segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A PRIORIDADE DA PREGAÇÃO NO MINISTÉRIO PASTORAL

“Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1 Timóteo 5.17).

Recentemente participei da ordenação de um amigo ao Sagrado Ministério. Como ex-tutor do ordenando, foi-me dada a honra de dirigir-lhe a parênese, que nada mais é do que um breve discurso exortativo. Na ocasião, exortei-o a que tivesse bem definidas diante de si as prioridades do ministério, a saber, a oração e a pregação da Palavra. Creio que tal conselho é mais urgente hoje do que nunca, visto que o pastor de uma igreja local é obrigado a cumprir vários tipos de atividades ligadas ao pastorado, como por exemplo, estudos bíblicos, pregações, atos pastorais em congregações, visitas, discipulado, evangelismo, aconselhamento, administração e etc. Em muitos casos, encontramos pastores que tomam para si o encargo de mestres-de-obras.

Como consequência, as prioridades do ministério têm, paulatinamente, deixado de serem prioridades. Atividades legítimas, porém não prioritárias, acabam tomando o lugar da oração e da pregação da Palavra. Minha intenção aqui é discorrer um pouco a respeito de uma destas duas prioridades – a pregação do evangelho –, e a sua desconsideração por parte de muitas igrejas, que priorizam mais as visitas pastorais. R. Albert Mohler, Jr., afirma que, “a prioridade da pregação simplesmente não é evidente em grande número de igrejas”. [1]

O caráter prioritário da pregação da Palavra pode ser percebido, visto que ela é a primeira marca de uma igreja verdadeira. Não reconhecemos uma verdadeira igreja pelo número de visitas que o seu pastor faz, mas sim por sua fidelidade à exposição de todo o desígnio de Deus. Creio veementemente que, antes de qualquer outra coisa, é a fiel pregação que deve ser buscada em uma determinada igreja, como acertadamente pontua Mark Dever:
Se você está procurando uma boa igreja, esta é a coisa mais importante que deve ser levada em conta. Não me importo se você acha que os membros devem ser bastante agradáveis. Não me importo se a música é boa ou não. Estas coisas podem mudar. Mas o compromisso da igreja com a centralidade da Palavra que vem do púlpito, do pregador, daquele a quem Deus dotou de modo especial e chamou ao ministério – este é o fator mais importante que você deve procurar em uma igreja. [2]

Não é à toa que o pastor é chamado de Ministro da Palavra ou Ministro do Evangelho. Isso porque o seu grande chamado é para pregar, para expor a Palavra inspirada, autoritativa e inerrante de Deus. Creio também que é esse o padrão apresentado na Palavra de Deus.

As chamadas epístolas pastorais do apóstolo Paulo a Timóteo são bastante elucidativas a este respeito. Em todo o seu escopo encontramos a pregação da Palavra e o ensino da vontade de Deus como a grande função do pastor. Por exemplo, ao apresentar as qualificações necessárias para o episcopado, Paulo elenca, dentre elas, a aptidão para ensinar as Sagradas Escrituras (1 Timóteo 3.2). Se observarmos bem, não encontraremos que aquele que aspira ao episcopado deve ser um bom visitador. Ele deve ser irrepreensível, monogâmico, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar, não dado ao vinho, não violento, cordato, inimigos de contendas, desapegado dos bens materiais, bom marido, bom provedor e bom pai, experimentado e deve possuir bom testemunho diante de toda a sociedade (vv. 2-7). Porém, quão dificilmente encontramos uma comunidade que julgue a “empregabilidade” [3] dos seus pastores pelos critérios apresentados por Paulo.

No capítulo 4 de 1 Timóteo, encontramos outra evidência da primazia da pregação: “Expondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido” (v. 6). De que maneira Timóteo seria, verdadeiramente, um bom ministro de Cristo? Pelo número de visitas que viesse a fazer? Não! Pela exposição da bondade da criação de Deus em oposição àqueles que exigiam o ascetismo como regra de vida? Sim! O critério era a exposição da vontade de Deus. Ainda no verso 11, vemos o seguinte: “Ordena e ensina estas coisas”. No verso 13: “Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino”. Logo em seguida, o apóstolo acrescenta uma exortação a Timóteo: “Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto”. Timóteo seria negligente se não desse à pregação e ao ensino a primazia em seu ministério. Ele não poderia trocar a pregação por nenhuma outra faceta ministerial. Em vez disso, ele deveria ser diligente na proclamação da vontade do Senhor. Dessa forma, o seu crescimento e progresso seriam manifestos diante de todas as pessoas. Tudo passava pela pregação, não pela visitação.

Quando chegamos a 2 Timóteo, vemos que o padrão permanece inalterado. Logo no capítulo 1, falando acerca do evangelho, Paulo afirma que foi designado por Cristo como “pregador, apóstolo e mestre” (v. 11). Três ofícios inextricavelmente ligados à pregação. Em 2 Timóteo 2.14-15, está escrito: “Recomenda estas coisas. Dá testemunho solene a todos perante Deus, para que evitem contendas de palavras que para nada aproveitam, exceto para a subversão dos ouvintes. Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”.

O texto áureo da primazia da pregação é 2 Timóteo 4.1-2: “Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina”. A colocação feita por Mark Dever a respeito deste texto é extraordinária:


Essa foi a razão porque Paulo disse a Timóteo que “formasse um comitê”. Certo? É claro que não. Paulo nunca disse isso. No Novo Testamento, você nunca achará um pregador sendo instruído a formar um comitê. “Faça uma pesquisa”? Não! Paulo também nunca disse que alguém fizesse uma pesquisa. “Gaste seu tempo fazendo visitas”? Não! Paulo também nunca disse que um pregador fizesse isso. “Leia um livro”? Não! Paulo jamais disse ao jovem Timóteo que fizesse qualquer dessas coisas. Paulo disse a Timóteo, de modo direto e claro: “Prega a palavra” (2 Tm 4.2). Este é o grande imperativo. [4]

Fiz questão de deixar por último a passagem que encabeça a nossa reflexão. Eis o que o apóstolo Paulo disse ao jovem pastor Timóteo: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1 Timóteo 5.17). Como este texto tem sido desprezado pela grande maioria das congregações! O termo “honorários” (timês) significa literalmente “estipêndio, salário”, mas não apenas isso. Significa também “honra, reverência, deferência, respeito, reconhecimento”. [5] O que o apóstolo Paulo está dizendo, é que os presbíteros que se afadigam na palavra e no ensino, com especialidade, devem ser tratados pela igreja onde servem com respeito dobrado, deferência duplicada. John Stott afirma o seguinte: “Os presbíteros que atuassem bem deveriam receber tanto o respeito como uma remuneração, ou seja, as duas coisas: honra e honorários”. [6] Não obstante, o que encontramos muitas vezes são pastores criticados e difamados porque não são bons [7] visitadores, mesmo que sejam fiéis pregadores da Palavra, homens que se afadigam, perdem noites de sono e muitas vezes se privam do convívio com suas famílias estudando e se preparando para oferecer às ovelhas do Senhor alimento de qualidade.

Para finalizar o apanhado bíblico sobre a prioridade da pregação, gostaria de citar apenas Hebreus 13.7: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram”. De quem os crentes hebreus deveriam lembrar? Dos líderes que eram bons visitadores? Não! Eles deveriam recordar dos líderes que lhes haviam pregado a Palavra de Deus!

Em momento algum desejo que alguém entenda que estou afirmando que a visitação pastoral não é importante, ou que não deve ser feita. Visitar é legítimo e importante. Contudo, estou apenas tentando deixar claro que ela não é a prioridade ministerial de nenhum pastor, não importando o tamanho da sua igreja ou o desejo dos membros. O próprio apóstolo Paulo que era constante na visitação aos lares dos efésios (At 20.20), sempre que se referia a si próprio, o fazia em termos que destacavam a pregação do evangelho (1 Co 2.1-16; Cl 1.24b-29; 1 Tm 2.7; 2 Tm 1.11; cf. At 17.18). Também não estou ignorando o ministério e os sábios conselhos de homens, como Richard Baxter em Kidderminster. Só não entendo como aquilo que realmente é a prioridade é tão desvalorizado no meio evangélico.

Devemos considerar também que, muitas vezes, pessoas que dirigem críticas mordazes e ácidas aos seus pastores por conta da ausência de visitação, nem sempre precisam de visitas. Em muitas ocasiões se trata apenas de desejo, não de real necessidade. Ademais, mesmo que visitemos pouco, geralmente, as pessoas mais críticas são justamente aquelas que mais foram visitadas por nós.

Para finalizar, gostaria apenas de mencionar o pensamento do sábio Dr. David Martyn Lloyd-Jones. Para ele, a fiel pregação da Palavra de Deus poupa muito tempo e trabalho pessoal ao pastor. Para ele, a verdadeira pregação aborda problemas pessoais. A consequência disso, é que a poderosa e fiel pregação usada pelo Espírito Santo pouparia o pastor de muitas visitas e de outros trabalhos de natureza pessoal. Eis as palavras de Lloyd-Jones:


Voltamo-nos agora para o terreno dos problemas pessoais. Este é um argumento familiar em nossos dias, conforme já indiquei. As pessoas dizem que os pregadores sobem aos púlpitos e pregam os seus sermões, mas ali mesmo, à frente deles, há indivíduos com problemas e sofrimentos pessoais. E o argumento prossegue: você deve pregar menos e dedicar mais tempo ao trabalho pessoal, aconselhando e conversando. Minha resposta a esse argumento consiste em sugerir, uma vez mais, que a solução é colocarmos a pregação na posição primordial. Por quê? Porque a verdadeira pregação aborda os problemas pessoais, de tal modo que poupa muito tempo ao pastor [...] A pregação do evangelho a partir do púlpito, aplicada pelo Espírito Santo aos ouvintes, tem sido o meio de tratar dos problemas pessoais a respeito dos quais eu, na qualidade de pregador, nada sabia, até que as pessoas viessem falar comigo [...] Não me compreendam mal. Não estou dizendo que o pregador jamais deve realizar qualquer trabalho pessoal; longe disso. Mas o meu argumento é que a pregação sempre deve vir em primeiro lugar e não deve ser substituída por coisa alguma. [8]

A partir do que as Escrituras ensinam, podemos concluir que não podemos relegar a pregação a um lugar secundário. Quando isso acontece, uma determinada igreja local é prejudicada e o pastor acaba perdendo o foco do seu ministério. Não importa o quão bom administrador alguém seja. Não importa o quão bom visitador algum pastor. No final das contas, o que será requerido dele é a fidelidade dedicada ao evangelho e à exposição de todos os desígnios de Deus.

Como pastor de uma igreja local, como eu gostaria que nossas igrejas compreendessem esta verdade. Mas, quem sabe, um dia... quem sabe, um dia...

Louvado seja o Senhor pela pregação do evangelho!

NOTAS:
[1] R. Albert Mohler, Jr., “A Primazia da Pregação”, In: Don Kistler, et. al. Apascenta o meu Rebanho: Um apaixonado apelo em favor da pregação. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 17.

[2] Mark Dever. Nove Marcas de uma Igreja Saudável. São José dos Campos: Fiel, 2007. p. 54.

[3] Vem do inglês Employability. Significa o conjunto de conhecimentos, habilidades e comportamentos que tornam um profissional importante não apenas para sua organização, mas para toda e qualquer empresa. São características que transcendem a organização, pois atendem às necessidades do mercado como um todo. Extraído do site http://blog.kombo.com.br/candidato/2009/01/28/o-q-e-empregabilidade/.

[4] Mark Dever. Nove Marcas de uma Igreja Saudável. p. 55.

[5] Thayer’s Greek Lexicon in BIBLEWORKS 6.0.

[6] John R. W. Stott. A Mensagem de 1 Timóteo e Tito. São Paulo: ABU, 2004. p. 138.

[7] Para a maioria das pessoas um bom visitador é aquele que é frequente na casas dos membros da igreja, não importando o propósito da visita.

[8] D. Martyn Lloyd-Jones. Pregação e Pregadores. 2. ed. São José dos Campos: Fiel, 2008. pp. 38-39.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

TEOLOGIA DESCOMPLICADA: O QUE QUER DIZER A EXPRESSÃO "HOMEM SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS" APLICADA A DAVI?

Esta pergunta é muito interessante, visto que a expressão entre aspas está amplamente incorporada ao dialeto evangeliquês. Nós a encontramos em livros, em músicas e de modo generalizado na boca da massa evangélica. Sempre ouvimos uma oração do tipo: “Ó Senhor, ajude-me a ser um homem segundo o teu coração!”

O mais comum, porém, é encontrarmos essa expressão como uma espécie de justificativa para pecados cometidos por nós. Seria algo mais ou menos assim: “Mas, se até Davi, que era o homem segundo o coração de Deus, pecou, imagina eu!” O ponto a ser destacado, é que a expressão “homem segundo o coração de Deus” é usada com frequência como estando relacionada com alguma piedade especial que Davi teria recebido da parte de Deus. Ser um homem segundo o coração de Deus, então, seria um homem dotado de um diferencial em relação aos outros homens do seu tempo. Seria beirar à perfeição moral e espiritual.

Não obstante, quando paramos para ler as Escrituras com a devida atenção percebemos que não é esse o significado da expressão. Na realidade, Davi foi um dos personagens bíblicos cujas faltas receberam ampla cobertura (não estou afirmando que a Bíblia justifica as faltas de Davi!). A Bíblia não mascara o caráter dos seus personagens. Pelo contrário, ela é muito honesta e franca quanto a isso. Por exemplo, Davi foi culpado de pecados horrorosos como adultério, assassinato e poligamia (Davi teve oito esposas). Além disso, ele negligenciou os seus deveres e responsabilidades como pai. Como, então, a expressão “homem segundo o coração de Deus” pode significar conformidade moral e espiritual ao caráter santo e reto de Deus? Simplesmente, não pode!

O grande problema é a má interpretação desta expressão. Ela é absurdamente mal lida e mal entendida. Nós a encontramos em Atos dos Apóstolos: “Então, eles pediram um rei, e Deus lhes deparou Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim, e isto pelo espaço de quarenta anos. E, tendo tirado a este, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade” (13.21,22). Para compreendermos o significado da expressão precisamos retornar às narrativas do Antigo testamento a respeito da unção tanto de Saul quanto de Davi como reis de Israel.


Em 1 Samuel 8 encontramos o relato de como se procedeu à escolha de Saul. Samuel já era de idade avançada e os seus filhos eram ímpios notórios (vv. 1-3). Então, os anciãos de Israel pediram que Samuel constituísse um rei sobre a nação, que os governasse como todas as nações (v. 5). Depois de ser enviado pelo Senhor com a resposta, Samuel expõe diante do povo todos os direitos do futuro rei (vv. 10-17). Em seguida, Samuel os advertiu dizendo o seguinte: “Então, naquele dia, clamareis por causa do vosso rei que houverdes escolhido; mas o SENHOR não vos ouvirá naquele dia” (v. 18). Devemos notar que o texto bíblico é claro ao afirmar que o povo seria o responsável pela escolha do rei.


No capítulo 9, é introduzida a narrativa a respeito de Saul, “moço e tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele; desde os ombros para cima, sobressaía a todo o povo” (v. 2). É interessante a ênfase que o autor coloca sobre a descrição física de Saul. Não há qualquer menção de qualidades interiores ou morais. Isso dá a entender que a suntuosidade estética de Saul foi preponderante para a sua escolha como rei. Outro não poderia ser o rei senão aquele jovem de beleza tão destacada. Tal descrição contrasta fortemente com o que é dito acerca de um dos filhos de Jessé, em 1 Samuel 16.18: “Então, respondeu um dos moços e disse: Conheço um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é forte e valente, homem de guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o SENHOR é com ele”. Na descrição de Davi a ênfase está colocada nas qualidades interiores, como por exemplo, força, valentia, coragem, prudência no falar. O aspecto espiritual também é ressaltado (e o SENHOR é com ele). Sua boa aparência é mencionada, porém, sem a suntuosidade da descrição de Saul.


Precisamos observar também as passagens do Antigo Testamento relacionadas com a citação de Atos 13.22. Em 1 Samuel 13.14, após reprovar Saul por ter oferecido sacrifícios – o que não lhe competia –, Samuel afirmou o seguinte: “Já agora não subsistirá o teu reino. O SENHOR buscou para si um homem que lhe agrada e já lhe ordenou que seja príncipe sobre o seu povo, porquanto não guardaste o que o SENHOR te ordenou”. Samuel diz a Saul que o seu sucessor no trono de Israel era do agrado do Senhor, indicando assim, o prazer de Deus na pessoa do futuro ungido.

Outra pista para o entendimento da expressão em questão está no capítulo 16.6,7: “Sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe e disse consigo: certamente, está perante o SENHOR o seu ungido. Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração”. Este versículo é, deveras, elucidativo para a nossa questão. Quando lembramos da descrição de Saul (9.2) e vemos as palavras de Deus a Samuel, podemos concluir que o prazer do povo em relação à escolha do rei recaía sobre o seu exterior, a sua aparência. O critério do Senhor é completamente diferente do critério humano. Enquanto o homem se fia na opulência estética e física, Deus se agrada do interior.


Após este longo (e cansativo) arrazoado, creio que fica claro o sentido da expressão. Quando lemos em Atos dos Apóstolos que Davi era o “homem segundo o coração de Deus”, devemos compreender que tal expressão faz referência ao gosto de Deus, ao seu prazer, ao seu agrado. Enquanto Davi era o homem segundo o coração de Deus, Saul era o homem segundo o coração dos homens. Por fim, é preciso que se entenda que a discussão não é acerca da soberania de Deus na escolha do rei. Não está em pauta o decreto de Deus. O foco gira em torno daquilo que agrada a Deus em oposição àquilo que agrada o homem.


Devemos, então, continuar cantando e orando pedindo que Deus nos faça homens e mulheres segundo o seu coração? Particularmente, eu agradeço constantemente a Deus, porque em Cristo e por causa de Cristo, antes da fundação do mundo, fui escolhido segundo o coração de Deus. E isto é verdade em relação a todo filho e filha de Deus.


Louvado seja o Senhor! SOLI DEO GLORIA!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O OITAVO MANDAMENTO E A PIRATARIA

Algo comum em nossa nação (que segundo analistas deixou de ser um país subdesenvolvido e agora é um país em desenvolvimento) é o consumo desenfreado de material ilegal, ou como é mais conhecido, material pirata. Uma caminhada rápida pelas principais ruas de nossas cidades demonstrará isso. São inúmeros os “stands” de venda de CDs e DVDs ilegais. O interessante é que a procura por tais produtos faz valer a oferta, de maneira que, tornou-se praticamente impossível um combate eficaz contra esse tipo de prática.

Não obstante, não podemos restringir a questão da pirataria apenas às mídias digitais. O problema é bem mais grave do que imaginamos. A pirataria está plenamente enraizada e entranhada em nossos corações. Por exemplo, o consumo de softwares “copiados” (leia-se “piratas”) é comum, roupas, bolsas femininas, relógios e muitas outras coisas (vi uma reportagem sobre pirataria que afirmava que até mesmo peças de avião já estão sendo pirateadas). Percebe-se, que a pirataria tem se tornado um mal generalizado, presente em praticamente todas as linhas de produto.

De que forma a igreja evangélica tem se postado em relação a isso? Infelizmente, a grande maioria dos evangélicos, inclusive alguns reformados, tem capitulado e se rendido aos encantos de material mais barato. Encontramos pontos de venda de material pirata exclusivamente evangélico. Irmãos e irmãs, quando de suas idas a São Paulo, são por demais frequentes em locais, como por exemplo, a famigerada Rua 25 de Março. Também consumimos programas de computador pirateados e achamos que está tudo normal. Baixamos músicas e filmes pela internet sem o menor constrangimento. Nossa mente (nossa velha fábrica de ídolos) é hábil em encontrar desculpas e justificativas reducionistas para nosso comportamento pecaminoso. Dizemos coisas como: “César (o governo) impõe sobre nós uma carga tributária abusiva!”, “Eu copio, mas não é para vender, e sim para consumo próprio!”. Precisamos compreender que com tais desculpas podemos até calar nossas consciências, porém, não enganaremos a Deus.

O consumo de material ilegal não recebeu a alcunha de “pirataria” por acaso. Interessante é a explicação fornecida por Paul D. Simmons a este respeito:

A pirataria é (1) roubo ou tomada ilegal de bens no mar ou nas margens do mar ou (2) o uso não autorizado ou apropriação de obras com direitos autorais [...] No uso moderno, a pirataria se refere a um tipo de roubo mais sofisticado. O comércio e a indústria usam aparelhos patenteados sem autorização, peças musicais são escritas por alguns e usadas como sendo de autoria de outros, e escritores (incluindo teólogos) têm plagiado material escrito. Outros, sem a mínima ética, publicam ideias colhidas de fontes não publicadas sem dar crédito ao autor original. O desenvolvimento da informática e dos meios de comunicação a ela associados (Internet, CDs e MP3s) facilitou esse tipo de pirataria.

Então, entendamos que pirataria é roubo! E, sendo roubo, é uma flagrante quebra do Oitavo Mandamento: “Não furtarás” (Êxodo 20.15). O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta 141, afirma que entre os deveres exigidos pelo Oitavo Mandamento estão incluídos: “dar a cada um aquilo que lhe é devido; restituir aos donos legítimos os bens tirados deles ilicitamente”. Pirataria é negar ao dono de determinada obra aquilo que lhe é devido. É fazer uso ilícito daquilo que pertence a outrem. Então, pirataria é roubo.

Adiantando possíveis objeções, é preciso afirmar que tal entendimento anda longe de ser farisaico. Quando lembramos da exposição feita pelo Senhor Jesus Cristo dos mandamentos do Antigo Testamento, podemos ver que, de fato, é assim. Para que alguém se torne culpado da quebra do Sexto Mandamento (Não matarás) não é necessário dar um tiro ou esfaquear alguém. Basta se irar sem motivo ou proferir insultos contra ele (Mateus 5.21-26). Para que você seja culpado de adultério não é preciso que tenha relações sexuais fora do casamento. É suficiente olhar para outra pessoa com intenções impuras no coração (Mateus 5.27-30). De igual modo, para nos tornarmos culpados de roubo ou furto não precisamos chegar ao cúmulo de tomar à força ou de forma oculta o que pertence a outras pessoas. Basta fazer uso sem dar a quem de direito o que lhe pertence.

É verdade que a carga tributária em nossa nação é altíssima. É verdade que trabalhamos quatro meses apenas para pagarmos impostos. É verdade também que não vemos o retorno dos impostos pagos em áreas como saúde, educação e segurança. É verdade que nossos governantes usam nossos impostos de forma fraudulenta. Porém, não é correto protestar contra isso cometendo pecado contra a Lei do Senhor. Não podemos justificar nossos pecados fazendo uso dos pecados do Estado. César toma o que é nosso? Sim, sem dúvidas! CDs e DVDs originais são caros? Sim, com certeza! Porém, queridos leitores do Cristão Reformado, também fomos chamados para sofrer como e por Cristo nesta área. O Império Romano também era extremamente abusivo na cobrança de impostos. No entanto, encontramos Jesus dando o exemplo e pagando os seus impostos (Mateus 17.24-27). O mais interessante, é que Jesus não tinha nenhuma obrigação de pagar tributo, porém, ele o fez para evitar escândalos (v. 27). Fomos chamados para fazer a diferença também no que concerne ao uso correto e justo de produtos originais. Fomos chamados pelo Senhor Jesus Cristo para seguirmos os seus passos dizendo “Não!” à pirataria em suas variadas formas. Fomos chamados para imitarmos o exemplo dos cristãos primitivos, que aceitavam com alegria o espólio dos seus bens. E a razão que os levava a agirem assim, era a certeza de possuírem no céu patrimônio superior e durável (Hebreus 10.34).
Obedeçamos ao ensinamento de Cristo: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12.16).

Que possamos refletir seriamente a este respeito. E que o Senhor nos conduza ao arrependimento!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A (IR)RACIONALIDADE DO SER HUMANO SEM DEUS

“O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Isaías 1.3).

O ser humano é reputado como sendo o único animal racional. Sua capacidade cognitiva e de raciocínio é o fundamento da sua categorização como homo rationalis. Os outros animais, em sua totalidade, são classificados como sendo irracionais. A Bíblia afirma que a capacidade cognitiva e racional humana é de natureza ectípica, ou seja, é derivada de um modelo original e perfeito, o Arquétipo, no caso, o próprio Deus Soberano Criador do universo: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança [...] Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1.26,27). Uma das características da imagem de Deus no homem é justamente a sua racionalidade.
Não obstante, à luz do que as Sagradas Escrituras afirmam a respeito do homem, podemos afirmar com toda a certeza, que, na realidade, o ser humano, morto em seus delitos e pecados, é o mais irracional de todos os animais. A passagem do profeta Isaías é demasiadamente clara a este respeito: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Isaías 1.3). Isto não quer dizer, todavia, que, por ocasião da queda, o homem perdeu por completo a sua racionalidade. O homem não é incapaz de fazer uso da razão. O que a Escritura está ensinando, na verdade, é que o pecado causou um estrago imenso na razão humana. Esta se encontra absurdamente deformada, a ponto de Deus afirmar que o seu povo não possuía conhecimento real a seu respeito. É verdade que, no contexto, está enfocado o povo de Israel apóstata. Não obstante, podemos afirmar a mesma realidade no que concerne ao homem enquanto ser criado por Deus.

O homem sem Deus, cego em seu entendimento (2 Coríntios 4.4), é incapaz de reconhecer o Criador e se curvar em obediência e adoração a Ele. O apóstolo Paulo afirma que o ser humano se encontra em estado tal, que em vez de adorar o Criador, adora a criatura (Romanos 1.18-25). Ao passo que os animais irracionais conhecem os seus donos e possuidores, o homem é incapaz de reconhecer o seu Possuidor. A desgraça do pecado consiste nisto: no impedimento ao verdadeiro conhecimento de Deus. Por isso, podemos afirmar com propriedade que o homem é o mais irracional dos animais. Isso nos lembra o dito do puritano Joseph Alleine, na sua obra Um Guia Seguro para o Céu. Ele disse o seguinte: "Ó homem! Que monstro o pecado te transformou!"

O reformador francês João Calvino (1509-1564) estabeleceu as bases da verdadeira epistemologia. Calvino nos ofereceu uma diretriz clara de como o homem pode chegar a conhecer algo verdadeiramente no capítulo de aberturas das Institutas (1559). Eis suas palavras:

Quase toda a soma de nosso conhecimento, que de fato se deva julgar como verdadeiro e sólido conhecimento consta de duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Como, porém, se entrelaçam com muitos elos, não é fácil, entretanto, discernir qual deles precede ao outro, e ao outro origina.

De fato, é impossível ter qualquer conhecimento verdadeiro se não tivermos o correto conhecimento acerca de Deus e de nós mesmos. A grande questão que se levanta nesse momento é: Como o ser humano morto espiritualmente pode obter qualquer conhecimento acerca de Deus, visto que o pecado tem o poder devastador de impedir o relacionamento entre o Criador e a criatura? Vale salientar ainda que, não se trata de um mero conhecimento acerca da existência de Deus, mas um conhecimento piedoso e devoto, que envolva relacionamento íntimo entre Deus e o homem. Em virtude de o homem trazer em seu coração aquilo que Calvino denominou de semen religionis, ele tem conhecimento da existência de uma divindade. Não obstante, o pecado impede que ele reconheça o seu Criador. Então, como resolver esse dilema?

A resposta é: em Jesus Cristo, o nosso Redentor. É somente por meio de Jesus Cristo que podemos conseguir qualquer conhecimento real. Apenas em Cristo o homem encontra a expressão genuína da sua racionalidade. As Escrituras mostram isso de forma maravilhosa quando afirma: “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11.9). Não se trata de uma passagem citada fora de contexto. Basta observar que o capítulo 11 de Isaías trata exatamente da vinda dAquele que é o descendente de Davi, Jesus Cristo. Ademais, Deus, falando por meio do profeta Jeremias, no contexto da Nova Aliança, afirma: “Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jeremias 31.34; cf. os versículos 31-33).

Então, por mais que os grandes “luminares” do pensamento intelectual pós-moderno postulem a autonomia da razão humana, na verdade, posicionamo-nos nas fileiras daqueles considerados como “loucos” pelo mundo (1 Coríntios 1.18-31), que proclamam a falência da razão humana. Somente por meio do nosso Cristo é que recebemos o verdadeiro conhecimento. Apenas em Jesus é que o homem é salvo (leia-se “passivamente”) da sua irracionalidade.

Graças a Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, “o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”.
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