terça-feira, 23 de março de 2010

UMA CARTA “DESONESTA” A UMA NAÇÃO CRISTÃ

HARRIS, Sam. Carta a uma Nação Cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 96 pp.

Sam Harris, nascido no ano de 1967 (erroneamente a orelha do livro traz a informação do seu nascimento como tendo sido em 1957) faz parte de uma nova safra de ateístas, dentre os quais se destacam homens: Michel Onfray[1] (filósofo francês), Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Daniel Dennett. Estes três últimos, juntamente com Harris, foram alcunhados de “quatro cavaleiros do novo apocalipse ateísta”.[2] Esta nova safra de ateístas se diferencia de grandes vultos do passado, como por exemplo, Bertrand Russel, Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche e Karl Marx, por ser mais militante, mais agressiva, mais marqueteira e mais “evangelística”. Prova disso, é a campanha exposta nos pôsteres dos ônibus londrinos, em que a afirmação “Provavelmente não há Deus. portanto, deixe de se preocupar e aproveite sua vida” é escancarada. Harris estudou na Universidade de Stanford, “mas abandonou os estudos ali depois de um incidente não esclarecido com a droga ecstasy. Nesse mesmo tempo, Harris teve uma profunda experiência religiosa”.[3]

A obra em questão, Carta a uma Nação Cristã, é a segunda da lavra de Sam Harris. Em 2004, ele escreveu o livro O Fim da Fé: Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão, onde lança as bases do seu pensamento ofensivo ao teísmo. Algo a ser destacado é a sugestão de que “a crença em Deus é inerentemente má, começando em impulsos maléficos da mente e do espírito e levando, finalmente, a efeitos sociais perniciosos”.[4] Harris, não satisfeito, no ano de 2006 lançou o seu segundo livro, Carta a uma Nação Cristã. O livro em si é bem escrito, possuindo uma linguagem de fácil compreensão e assimilação, contribuindo assim, para a consecução do suposto objetivo de Harris, que é escrever “diretamente para o seu leitor cristão”.[5] Isso fica evidente pelo mesmo ser escrito em forma de uma carta pessoal. Acontece que, o livro não foi escrito tendo em vista os cristãos. A verdadeira intenção de Sam Harris fica clara um pouco mais à frente, quando ele afirma que o propósito mais amplo do livro “é dar munição aos secularistas de todas as sociedades contra seus opositores, cada vez mais fervorosos”.[6] Ele acentua ainda que, deseja demolir “as pretensões intelectuais e morais do cristianismo em suas formas mais ardorosas”.[7] Então, que fique bem esclarecida qual é a real intenção do autor. Ele se dirige de forma pessoal aos cristãos apenas como um subterfúgio literário, mas o seu real interesse é alcançar uma determinada elite intelectual naturalista e secularista, com o fim de encorajá-la a ser mais ousada em suas afirmações públicas contra o teísmo de uma forma geral, e mais especificamente contra o cristianismo.

Harris se dirige aos Estados Unidos, que de acordo com ele, é uma nação teimosa, não se submetendo à secularização experimentada pelo continente europeu. Como coloca acertadamente o Dr. Mohler: “Ele lamenta que, por alguma razão, uma virulenta corrente de crença em Deus persiste nesse país, e isso deve ser resultado de alguma falha básica na mente americana”.[8]

Algo verdadeiramente interessante na obra de Sam Harris é a sua admissão do raciocínio por antíteses, algo inadmissível para os filósofos pós-modernos. Ele concorda com os cristãos, quando defende que é impossível que as duas cosmovisões envolvidas estejam, ao mesmo tempo, corretas. Eis suas palavras: “Nós concordamos, por exemplo, que se um de nós está certo, o outro está errado. Ou a Bíblia é a palavra de Deus, ou não é. Ou Jesus oferece à humanidade o único verdadeiro caminho para a salvação (João 14.6), ou não oferece”.[9] Nesse ponto, Harris está correto. É impossível, que dois sistemas de pensamentos, ou duas cosmovisões, que se opõem em suas proposições estejam ambas corretas. O cristianismo e o ateísmo não podem estar ambos corretos. Um tem de estar errado. Francis Schaeffer (1912-1984), um dos maiores pensadores cristãos reformados do século XX, afirmou que, “se há alguma coisa verdadeira, o oposto tem de ser falso. Quando se trata de moral, se algo é verdade, o contrário é falso. Esta pequena fórmula, ‘A’ é ‘A’ e ‘Se você tem A, ele não é não-A’, é o primeiro passo da lógica clássica”.[10]

Harris inicia o seu ataque contra a fé cristã fazendo um mau uso tremendo de passagens bíblicas, visando dar ênfase na suposta falsa moralidade bíblica. Ele cita trechos do Antigo Testamento que apresentam penas para determinados crimes. Ele acusa os cristãos de citarem textos de forma desconexa. Acontece que, Harris acaba caindo no dito erro condenado por ele. Por exemplo, ele cita a passagem de Mateus 5.18-20, e afirma que Jesus endossou as formas punitivas veterotestamentárias. O ponto-chave da passagem, é quando Jesus afirma que “até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra”. Com isso, ele afirma que, “Jesus confirmou integralmente a lei do Velho Testamento”.[11] Algumas falácias podem ser apontadas na análise irresponsável de Harris:

1. Ele demonstra aqui uma ignorância crassa e um desconhecimento monumental acerca de como interpretar textos legais. Ele demonstra desconhecer a divisão tripartite da lei veterotestamentária. Por desconhecer o que é Lei Moral, Lei Cerimonial e Lei Civil é que ele faz afirmações irresponsáveis como essa.

2. Harris se apresenta como um verdadeiro analfabeto funcional[12] na leitura que faz de Mateus 5.18-20. Ele ignora, intencionalmente e de forma completa o contexto mais amplo, especificamente, o contexto posterior. Logo no versículo 21, Jesus esclarece e especifica sua afirmação, expondo a Lei Moral, conforme resumida nos Dez Mandamentos.

Algo hilário em Carta a uma Nação Cristã é a defesa vigorosa do ateísmo diante das acusações de que os ateus são maus. O autor afirma: “Cristãos como você invariavelmente declaram que monstros como Adolf Hitler, Josef Stálin, Mao Tse-tung, Pol Pot e Kim Il Sung surgem do ventre do ateísmo”.[13] Para negar essa acusação, ele cita um discurso de Hitler, no qual o ditador se declara cristão e diz agir motivado pela honra de Deus.[14] No entanto, o próprio Harris admite parcimoniosamente, que tais homens por vezes são inimigos da religião organizada.[15] Ele se debate com a ideia da maldade ateísta e cita também horrores como o holocausto, as cruzadas, os conflitos religiosos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte e a inquisição como demonstrações irrefutáveis de que a religião, em vez do ateísmo, é má. Sobre esse ponto, faço questão de citar o pensamento de um intelectual ex-ateu, que conheceu bem de perto a violência religiosa:

Como alguém que cresceu na Irlanda do Norte, conheço perfeitamente bem a violência religiosa. Não há dúvida de que a religião pode gerar violência, mas ela não está sozinha nisso. A história do século XX nos proporcionou uma consciência alarmante de como o extremismo político pode igualmente causar violência. Na América Latina, milhares de pessoas parecem ter “desaparecido” em consequência de campanhas violentas e implacáveis de políticos direitistas e suas milícias. No Camboja, Pol Pot eliminou milhões de seus compatriotas em nome do socialismo. O surgimento da União Soviética teve um significado específico. Lênin considerava fundamental para a revolução socialista eliminar a religião, e pôs em prática medidas planejadas para erradicar as crenças religiosas através do “uso prolongado da violência”. Uma das maiores tragédias dessa era sombria da história humana foi causada pelos que tentaram eliminar a crença religiosa por meio da violência e opressão, acreditando possuir justificativas para tal. Suas ações eram ratificadas apenas pela autoridade fornecida pelo estado.[16]

O ponto a ser destacado, ao contrastarmos as declarações de Sam Harris e de Alister McGrath, é que os cristãos são honestos em sua confissão da violência advinda do fundamentalismo religioso, ao passo que os ateístas são desonestos mesmo diante dos fatos históricos apresentados.

Sam Harris apresenta uma forma de raciocínio pueril ao apregoar a extinção da religião e apresentar algumas nações européias como evidências disso. Ele elenca nações como Noruega, Islândia, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e Reino Unido como as sociedades menos religiosas do mundo, bem como exemplos positivos de alta expectativa de vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Forçosamente, Harris atribui isso ao abandono da religião.[17] A grande falácia na sua argumentação é a completa desconsideração para com a história e a análise sociológica empreendida por Max Weber. De acordo com Weber,

Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas e nos congressos católicos, principalmente na Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante.[18]

A tese de Weber, é que os países protestantes sempre apresentaram um potencial maior para o desenvolvimento social e econômico. E é exatamente isso que Sam Harris ignora na sua análise desonesta, fraudulenta e irresponsável. Ele, de forma proposital, esquece que países como, Noruega, Islândia, Suécia, Holanda, Suíça, Dinamarca e o Reino Unido possuem um forte legado religioso e protestante, bem como o fato de que o desenvolvimento nessas nações está inextricavelmente ligado à sua herança protestante. As afirmações de Harris são, a bem da verdade, um amontoado de factóides falsos e exagerados. Outro exemplo de suas afirmações grotescas se encontra em uma informação lacônica sobre alunos secundaristas e a compreensão da matemática e ciências:

Em 2005 foi realizada uma pesquisa em 34 países, que mediu a porcentagem de adultos que aceitam a evolução. Os Estados Unidos ficaram na posição número 33, logo acima da Turquia. Enquanto isso, os estudantes secundaristas nos Estados Unidos se classificam abaixo dos estudantes de todos os países europeus e asiáticos em testes de compreensão de matemática e ciências. Esses dados são inequívocos: estamos construindo uma civilização da ignorância.[19]

Deve ser notado, que Harris mencionou os estudantes dos países asiáticos como se classificando acima dos alunos secundaristas americanos. Pois bem, ele deveria ter mencionado, que os alunos secundaristas da Coréia do Sul, um país fortemente protestante e não-secularizado, ocupam as primeiras colocações na compreensão de matemática e ciências. Harris apenas joga as informações e as interpreta convenientemente, visando apoiar sua tese.

Carta a uma Nação Cristã se constitui assim, em um instrumento extremamente frágil para os secularistas que desejam exterminar a fé cristã. É preciso bem mais do que uma linguagem apaixonada e desonesta para fazer ceder as colunas do cristianismo. Positivamente, a obra de Sam Harris nos oferece uma clara oportunidade de refinar a apologética cristã, mostrando aos ateístas a sua ignorância e torpeza intelectuais.

Por fim, é preciso que os incautos admiradores da retórica venenosa de Sam Harris saibam que, o rei não está nu! Pelo contrário, as abas de suas vestes continuam enchendo o mundo com a sua glória e sabedoria!




[1] Autor de Tratado de Ateologia, lançado no Brasil, em 2007, pela editora Martins Fontes.

[2] R. Albert Mohler Jr. Ateísmo Remix. São José dos Campos: Fiel, 2009, 10.

[3] Ibid, 49.

[4] Ibid.

[5] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 9. Conforme destaque de Richard Dawkins no prefácio.

[6] Ibid, 14.

[7] Ibid.

[8] R. Albert Mohler Jr. Ateísmo Remix, 52.

[9] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 21.

[10] Francis A. Schaeffer, O Deus que Intervém. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, 21.

[11] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 26.

[12] “Analfabeto funcional” é o indivíduo que faz uma leitura, sem compreensão de textos informativos. Tal expressão contrasta com o conceito de “leitura funcional”, delineado pelo linguista Mário Perini. A boa leitura envolve compreensão do texto e sua interação com outras variáveis, como o contexto.

[13] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 47.

[14] Ibid, 48.

[15] Ibid, 47.

[16] Alister McGrath e Joanna McGrath, O Delírio de Dawkins: Uma Resposta ao Fundamentalismo Ateísta de Richard Dawkins. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, 109, 110.

[17] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 50.

[18] Max Weber, A Éitca Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2002, 35. Gostaria de indicar a análise extraordinária de André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, 240 pp. Extraordinária é a primeira parte intitulada, Os Protestantes e o Advento das Grandes Democracias, 41-110.

[19] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 69, 70.

Um comentário:

Mario disse...

Só para lembrar que o livro de Max Weber foi publicado em 1904 e portanto em um mundo TOTALMENTE diferente do atual e com circunstancias muito diferentes. A realidade dos países sitados por Sam são realmente diferentes do contexto do que Weber citou e as bases nas quais eles foram fundados estão alteradas para melhor com a laicidade.

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