sexta-feira, 18 de junho de 2010

NUNCA TENTE CONVENCER O TOLO COM ARGUMENTOS. É INÚTIL!

Por Jonas Madureira

Tolos. Se você conhece algum, vai entender perfeitamente a razão pela qual considero o caminho da persuasão lógica e racional um caminho contraproducente no diálogo com eles (se é que é possível tal diálogo!). A razão é bem simples: o tolo é, por natureza, completamente satisfeito consigo mesmo. Ou seja, ele está tão embriagado de si mesmo que a única coisa que ele consegue aceitar, no diálogo com o outro, é ele próprio e suas ideias. Nada mais lhe interessa senão confirmar ou reafirmar suas teses. Ele não consegue olhar para o outro, esforçando-se por compreendê-lo. E essa incapacidade decorre do fato de que ele foi sugestionado a acreditar em si mesmo e em suas ideias sem ter que, ao mesmo tempo, refletir criticamente sobre si mesmo e suas ideias. Em outras palavras, o tolo é aquele que foi ensinado por “autoridades inquestionáveis” a absorver inúmeros pressupostos, muitos deles plausíveis e verdadeiros, porém sem questioná-los, sem pensá-los.

Que não se entenda a tolice dos tolos como uma patologia da qual os hábeis intelectuais estão imunes! Dizer que a tolice faz parte apenas da natureza daqueles que não alcançaram o paroxismo da inteligência humana é um erro crasso que apenas os tolos cometem. É indubitável que a tolice não é, por natureza, um defeito intelectual, mas um defeito humano. Por exemplo, existem pessoas que são intelectualmente ligeiras, sacam as coisas com rapidez, mas são tolas (basta lembrar do filósofo alemão Martin Heidegger, que possuía uma notável habilidade lógico-filosófica, mas que, em um determinado momento de sua vida, defendeu os ideais nazistas). Em contrapartida, existem pessoas que são muito lentas quando pensam, mas são tudo menos tolas (Lutero, por exemplo, vivia reclamando pelos cantos da Universidade de Erfurt, na Alemanha, de que ele jamais poderia ser um teólogo de verdade porque se considerava lento demais para o raciocínio lógico; e, diga-se de passagem, muitos seguidores de Philipp Melanchthon concordariam com Lutero!).

Entender que a tolice é um defeito humano é sacar que todas as pessoas são, por natureza, tolas. Portanto, pessoas não se tornam tolas, elas no máximo deixam de ser tolas. E como elas deixam de ser tolas? Dietrich Bonhoeffer, quando estava preso por causa da perseguição nazista, escreveu inúmeras cartas. Numa delas, ele disse que “somente um ato de libertação poderia vencer a tolice; um ato de instrução ou argumentação lógica nada pode fazer para convencer o tolo de sua tolice. Antes de tudo, o tolo precisa de uma libertação interior autêntica, e enquanto isso não ocorre temos de desistir de todas as tentativas de persuadi-lo”.

Essa necessidade de “libertação interior autêntica”, enfatizada por Bonhoeffer, também pode ser encontrada entre os primeiros filósofos gregos. No livro VII da República, Platão mostra Sócrates “ensinando” para o jovem Glauco que para as pessoas conhecerem a verdade elas precisam ser primeiramente libertas. Para isso, o filósofo contou uma história sobre seres humanos que, desde o seu nascimento, estão aprisionados em uma caverna subterrânea. Eles não sabem o que é o mundo fora da caverna. Suas pernas e seu pescoço estão algemados de tal sorte que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas em direção a uma parede. Atrás deles, na entrada da caverna, há um foco de luz que ilumina todo o ambiente. Entre esse foco de luz e os prisioneiros, há uma subida ao longo da qual foi erguido um pequeno muro. Para além desse pequeno muro, encontram-se homens que transportam estátuas que ultrapassam a altura do pequeno muro. Eles carregam estátuas de todos os tipos: de seres humanos, de animais e de toda sorte de objetos. Por causa do foco de luz e da posição que ele ocupava, os prisioneiros são capazes de enxergar, na parede do fundo, as sombras dessas estátuas, mas sem verem as próprias estátuas, nem os homens que as transportam. Como nunca viram outra coisa além das sombras, os prisioneiros pensam que elas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que as sombras não passam de projeções das coisas, nem podem saber que as coisas projetadas são, na verdade, estátuas carregadas por outros seres humanos.

O que aconteceria, pergunta Sócrates a Glauco, se alguém libertasse os prisioneiros? O que faria um prisioneiro liberto daquelas algemas? Sem dúvida, olharia toda a caverna. Ao seu redor, veria os outros prisioneiros, o pequeno muro às suas costas, as estátuas e a entrada da caverna. Seu corpo doeria a cada passo dado. Afinal de contas, ele ficou imóvel durante muitos anos. Não bastassem as dores do corpo, ao se dirigir à entrada da caverna ficaria momentaneamente cego, pois aquele foco de luz que clareava a caverna, na verdade, era o sol. Porém, com o passar do tempo, já acostumado com a claridade, seria capaz de ver não só as estátuas, mas também os homens que as carregavam. Prosseguindo em seu caminho, passaria a enxergar as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não contemplara senão sombras das estátuas projetadas no fundo da caverna.

Na condição de conhecedor desse “novo” mundo, o prisioneiro liberto regressaria ao velho mundo subterrâneo. Ao chegar, ele contaria aos outros prisioneiros, ainda algemados, o que viu. Sua missão seria libertá-los, pois é somente na condição de livre que alguém pode ser capaz de contemplar o mundo das coisas tais como elas são. O que mais poderia acontecer após esse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras, pois o único mundo real é o mundo da caverna. Por isso, tentariam silenciá-lo de todas as formas. No entanto, se ele teimasse em afirmar o que viu e insistisse em convidá-los a sair da caverna, os homens das sombras o matariam. Foi assim que Sócrates concluiu o mito da caverna.

Os tolos são aqueles que tomam as sombras como se fossem as coisas mesmas. O homem-que-deixou-de-ser-tolo, porém, é aquele que não se satisfaz com as imagens projetadas no fundo da caverna, mas impulsionado pelo desejo de contemplar as coisas mesmas, arrebenta os grilhões que o aprisionam. Ao se libertar, dirige-se ao mundo verdadeiro. E quando o mundo verdadeiro se abre para ele, ou seja, no momento em que ocorre a revelação da verdade (alethéia), o homem-que-deixou-de-ser-tolo se compraz apenas em perceber sua própria tolice. Esse é o ponto. O tolo, por natureza, não sabe que é tolo, não tem consciência de sua tolice. Ele toma as sombras como se fossem as coisas mesmas. Por isso, a única maneira de um tolo se livrar de sua tolice é descobrir que ele é tolo. Mas veja, esse é o ponto de partida não o de chegada. Depois da consciência da tolice, é preciso deixar de ser tolo!

Enquanto o tolo não enxerga a sua tolice não adianta argumentar. Não adianta tentar persuadir aquele que está completamente preso em si mesmo. E por que? Porque onde há oprimidos há um opressor. Há um opressor dentro do tolo. Na conversa com ele percebe-se que não é com ele mesmo que se está tratando, mas com chavões, clichês, palavras de ordem, argumentos ad hominem, que operam nele e tomam conta de sua mente. O tolo, como diz Bonhoeffer, “está fascinado, obcecado, foi maltratado e abusado em seu próprio ser. Tendo-se tornado, assim, um instrumento sem vontade própria”.

Enfim, minha ojeriza pela tolice não deveria ser entendida como mero ódio ao tolo, mas, sim, como ódio ao poder que inevitavelmente precisa e se nutre da tolice humana.

“Hey! Teacher! Leave them kids alone!”

terça-feira, 8 de junho de 2010

ENTRETENIMENTO, UMA ESTRATÉGIA DO INIMIGO

Por Archibald Brown
Cada época requer sua própria maneira de testemunhar. A sentinela que é fiel ao seu Senhor e à cidade do seu Deus precisa observar atentamente os sinais dos tempos e dar ênfase ao seu testemunho, de modo apropriado. Acerca do alerta que se requer no tempo presente, há bem pouca ou quase nenhuma dúvida. Na seara do Senhor, existe um mal tão grosseiro e tão atrevido em sua falta de pudor, que, dentre os homens espirituais, o de menor visão dificilmente deixaria de perceber.
Durante os últimos anos, este mal tem se alastrado de uma maneira fora do comum, mesmo para uma atividade maligna. Tem funcionado como fermento; e, até agora, a massa continua crescendo. Em qualquer direção que você olhe, a presença deste mal se faz manifesta. Há pouco, ou quase nada, a escolher entre as igrejas, capelas ou encontros missionários. Embora possam diferir em alguns aspectos, eles exibem uma semelhança impressionante nos cartazes que abarrotam seus quadros de avisos. Entretenimento para o público é a principal atração divulgada em cada cartaz. Se qualquer dos meus leitores duvidar de minha afirmativa ou considerá-la muito radical, que dê uma volta pelas igrejas da vizinhança e olhe no quadro de anúncios da semana; ou que leia as divulgações religiosas nos periódicos locais. Eu tenho feito isto vez após vez, até a total comprovação do fato terrível de que o entretenimento tem usurpado, como grande atração, o lugar da pregação do evangelho. Concertos, divertimentos, bazares, sociais, esquetes — são as palavras destacadas em letras grandes e cores surpreendentes. Os concertos musicais têm sido crescentemente considerados como parte integrante da vida da igreja, equiparando-se à reunião de oração, e, na maioria dos lugares, têm sido bem mais freqüentados do que esta.
A menos que se levantem algumas vozes firmes que se façam ouvir, o provimento de recreação às pessoas logo será visto como uma parte necessária do culto cristão e como uma obrigação para a igreja de Deus, à semelhança de um mandamento divino. Não presumo ser uma dessas vozes, mas nutro a esperança de poder despertar outras que ecoem mais alto. De qualquer forma, repousa sobre mim o peso do Senhor quanto a este assunto, e submeto a Ele o fazer repercurtir o meu testemunho ou o deixá-lo evaporar em silêncio. Em ambos os casos terei cumprido o meu dever. Contudo, minha mente se enche da convicção de que, em todos os lugares, existem homens e mulheres fiéis que enxergam o perigo e o lamentam. Estes apoiarão meu testemunho e minha advertência.
Só durante os últimos anos o entretenimento tem se tornado uma reconhecida arma de nosso combate e se desenvolvido a nível de missão. Neste aspecto tem ocorrido uma constante decadência. Partindo de uma posição contrária, como a dos Puritanos, a igreja vem amenizando, gradualmente, suas objeções, ignorando e justificando as frivolidades diárias. Então, elas têm sido toleradas no meio cristão, que agora as adotou e providenciou-lhes lugar em suas atividades, sob o pretexto de alcançar as massas e aproximar-se dos ouvidos do povo. Poucas vezes o diabo tem feito coisa mais esperta do que dar à igreja de Cristo a sugestão de que parte de sua missão é prover entretenimento, com o objetivo de atrair pessoas às suas fileiras. A natureza humana, que habita em cada coração, tem mordido a isca. Eis, agora, uma oportunidade de se gratificar a carne e, ainda assim, manter uma consciência tranqüila. Pode-se, agora, agradar a si mesmo, com a finalidade de fazer o bem a outros. A rude e antiga cruz já pode ser trocada por roupas da moda, e isto com o propósito benevolente de edificar as pessoas. Tal quadro é muito entristecedor, e ainda mais porque pessoas verdadeiramente sinceras têm sido levadas pelo pretexto ilusório de que esta é uma forma de serviço cristão. Elas se esquecem de que um anjo de aparência bela pode ser o próprio diabo, “porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2 Co 11.14).
Minha primeira argumentação é que em nenhum lugar das Sagradas Escrituras é mencionado que uma das funções da igreja é prover entretenimento ao povo.
Mais adiante, veremos quais são seus deveres, mas no momento estamos tratando do lado negativo da questão. É certo que, se o nosso Senhor tivesse planejado que sua igreja fosse provedora de entretenimento, para neutralizar a ação do deus deste século, dificilmente teria deixado de mencionar uma obra tão importante. Se este é um trabalho cristão, por que Cristo não fez ao menos uma alusão a ele? A ordem “ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15) é suficientemente clara. Se Ele tivesse acrescentado: “E providenciai entretenimento aos que não apreciam o evangelho”, teria sido igualmente claro. Contudo, tal complemento não é encontrado, nem qualquer expressão equivalente, em nenhuma das declarações do nosso Senhor. Este tipo de serviço parece não lhe ter ocorrido à mente. Em outra ocasião, Cristo, como Senhor ressurreto, deu à sua igreja homens com qualificações especiais para a continuação de sua obra, mas não mencionou qualificação alguma para o referido tipo de serviço. “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11,12). Onde os entretenedores do público entram? O Espírito Santo se cala a respeito deles; e o seu silêncio é eloquente.
Se prover recreação no culto faz parte do trabalho da igreja, certamente poderíamos encontrar alguma promessa bíblica para encorajá-la em sua laboriosa tarefa. Mas, onde encontrá-la? Há uma promessa sobre a Palavra: “A palavra... não voltará para mim vazia” (Is 55.11). Há uma declaração procedente de um coração exultante a respeito do evangelho: “É o poder de Deus” (Rm 1.16). Há, também, para o pregador do evangelho, a doce segurança de que ele é um aroma agradável a Deus (2 Co 2.15), quer seja bem-sucedido, quer não — a julgar pelo que o mundo considera ser sucesso. Há, ainda, a bem-aventurança aos que com seu testemunho, ao invés de entreterem o mundo, despertam sua ira: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.11,12). Os profetas foram perseguidos por que agradaram o povo ou por que se recusaram a entretê-lo? O evangelho do entretenimento não produz mártires. É inútil alguém procurar por uma promessa de Deus quanto à recreação [espiritual] para um mundo iníquo. Aquilo que não tem autoridade da parte de Cristo, nem qualquer apoio do Espírito ou promessa vinculada a si por intermédio de Deus, só pode ser uma atividade hipócrita, quando reivindica ser uma faceta do serviço do Senhor.
Continuando, prover entretenimento ao povo é algo diretamente antagônico ao ensino e à vida de Cristo e de seus apóstolos.
Qual deve ser a atitude da igreja em relação ao mundo, de acordo com o ensino do Senhor? Rígida separação e oposição inflexível. Se, por um lado, os lábios do Senhor jamais sugeriram o agradar o mundo, a fim de conquistá-lo, ou o adaptar métodos ao gosto dele; por outro lado, é constante e enfática sua exigência de desapego ao mundo. Ele apresentou de forma objetiva o que os seus discípulos deveriam ser: “Vós sois o sal da terra” (Mt 5.13). Sim, o sal! — não o algodão doce ou bolo com recheio de creme, mas algo que o mundo estaria mais disposto a cuspir do que a engolir com satisfação. Algo mais propenso a trazer lágrimas aos olhos do que riso aos lábios.
As declarações são curtas e penetrantes: “Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e prega o reino de Deus” (Lc 9.60); “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (Jo 15.19); “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33); “Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo” (Jo 17.14); “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36).
É difícil serem conciliadas estas passagens com a idéia moderna de que a igreja deve prover entretenimento aos que não têm inclinação para as coisas mais sérias — em outras palavras, agradar o mundo. Se esses textos trazem quaisquer ensinamentos, não são outros senão estes: que a fidelidade a Cristo suscitará a ira do mundo e, que Cristo tencionava que seus discípulos compartilhassem com Ele o escárnio e a rejeição do mundo. Como Jesus agia? Quais eram os métodos da única testemunha perfeitamente fiel que o Pai já teve?
Visto que ninguém questionará que Jesus tinha como alvo o ser modelo para seus servos, vamos observá-Lo mais demoradamente. Como é significativo o relato introdutório dado por Marcos! “Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no Evangelho” (1.14,15). No mesmo capítulo, respondendo ao aviso dado pelos discípulos de que todos O buscavam, nós O encontramos, dizendo: “Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de que eu pregue também ali, pois para isso é que eu vim” (v. 38). Em Mateus, nós lemos: “Ora, tendo acabado Jesus de dar estas instruções a seus doze discípulos, partiu dali a ensinar e a pregar, nas cidades deles” (11.1). E, em resposta à pergunta de João — “És tu aquele que estava para vir?” (Mt 11.3) — Ele disse: “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.4,5). Não faz parte deste relatório qualquer item do tipo: Os desinteressados recebem entretenimento, e os que estão perecendo são providos de recreação inocente.
Não somos deixados em dúvida quanto à substância de sua pregação, pois lemos: “Muitos afluíram para ali, tantos que nem mesmo junto à porta eles achavam lugar; e anunciava-lhes a palavra” (Mc 2.2). Não houve mudança na metodologia adotada pelo Senhor, durante o curso de seu ministério; nem veio Ele a aprender, pela experiência, um método melhor. Sua primeira ordenança aos seus evangelistas foi: “E, à medida que seguirdes, pregai” (Mt 10.7); e sua última ordem a eles: “Pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Evangelista algum jamais sugeriu que, em qualquer tempo de seu ministério, Jesus tenha deixado a pregação para entreter as pessoas, com o propósito de atraí-las. Ele tinha uma seriedade diligente, e assim era o seu ministério. Se tivesse sido mais flexível e inserido elementos atrativos em sua missão, Ele teria sido mais popular.
Contudo, na ocasião em que muitos de seus discípulos voltaram atrás, por causa da natureza penetrante de sua pregação, não observamos que houve qualquer tentativa de aumentar o número daquela reduzida congregação, valendo-se de algo mais agradável para a carne. Tampouco o ouvimos dizer: Precisamos manter a audiência, de qualquer maneira. Então, Pedro, corre em busca daqueles amigos e diz-lhes que amanhã teremos um tipo diferente de culto — uma reunião muito breve e atrativa, com pouca ou talvez nenhuma pregação. Hoje o culto foi dedicado a Deus, mas amanhã teremos uma noite agradável dedicada ao povo. Diz-lhes que certamente irão gostar e terão momentos aprazíveis. Vai, rápido, Pedro! Precisamos ganhar o povo a qualquer custo. Se não for pelo evangelho, então que seja pela tolice. Não! Não foi assim que Ele argumentou. Fitando com tristeza os que não quiseram dar ouvidos à Palavra, simplesmente voltou-se para os doze e lhes perguntou: “Quereis também vós outros retirar-vos?” (Jo 6.67).
Jesus sentia dó dos pecadores, apelava para eles, lamentava por eles, os advertia, pranteava por eles, mas nunca buscou diverti-los. Quando as sombras do entardecer da sua vida consagrada estavam se aprofundando na noite da morte, Ele reviu seu santo ministério e encontrou conforto e doce consolo no pensamento: “Eu lhes tenho dado a tua palavra” (Jo 17.14). Os discípulos agiram como o Mestre – o ensinamento deles é um eco do ensinamento de Jesus. Em vão estudaríamos as epístolas a fim de descobrir qualquer traço de um evangelho de entretenimento. O mesmo chamado para a separação do mundo está em cada uma delas. “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos” é a ordem em Romanos 12.2. “Retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis em coisas impuras” (2 Co 6.17) é o chamado das trombetas ao coríntios. Em outras palavras, este chamado é: Retire-se – Permaneça fora – Mantenha-se limpo, pois “que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno?” (2 Co 6.14,15).
“Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo” (Gl 6.14). Aqui está o verdadeiro relacionamento entre a igreja e o mundo, de acordo com a epístola aos gálatas. “Portanto, não sejais participantes com eles” (Ef 5.7). “E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as” é a atitude ordenada em Efésios 5.11. “Filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo, preservando a palavra da vida” são as palavras em Filipenses 2.15,16. “Mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo” diz a epístola aos Colossenses (2.20 - ARC).
“Abstende-vos de toda forma de mal”, é a exigência em 1 Tessalonicenses 5.22.
“Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor” é a palavra dada a Timóteo (2 Tm 2.21). “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério” é a heróica intimação de Hebreus 13.13. Tiago, com uma dureza santa, declara que “a amizade do mundo é inimiga de Deus” (Tg 4.4). Pedro escreveu: “Não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na vossa ignorância; pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento” (1 Pe 1. 14,15). João escreveu uma epístola inteira sobre o tema: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 Jo 2.15-17).
Aqui estão os ensinamentos dos apóstolos quanto ao relacionamento da Igreja com o mundo. E ainda diante deles, o que vemos e ouvimos? Um compromisso amigável entre os dois e um esforço insano de trabalhar em parceria para o bem das pessoas. Deus nos ajude e dissipe a forte ilusão. Como os apóstolos faziam seu trabalho missionário? Em harmonia com seus ensinos? Deixemos que os Atos dos Apóstolos deem a resposta.
A ausência de qualquer coisa que se assemelhe ao mundanismo dos dias de hoje é notável. Os antigos evangelistas tinham confiança ilimitada no poder do Evangelho e não usavam outra arma. O Pentecostes veio após uma pregação simples. Quando Pedro e João estiveram presos durante uma noite por pregar a ressurreição, a Igreja primitiva teve uma reunião de oração. Quanto à libertação deles, a petição oferecida foi: “Agora, Senhor... concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra” (At 4.29). Eles não tinham em mente orar: Concede aos teus servos mais criatividade, de maneira que pelo sábio e característico uso de passatempos, eles possam evitar a ofensa da cruz e mostrar docemente a essas pessoas quão contentes e alegres somos.
A acusação feita pelos membros do Sinédrio contra os apóstolos foi: “Enchestes Jerusalém de vossa doutrina” (At 5.28). Não há muita probabilidade desta acusação ser levantada contra métodos modernos. A afirmação: “Todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo” (At 5.42), descreve o trabalho dos apóstolos. Claramente, não cessavam de ensinar e pregar, não tinham tempo para organizar entretenimentos; eles se empenhavam continuamente “ao ministério da palavra” (At 6.4). Dispersos pela perseguição, os discípulos primitivos “iam por toda parte pregando a palavra” (At 8.4).
Quando Filipe foi à Samaria, houve motivo de “grande alegria naquela cidade” (At 8.8). O único método registrado é “anunciava-lhes a Cristo” (At 8.5). Quando os apóstolos visitaram o campo de trabalho de Filipe, foi dito: “Eles, porém, havendo testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos” (At 8.25). Quando acabaram de pregar, voltaram diretamente para Jerusalém. É evidente que durante sua missão, eles não pensaram em ficar e organizar umas noites agradáveis aos descrentes.
Naqueles dias, as congregações esperavam nada além da Palavra do Senhor. Cornélio disse a Pedro: “Estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir tudo o que te foi ordenado da parte do Senhor” (At 10.33). A mensagem dada foi sobre palavras “mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa” (At 11.14). Causa e efeito estão proximamente ligados em Atos 11.20,21: “Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor”. Aqui vemos o método deles – pregação. O assunto deles – o Senhor Jesus. O poder deles – a mão do Senhor ao seu lado. O sucesso deles – muitos creram.
O que mais a Igreja de Cristo precisa hoje?
O relato sobre o trabalho conjunto de Paulo e Barnabé é “o Senhor, ... confirmava a palavra da sua graça” (At 14.3). Quando numa visão, Paulo ouve um homem da Macedônia dizendo: “Passa à Macedônia e ajuda-nos” (At 16.9), ele indubitavelmente deduz que o Senhor o chamara a fim de pregar o Evangelho às pessoas daquele lugar. Por quê? Como ele soube se a ajuda necessitada era de iluminação para a vida deles por meio de um pouco de entretenimento ou o refinamento de seus costumes por meio de conhecimento fundamentado em diversão descompromissada? Ele nunca pensou em tais coisas. Passa e ajuda-nos! Significava para Paulo: Pregue o evangelho. “Paulo, segundo o seu costume, ali entrou, e por três sábados discutiu com eles, tirando argumentos das Escrituras” (At 17.2 - Tradução Brasileira). Perceba: eles discutiam não sobre as Escrituras, e sim tiravam argumentos delas, “expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos...” (At 17.3). Esta era a forma do trabalho evangelístico naqueles dias e parece ter sido maravilhosamente poderosa, pois o veredicto das pessoas foi: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (At 17.6). Atualmente, o mundo está transtornando a igreja; esta é a grande diferença.
Quando Deus disse a Paulo que tinha muita gente em Corinto, lemos: “E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus” (At 18.11). Evidentemente, Paulo concluiu que a única forma de liderá-los era pela Palavra. Um ano e meio e apenas um método adotado. Maravilhoso! Se estivéssemos naquela época, provavelmente teríamos uma dúzia! Mas Paulo nunca considerou como parte de seu ministério o arranjar coisas agradáveis aos incrédulos. Em seu aprisionamento e enquanto viajava para Jerusalém, ele disse: “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Este era todo o ministério que ele conhecia. A última descrição que temos dos métodos deste príncipe dos evangelistas revela concordância com tudo que aconteceu antes: “Desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas... pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (At 28.23,31). Que contraste com todo o lixo e absurdo agora praticado no santo nome de Cristo! Que o Senhor limpe a igreja de todo entulho que o demônio tem imposto sobre ela e nos traga de volta a métodos apostólicos!
Por último, a missão do entretenimento falha absolutamente em efetuar o fim desejado entre os não-salvos e causa estragos entre os recém-convertidos.
Mesmo que tal missão fosse bem-sucedida, seria nada menos que errada. O sucesso pertence a Deus; fidelidade às instruções dEle cabe a mim. Mas a missão do entretenimento não é bem-sucedida. Teste-a pelos resultados e descobrirá uma desprezível falha. Que seja usado o método provado pelo fogo; o veredicto será a pregação da Palavra – que é o poder.Mostre-me os convertidos ganhos pelo entretenimento! Comece com as meretrizes e bêbados, com os quais o divertimento foi o primeiro passo rumo à conversão deles! Deixemos que falem e testifiquem os zombadores e negligentes, que agradecem a Deus pela igreja ter abrandado seu espírito de separação e servi-los mesmo no meio de seu mundanismo. Deixemos expressar sua alegria, os esposos, esposas e filhos que por conta das Palestras Dominicais sobre Questões Sociais regozijam-se em um novo e santo lar. Que as almas cansadas e sobrecarregas que encontraram a paz através de concertos musicais não mais permaneçam em silêncio. Deixemos os homens e mulheres que encontraram Cristo através de uma reversão dos métodos apostólicos declararem e mostrarem a grandeza do erro de Paulo, quando disse: “Decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Co 2.2). Não há voz ou qualquer outra coisa para responder a estes desafios. A falha é equivalente à insensatez e é tão grande como o pecado. Dentre os milhares com quem tenho conversado pessoalmente, a missão do entretenimento não levou à conversão verdadeira.
Agora observemos aqueles que, repudiando qualquer outro método, apostam tudo na Bíblia e no Espírito Santo. São desafiados a produzir resultados, mas não há necessidade. A aprovação de Deus é atestada pela transformação de vidas. Por dez mil vezes, dez mil vozes estão prontas a declarar que a simples pregação da Palavra foi, em primeiro e último lugar, a causa de sua salvação.
E quanto ao outro lado da questão – quais os efeitos nocivos? Também são insignificantes? Aqui darei meu testemunho tão solenemente como se estivesse diante do Senhor. Por meio desse novo procedimento é difícil ver um pecador salvo, e sim apóstatas. Repetidamente, crentes jovens e às vezes aqueles mais experientes chegam até mim em lágrimas e me perguntam o que fazer, porquanto perderam toda paz e caíram em pecado. Muitas vezes tem sido feita a confissão: Eu comecei a pecar ao freqüentar encontros de divertimentos mundanos patrocinados por cristãos. Recentemente, um jovem de alma agonizante me disse: Eu nunca pensei em ir ao teatro até que, numa pregação, meu pastor convenceu-me o coração de que não havia mal em ir. Fui e tenho estado de mal a pior. Agora sou um miserável apóstata, e ele é o responsável.
Quando jovens convertidos começam a esfriar, abandonam as reuniões de oração e tornam-se mundanos, quase sempre descubro que o cristianismo mundano é o responsável pelo primeiro passo decadente. O entretenimento é usado pelo diabo como meio-caminho para o mundo. Por causa do que vi, escrevo, de bom grado, com intensidade e vigor. O entretenimento traz podridão à Igreja de Deus e destrói seu serviço ao Rei. Com aparência de cristianismo, tal método realiza o próprio trabalho do diabo. Sob o pretexto de sair a alcançar o mundo, ele carrega nossos filhos e filhas para o mundo. Com o apelo: não sejam as massas alienadas com a rigidez, ele está seduzindo os jovens discípulos “da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2 Co 11.3). Professando ganhar o mundo, ele está transformando o jardim do Senhor num parque de diversões. Para encher o templo com aqueles que não vêem beleza em Cristo, é colocado na entrada um porteiro cujo sorriso encobre espírito demoníaco.
Não é de admirar que o Espírito Santo, ferido e insultado, retire sua presença, pois “que harmonia, entre Cristo e o Maligno?... Que ligação há entre o santuário de Deus e os ídolos?” (2 Co 6.15,16).
“Retirai-vos do meio deles!” É o chamado de hoje. Santifiquem-se. Retirem o mal do seu meio. Derrubem os altares do mundo e destruam seus postes-ídolos. Recusem sua proposta de auxílio. Rejeitem a ajuda dele, assim como seu Mestre liquidou o testemunho dos demônios, “não lhes permitindo que falassem, porque sabiam quem ele era” (Mc 1.34). Renunciem todas as diretrizes do presente século. Pisem as armaduras de Saul. Agarrem-se à Palavra de Deus; confiem no Espírito que escreveu as páginas dela. Lutem sempre com esta arma e apenas com ela. Parem de entreter e de tentar estimular. Evitem aplausos de um auditório satisfeito e atentem para os soluços de um genuíno convertido. Desistam de tentar agradar a homens quem têm apenas um sopro entre sua alma e o inferno; e advirtam, supliquem e peçam como aqueles que sentem as águas da eternidade cobrindo-os. Que a igreja mais uma vez confronte o mundo; testifique contra ele; encontre com ele apenas atrás da cruz. E, assim como o seu Senhor, a igreja superará e com Cristo compartilhará a vitória.
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