direto e claro: “Prega a palavra” (2 Tm 4.2). Este é o grande imperativo. [4]

Fiz questão de deixar por último a passagem que encabeça a nossa reflexão. Eis o que o apóstolo Paulo disse ao jovem pastor Timóteo: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1 Timóteo 5.17). Como este texto tem sido desprezado pela grande maioria das congregações! O termo “honorários” (timês) significa literalmente “estipêndio, salário”, mas não apenas isso. Significa também “honra, reverência, deferência, respeito, reconhecimento”. [5] O que o apóstolo Paulo está dizendo, é que os presbíteros que se afadigam na palavra e no ensino, com especialidade, devem ser tratados pela igreja onde servem com respeito dobrado, deferência duplicada. John Stott afirma o seguinte: “Os presbíteros que atuassem bem deveriam receber tanto o respeito como uma remuneração, ou seja, as duas coisas: honra e honorários”. [6] Não obstante, o que encontramos muitas vezes são pastores criticados e difamados porque não são bons [7] visitadores, mesmo que sejam fiéis pregadores da Palavra, homens que se afadigam, perdem noites de sono e muitas vezes se privam do convívio com suas famílias estudando e se preparando para oferecer às ovelhas do Senhor alimento de qualidade.

Para finalizar o apanhado bíblico sobre a prioridade da pregação, gostaria de citar apenas Hebreus 13.7: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram”. De quem os crentes hebreus deveriam lembrar? Dos líderes que eram bons visitadores? Não! Eles deveriam recordar dos líderes que lhes haviam pregado a Palavra de Deus!

Em momento algum desejo que alguém entenda que estou afirmando que a visitação pastoral não é importante, ou que não deve ser feita. Visitar é legítimo e importante. Contudo, estou apenas tentando deixar claro que ela não é a prioridade ministerial de nenhum pastor, não importando o tamanho da sua igreja ou o desejo dos membros. O próprio apóstolo Paulo que era constante na visitação aos lares dos efésios (At 20.20), sempre que se referia a si próprio, o fazia em termos que destacavam a pregação do evangelho (1 Co 2.1-16; Cl 1.24b-29; 1 Tm 2.7; 2 Tm 1.11; cf. At 17.18). Também não estou ignorando o ministério e os sábios conselhos de homens, como Richard Baxter em Kidderminster. Só não entendo como aquilo que realmente é a prioridade é tão desvalorizado no meio evangélico.

Devemos considerar também que, muitas vezes, pessoas que dirigem críticas mordazes e ácidas aos seus pastores por conta da ausência de visitação, nem sempre precisam de visitas. Em muitas ocasiões se trata apenas de desejo, não de real necessidade. Ademais, mesmo que visitemos pouco, geralmente, as pessoas mais críticas são justamente aquelas que mais foram visitadas por nós.

Para finalizar, gostaria apenas de mencionar o pensamento do sábio Dr. David Martyn Lloyd-Jones. Para ele, a fiel pregação da Palavra de Deus poupa muito tempo e trabalho pessoal ao pastor. Para ele, a verdadeira pregação aborda problemas pessoais. A consequência disso, é que a poderosa e fiel pregação usada pelo Espírito Santo pouparia o pastor de muitas visitas e de outros trabalhos de natureza pessoal. Eis as palavras de Lloyd-Jones:


Voltamo-nos agora para o terreno dos problemas pessoais. Este é um argumento familiar em nossos dias, conforme já indiquei. As pessoas dizem que os pregadores sobem aos púlpitos e pregam os seus sermões, mas ali mesmo, à frente deles, há indivíduos com problemas e sofrimentos pessoais. E o argumento prossegue: você deve pregar menos e dedicar mais tempo ao trabalho pessoal, aconselhando e conversando. Minha resposta a esse argumento consiste em sugerir, uma vez mais, que a solução é colocarmos a pregação na posição primordial. Por quê? Porque a verdadeira pregação aborda os problemas pessoais, de tal modo que poupa muito tempo ao pastor [...] A pregação do evangelho a partir do púlpito, aplicada pelo Espírito Santo aos ouvintes, tem sido o meio de tratar dos problemas pessoais a respeito dos quais eu, na qualidade de pregador, nada sabia, até que as pessoas viessem falar comigo [...] Não me compreendam mal. Não estou dizendo que o pregador jamais deve realizar qualquer trabalho pessoal; longe disso. Mas o meu argumento é que a pregação sempre deve vir em primeiro lugar e não deve ser substituída por coisa alguma. [8]

A partir do que as Escrituras ensinam, podemos concluir que não podemos relegar a pregação a um lugar secundário. Quando isso acontece, uma determinada igreja local é prejudicada e o pastor acaba perdendo o foco do seu ministério. Não importa o quão bom administrador alguém seja. Não importa o quão bom visitador algum pastor. No final das contas, o que será requerido dele é a fidelidade dedicada ao evangelho e à exposição de todos os desígnios de Deus.

Como pastor de uma igreja local, como eu gostaria que nossas igrejas compreendessem esta verdade. Mas, quem sabe, um dia... quem sabe, um dia...

Louvado seja o Senhor pela pregação do evangelho!

NOTAS:
[1] R. Albert Mohler, Jr., “A Primazia da Pregação”, In: Don Kistler, et. al. Apascenta o meu Rebanho: Um apaixonado apelo em favor da pregação. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 17.

[2] Mark Dever. Nove Marcas de uma Igreja Saudável. São José dos Campos: Fiel, 2007. p. 54.

[3] Vem do inglês Employability. Significa o conjunto de conhecimentos, habilidades e comportamentos que tornam um profissional importante não apenas para sua organização, mas para toda e qualquer empresa. São características que transcendem a organização, pois atendem às necessidades do mercado como um todo. Extraído do site http://blog.kombo.com.br/candidato/2009/01/28/o-q-e-empregabilidade/.

[4] Mark Dever. Nove Marcas de uma Igreja Saudável. p. 55.

[5] Thayer’s Greek Lexicon in BIBLEWORKS 6.0.

[6] John R. W. Stott. A Mensagem de 1 Timóteo e Tito. São Paulo: ABU, 2004. p. 138.

[7] Para a maioria das pessoas um bom visitador é aquele que é frequente na casas dos membros da igreja, não importando o propósito da visita.

[8] D. Martyn Lloyd-Jones. Pregação e Pregadores. 2. ed. São José dos Campos: Fiel, 2008. pp. 38-39.

7 comentários:

Salma kellya disse...

É Pastor realmente a preocupação com a pregação da palavra tem que está em primeiro lugar...o ideal é o equilibrio, até pq é so um pastor e as ovelhas são muitas, os proprios irmão precisam ser mais unidos pra saber das necessidades uns dos outros, partilhar os problemas...=]
Abraçoss de sua ovelha rs!!!

Alan Rennê disse...

Salminha!!!

Mais uma vez, que bom receber um comentário teu!

Concordo plenamente com você! De fato, se atentarmos bem para o que a Bíblia diz acerca de certas coisas que são cobradas exclusivamente dos pastores, veremos que há um erro. Por exemplo, pensa-se que o aconselhamento é tarefa exclusivamente do pastor. Não obstante se lermos atentamente o que Paulo diz à igreja de Colossos, em Colossenses 3.16, veremos que o aconselhamento é uma tarefa de responsabilidade de todos os membros, não apenas do pastor. O mesmo pode ser dito da visitação.

Algo interessante, é que de acordo com a Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, uma das funções dos presbíteros regentes é auxiliar o pastor no trabalho de visitação. Isso se dá em face das inúmeras atividades das quais o pastor está imbuído.

Creio que uma de nossas dificuldades reside justamente na perda do senso de que a igreja é uma família (figura aplicada à igreja por Paulo). Infelizmente, muitos membros não admitem que outros membros "se metam" em suas vidas. Mas, isso é exatamente o oposto do que o Novo Testamento nos ensina.

Por tudo isso, Salma, é que creio veementemente que a cobrança desordenada sobre visitação é apenas um sintoma de uma "doença" muito mais grave!

Louvado seja Deus por tua vida! Obrigado pela participação!

Clodoaldo Brunet disse...

Muito bom este artigo sobre a pregação. Mas, na minha leitura diária da palavra vi o seguinte: "Dentre os vossos filhos, suscitei profetas...aos profetas ordenastes dizendo:Não profetizeis" Amós 2.12.
A igreja hoje assume essa mesma posição diante da pregação. Para igreja moderna o momento sacro do culto é o louvor. Infelizmente o meio mais solene de apresentar Deus foi relegado ao segundo plano.
Isto é muito trágico, pois, os muitos lideres em busca de agradar aos seus ouvintes, tentaram tornar o culto mais atraente através do deteriorização do seu próprio ofício. Como consequencia não somente a pregação deixou de ser importante para igreja, mas, a figura do próprio pastor. Se este é o dever fundamental de um pastor, qual a utilidade do mesmo se não há compromisso deste com o seu ofício? Isso as vezes chega a ser além de trágico até cômico, que pastores se especializem em tantas coisas não essenciais ao seu ministério.
Mas, não desafaleceçamos, pois, isto aconteceu com os profetas do passado. Uns negociaram a pregação sendo infieis ao ministério, mas, outros se mantiveram firmes. Que Deus nos conceda graça.

Alan Rennê disse...

Grande Clodoaldo...

Você colocou as coisas de forma admirável. Pra piorar, muitos que abdicam de sua principal resposabilidade ministerial acabam, mesmo sem saber, criando dificuldades para os pastores comprometidos com a pregação, que posateriormente assumirão as suas ditas igrejas. Encontramos demais igrejas viciadas, que julgam o pastor por tudo, menos por sua fidelidade como pregador da Palavra.
Um grande abraço.

Alan Rennê disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Em defesa da graça disse...

Olá Rev.
Mais um excelente texto! De fato, como disse Spurgeon, vivemos num tempo onde "um sermão é um sermão" não importa o conteúdo "só que quanto mais rápido melhor". O evangelicalismo brasileiro encontra-se neste estado lastimável justamente porque trocou a fidelidade a Palavra pelas opções que o mundo oferece. O centro do culto hoje é o entretenimento, a Palavra (que já foi substituída atualmente pela "reflexão") é apenas uma desculpa para chamar o circo de igreja.

Nelson Ávila.

Obs: Adicionei seu blog a lista dos que leio.

Alan Rennê disse...

Nelson,

Além de muitos chamarem a pregação de uma simples "reflexão" há ainda os que, ao passarem a palavra para o pregador, dizem algo mais ou menos assim: "Fulano, que vai transmitir o RECADO do Senhor". Desde quando Deus manda recados? Há ainda os que se referem à pregação como um mero "compartilhar". Por trás disso tudo, há o temor de ferir o ego humano, visto que este reage contra a ideia de que Deus fala de forma autoritativa.

Triste realidade. Porém, permaneçamos firmes, pregando a Palavra, sendo fiéis ao chamado como despensairos dos mistérios divinos.

Um grande abraço! E muito obrigado pela deferência!

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