quarta-feira, 19 de maio de 2010

TERIA JEFTÉ SACRIFICADO A PRÓPRIA FILHA?

Sempre fiquei maravilhado com a perfeição, perspicuidade das Sagradas Escrituras. Não obstante, algumas passagens sempre me intrigaram em razão de debates e discussões prévias a respeito das mesmas. Como exemplo disso, tomo a passagem de Juízes 11.29-40, que narra a história de Jefté, seu voto e sua filha. Especificamente, refiro-me aos versículos 30 e 31: “Fez Jefté um voto ao SENHOR e disse: Se, com efeito, me entregares os filhos de Amom nas minhas mãos, quem primeiro da porta da minha casa sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto”. O verso 39 diz: “Ao fim dos dois meses, tornou ela para seu pai, o qual lhe fez segundo o voto por ele proferido...”. Holocausto? Sacrifício humano?
Teólogos e scholars de todos os segmentos afirmam que, de fato, Jefté não só votou que sacrificaria um ser humano como cumpriu o que prometeu. A Bíblia de Estudo de Genebra, por exemplo, faz o seguinte comentário a respeito da passagem em questão:

Jefté derrotou os amonitas, mas, durante a batalha, fez um voto precipitado ao Senhor, com base no qual foi obrigado a sacrificar sua filha querida como holocausto. Ao contrário dos deuses pagãos, Deus não deveria ser adorado com sacrifícios humanos (Dt 32.17; Sl 106.37-38). O voto imprudente de Jefté mostra como lhe faltava fé para liderar; sem essa fé, sua casa não seria estabelecida.[1]

Dentre os muitos colaboradores responsáveis pelos comentários da Bíblia de Estudo de Genebra, destacam-se homens como Mark Futato (Reformed Theological Seminary), R. Laird Harris (Covenant Theological Seminary), Meredith Kline (Gordon-Conwell Theological Seminary), Tremper Longman III (Westmont College), Raymond C. Ortlund Jr. (First Presbyterian Church of Augusta), Richard L. Pratt Jr. (Reformed Theological Seminary) e Bruce K. Waltke (Reformed Theological Seminary). Não sei exatamente quem escreveu os comentários do livro de Juízes. No entanto, sei que tal interpretação passou pelo crivo do editor responsável pelo Antigo Testamento, o Dr. Bruce K. Waltke, e do editor-geral, o Dr. Richard L. Pratt Jr.[2]

Sempre que lia a passagem em questão me sentia desconfortável com a ideia de que Jefté teria oferecido a sua filha como um holocausto. Eu pensava: “Mas Deus jamais aceitaria um voto nestes termos!” Apesar de não aceitar tal entendimento, eu não dispunha de argumentos exegéticos satisfatórios que fundamentassem minha discordância.

Recentemente, adquiri um livro junto à Reformation Heritage Books, de autoria do Dr. Joel R. Beeke, intitulado Contagious Christian Living (Viver Cristão Contagiante). O primeiro capítulo do livro é dedicado à submissão sacrificial da filha de Jefté. Gostaria de compartilhar com o leitor do Cristão Reformado oito razões apontadas pelo Dr. Joel Beeke, que mostram que o voto de Jefté não foi precipitado nem que ele sacrificou a sua própria filha. Mais uma vez, peço que o leitor seja misericordioso com a tradução. Transcrevo na íntegra abaixo:

Compreendendo Mal o Voto de Jefté[3]

Antes de tirarmos conclusões apressadas, deixe-nos dar uma olhada mais íntima na passagem. Quanto terminarmos, descobriremos que Jefté não fez um voto apressado e tolo, e que ele não ofereceu a sua filha como um holocausto. Isto vai contra algumas antigas interpretações desta história. Alguns comentaristas afirmaram que Jefté viveu em tempos difíceis e que, indubitavelmente, foi influenciado por ideias pagãs, as quais incluíam sacrifícios humanos e suborno aos deuses, a fim de se conseguir seus favores. De acordo com esta antiga visão, Jefté deu vazão a estas ideias pagãs e, por isso, deve ser menosprezado.

Entretanto, examinando esta narrativa de perto, podem ser percebidas oito questões no contexto que, tomadas em conjunto, conduzem-nos para longe daquela suposição de que Jefté sacrificou a sua filha.

Em primeiro lugar, Jefté não era um homem precipitado. Jurar que você sacrificará qualquer pessoa que saia de sua casa para o encontrar pode ser precipitado. Porém, Jefté já tinha provado aos anciãos de Israel e ao rei dos Amonitas que era um homem cauteloso. Um pouco antes, Jefté não atendeu prontamente o pedido dos anciãos para se tornar o líder de Israel, mas, cuidadosamente, os questionou a fim de descobrir, primeiramente, os seus motivos e intenções. Ele também não se precipitou na batalha, mas enviou mensageiros aos Amonitas em uma tentativa de encontrar uma alternativa diplomática em vez da guerra, para pleitear a justiça da causa de Israel.

Segundo, em suas discussões com os Amonitas, Jefté demonstrou sua familiaridade com as Escrituras. Seguramente, então, ele devia ter conhecimento de que Levítico 18.21 e Deuteronômio 12.29-32 proíbem o oferecimento de sacrifícios humanos – especialmente seus próprios filhos – como uma abominação diante de Deus. Em adição, Juízes 11 está colocado em um contexto de reforma. Israel, incluindo Jefté, tinha se arrependido e voltado para – não para longe – o Deus vivo.

Terceiro, quando Jefté fez o seu voto, o Espírito de Deus estava sobre ele. O Espírito o inspiraria a fazer um voto que contrariasse tão claramente a Escritura revelada pelo próprio Espírito? Isso é difícil de acreditar, desde que a Palavra e o Espírito nunca contradizem um ao outro. Também é difícil acreditar que Israel tivesse seguido a Jefté como um líder se ele tivesse desobedecido a Escritura de forma tão notória e se tivesse, de fato, sacrificado a sua filha.

Quarto, olhemos mais de perto Juízes 11.31, que diz: “quem primeiro da porta da minha casa me sair ao encontro, voltando eu vitorioso dos filhos de Amom, esse será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto”. Uma possível opção para essa tradução é lembrar que holocausto em hebraico nem sempre significa sacrifício-sangrento. A palavra hebraica também pode significar “total dedicação”. Neste caso, o voto de Jefté teria sido: quem sair da porta da minha casa “será do SENHOR, e eu o oferecerei para uma completa dedicação ao SENHOR”.

Outra questão de tradução nos impede de entender a passagem corretamente. O último verso de Juízes 11 diz que as filhas de Israel iam anualmente para “lamentar” a filha de Jefté. A palavra traduzida aqui como “lamentar” não é traduzida deste modo em nenhum outro lugar na Bíblia. Ao invés disso, ela é entendida como “ensaiar” ou “comemorar”. Assim, as filhas de Israel não lamentaram a morte da filha de Jefté. Elas comemoraram sua dedicação ao serviço de Deus, o qual envolvia a submissão total do seu coração.

Quinto, depois de derrotar os Amonitas e encontrar a filha, Jefté teve bastante tempo para ponderar acerca do que faria. Ele concedeu à sua filha dois meses para que ela lamentasse a sua virgindade. Você não acha que, se realmente Jefté pretendesse sacrificar a sua filha, os sacerdotes de Siló teriam vindo até ele durante aquele tempo a fim de o lembrarem da proibição divina relativa a sacrifício humano?

Sexto, mesmo se o voto de Jefté tivesse sido precipitado, Levítico 5.4-5 lhe oferecia a possibilidade de se arrepender de tal voto e Levítico 27 a possibilidade de Jefté redimir a sua filha mediante o pagamento de um resgate. Mesmo assim, Jefté recusou essas opções.

Sétimo, quando a filha de Jefté foi lamentar por dois meses, ela não lamentou a sua morte iminente, mas sim a sua virgindade perpétua (Juízes 11.38).

Finalmente, note que Jefté é recomendado em vez de ser repreendido na Escritura. Ele governou sobre Israel durante outros seis anos. E 1 Samuel 12.11 menciona Jefté como um dos que mantiveram Israel a salvo. Samuel teria recomendado Jefté se ele tivesse sacrificado a própria filha? Mais importante, Hebreus 11.32 menciona Jefté como um herói da fé em lugar de uma figura pagã desprezível.

Em conclusão, então, Jefté não prometeu matar sua filha, mas a dedicou ao serviço de Deus, o que envolveu o desafio notável da sua virgindade perpétua. É o que diz o versículo 39, que ele levou a cabo o seu voto, mas não adiciona, “e ela morreu”. Ao invés disso, diz que, “ela jamais foi possuída por varão”. Jefté cumpriu o seu voto assim porque a sua filha viveu o resto da vida como uma virgem.

Fonte: Joel R. Beeke, Contagious Christian Living. Reformation Heritage Books and Pryntirion Press, pp. 12-16.

[1] BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, (São Paulo: Cultura Cristã, 2009), 327. Edição Revista e Ampliada.

[2] Conferir também a afirmação de H. A. Hoffner Jr., in Merrill C. Tenney, Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã, Vol. 3, (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), 394.

[3] Joel R. Beeke, Contagious Christian Living, (Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books and Brytirion Press, 2009), 12-16. Minha tradução.

13 comentários:

Evaldo disse...

olá reverendo!
Ótimos argumentos!
Estou, se Deus quiser, me formando esse ano, queria lhe dizer que seu blog, na verdade sua integridade teologica é "inspiradora" para mim!!!
um grande abraço...

Alan Rennê disse...

Olá Evaldo!
Obrigado pelo comentário. Que Deus te abençoe em sua formatura e ministério. Sobre a integridade teológica, ore por mim, suplicando a misericórdia de Deus, pois são muitas as lutas e dificuldades. Mas, o que Deus requer de nós é fidelidade, não é mesmo?

Um enorme abraço!

Ewerton B. Tokashiki disse...

Querido Rev Alan

Ao traduzir este texto vc prestou um excelente serviço! Deus o abençoe em sua dedicação à Ele.

Alan Rennê disse...

Amado Rev. Ewerton,

Muito obrigado pelo comentário. É um incentivo para continuarmos a caminhada. Fico feliz em contribuir com a causa do evangelho e da teologia reformada.

"Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!"

Alan Kleber Rocha disse...

Minha autarquia teológica!

São milhões e bilhões de cristãos que te agradecem por esta tradução ;-)

Deus te abençõe!

Alan Rennê disse...

Grande Alan (cabra do nome mais bonito do mundo!)

Louvado seja Deus!

Muito obrigado pela visitinha...

Abração, my dear friend!

Luiz Ancelmo disse...

Olá Rev. Alan

Excelente texto!!! Apesar de só ouvir posições que afirmavam que Jefté "matou em sacrifício" sua filha, nunca concordei com tais argumentos.

Agora, tenho somente uma dúvida: Quando o dr Beeker diz que a palavra "holocausto" não tem somente o significado de "Sacrifício sangrento", gostaria, se possível, que o irmão me ajudasse citando outros casos no AT em que a palavra "holocausto" não aparece ou não é usada no sentido de "sacrifício sangrento ou de sangue".

Agradeço, desde já, por sua ajuda!

Abraços.

Rev. Luiz Ancelmo

Luiz Ancelmo disse...

Olá Rev. Allan

Excelente texto! parabéns!

Sente vi esse texto tb dessa forma, porém faltavam-me argumentos... agora já os tenho

Rev. Allan, gostaria apenas que o sr me ajudasse citando outros casos no AT onde a palavra "holocausto" não aperece ou não é inserido em um contexto de "sacrifício de sangue" mas de "dedicação total ao Senhor" como afirma o dr Beeker.

Muito obrigado!

Rev Luiz Ancelmo

Sandro Pelegrineti de Pontes disse...

Claro que a filha de Jefté foi verdadeiramente sacrificada, e claro também que Deus recusou este sacrifício pagão. Por isso as servas do Senhor choravam a sua morte quatro dias por ano.

Porém, mesmo que a sua interpretação esteja correta (não está) teríamos a primeira freira da história, o que somente demonstraria que a superioridade da virgindade sobre o matrimônio está (e é claro que está) fundamentado na bíblia.

Alan Rennê disse...

Sandro,

Obrigado pela visita e pelo comentário. Não obstante, fiquei deveras assustado como você parece não ter entendido o texto e de como você falha na sua interpretação. Por isso, vou responder aos dois pontos do teu comentário.

1. Você diz: "Por isso as servas do Senhor choravam a sua morte quatro dias por ano".

RESPOSTA: Tem certeza que é isso que o texto diz? Os versículos 39-40 dizem o seguinte: "Ao fim dos dois meses, tornou ela para seu pai, o qual lhe fez segundo o voto por ele proferido; assim, ela jamais foi possuída por varão. Daqui veio o costume em Israel de as filhas de Israel saírem por quatro dias, de ano em ano, A CANTAR EM MEMÓRIA da filha de Jefté, o gileadita".

Perceba que o texto não diz que as filhas de Israel CHORAVAM A MORTE da filha de Jefté. Elas CANTAVAM À SUA MEMÓRIA. É completamente diferente! Você muda o sentido de cantar, interpretando-o como choro. E assume que lembrar da memória de alguém é lembrar da sua morte. Nada poderia estar mais errado. Lembrar da memória é lembrar do que foi feito em vida, não na morte. Além disso, meu caro, você sequer considera o hiato temporal entre o ano do acontecimento e o ano em que o livro de Juízes foi escrito. Entre o cumprimento do voto de Jefté e a escrita do livro de Juízes há um intervalo de tempo de pelo menos 130 anos, se você considerar a data mais antiga para a escrita do livro, que foi por volta do ano 1000 a.C. O episódio narrado em Juízes 11 se deu por volta do ano 1130 a.C. (Ver a timeline do Bibleworks 9). Se você considerar a data mais recente da escrita de Juízes, já próximo do 5º século a.C., então, você terá um intervalo de tempo maior. Assim sendo, Sandro, temos uma referência a um costume que atravessava vários séculos e, evidentemente, as filhas de Israel só poderiam cantar mesmo à memória da filha de Jefté

2. Você diz: "teríamos a primeira freira da história, o que somente demonstraria que a superioridade da virgindade sobre o matrimônio está (e é claro que está) fundamentado na bíblia".

RESPOSTA: Onde o meu texto diz isso? Onde eu sugiro que o celibato ou a virgindade perpétua é uma condição superior ao matrimônio? Em lugar nenhum! Tua afirmação é extremamente falaciosa! Você impõe um significado ao texto que não está nele. O voto possuía um caráter EXTRAORDINÁRIO, o que significa que não era comum, que o casamento era o normal e o esperado. Além disso, a própria reação de Jefté, ao rasgar as suas vestes demonstra sua dor, pois a total consagração da sua única filha implicaria a cessação da sua descendência, o que para um israelita era considerado como uma maldição.

O conselho que dou é que você seja menos apressado na hora de interpretar textos e fazer afirmações indevidas.

Que Deus te abençoe!

jose adauto andre andre disse...

MUITO BEM EXPLICADO NÃO DEIXANDO NENHUMA DUVIDA SOBRE O ASSUNTO MEUS PARABENS

Marco Lago disse...

Parabéns pelos comentários, estava aqui indagando essa questão e ao ler o seu texto fui ricamente abençoado e enriquecido.
Deus continue te abençoando grandemente.

Marco Lago

gilcele gonzaga da silva reis disse...

Olá reverendo Alan Renê.Gostei e achei muito interessante a interpretação sobre a filha de Jefté.Foi esclarecedor pois eu pensava que ela havia sido realmente sacrificada mas depois de ler esse estudo de que ela foi entregue ao Senhor assim como Samuel foi.Queria saber se você poderia me indicar um bom comentário biblico.Li o comentario de romanos de F.F.Bruce e gostei muito.Voce recomenda o de Matthew-henry?Se puder me ajudar eu agradeço.A paz do senhor.Deus abençoe.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...