sexta-feira, 5 de março de 2010

SOBRE MATEUS 24.36

Um amigo me enviou o seguinte e-mail:
"E aí grande amigo, como vão as coisas? Rapaz Alan, preciso da sua ajuda. Veja só se você pode me ajudar. Eu entendo a unipersonalidade de Cristo e suas naturezas inseparáveis, só que uma pergunta de um membro da igreja me pegou e eu não soube sair, e fiquei de dar a resposta depois. Lá me Mateus 24.35-36 (leia por favor), dizer que ele sabia como Deus e não sabia como homem, acredito ser simplista, e até mesmo perigoso, pois pode fazer uma ruptura na pessoa de Cristo. Como explicar isso? pode me ajudar por favor?"
Eis a minha resposta:
Rapaz, realmente essa é uma questão muito delicada e difícil. A quantidade de debates e controvérsias na história provam isso. No entanto, vejamos se consigo fazer alguns apontamentos úteis.

Realmente, é simplório (para não dizer desonesto intelectualmente) apelar para uma “divisão” nas naturezas de Jesus, como se em alguns momentos a natureza humana agisse, e em outros, a natureza divina. Wayne Grudem, por exemplo, peca na sua cristologia ao apresentar uma espécie de Jesus “esquizofrênico”, onde algumas experiências que a natureza humana de Cristo passa, não são as mesmas que a natureza divina enfrenta. Por exemplo, na página 461 da sua Teologia Sistemática, Grudem afirma: “podemos dizer que Jesus tinha cerca de trinta anos (Lc 3.23), se estivermos falando a respeito de sua natureza humana, mas podemos dizer que ele existiu eternamente (Jo 1.1-2; 8.58), se estivermos falando de sua natureza divina”. Grudem pende para uma espécie de nestorianismo, pois na mesma página ele afirma que apenas a natureza humana experimentava fraqueza e se cansava, mas a sua natureza divina era onipotente. O ponto que desejo ressaltar, é que afirmar que em Mateus 24.35,36 Jesus estava falando a partir da perspectiva de sua natureza humana é cair no mesmo erro de Grudem. É abraçar o nestorianismo.

Algo que achei interessante, é que todos os comentaristas, apesar de não dividirem Jesus como Grudem faz, acabam apelando para Jesus como homem. Por exemplo, Robert L. Reymond afirma: “Jesus declarou expressamente que não sabe o dia ou a hora do seu retorno. Quer dizer, ele enfaticamente nega esse conhecimento como homem acerca do ‘quando’ da sua parousia” (A New Systematic Theology of the Christian Faith, pág. 1007). Hendriksen segue o mesmo discurso: “Na verdade, nem o próprio Filho, visto pelo prisma de sua natureza humana” (Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, pág. 517).

Vejamos a passagem de Mateus 24.36: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”.

A melhor forma de interpretar esse versículo, em minha opinião, é fazendo uso da ideia da comunicação dos atributos (communicatio idiomatum), que afirma que as propriedades de ambas as naturezas podem ser atribuídas a uma Pessoa. As limitações da natureza humana, por exemplo, são as limitações da pessoa inteira. Franklin Ferreira e Alan Myatt afirmam o seguinte: “Por isto, se pode dizer que Jesus Cristo é todo-poderoso, onisciente, onipresente e assim por diante, mas também se pode dizer que ele é um homem real, de conhecimento e poder limitados, e sujeito às necessidades, dores e limitações humanas” (Teologia Sistemática, pág. 519). Nesse sentido, o correto é afirmar que, a pessoa de Cristo, quando do seu ministério terreno, não conhecia a precisa ocasião do seu retorno. É difícil conciliarmos isso com o fato de Jesus ser plenamente Deus também. Obviamente, a consumação de todas as coisas fora decretada por Deus desde antes da fundação do mundo, e, logicamente toda a Trindade participou dessa deliberação. Quando lemos as palavras de Jesus em Mateus 24.36 e em Marcos 13.32, não devemos imaginar que o Espírito Santo, “que é familiarizado com as coisas profundas de Deus, e os segredos do seu coração”, como afirma John Gill, seja ignorante a esse respeito.

Olhando por esse prisma, devemos nos perguntar: É possível que a Primeira e a Terceira Pessoa da Trindade saibam de algo que a Segunda ignora ou desconhece? No entanto, a própria Segunda Pessoa da Trindade afirma que desconhece o dia e a hora do seu retorno. Como podemos resolver esse impasse? Meu amigo, creio ser esse um problema dos mais difíceis em toda a Teologia.

Há um conceito na teologia calvinista importante para interpretarmos Mateus 24.36 e Marcos 13.32. É o conceito do extra calvinisticum, que ensina que “a humanidade finita do Redentor não era capaz de receber, compreender e conter os atributos infinitos que eram próprios da natureza divina infinita, ou seja, a onipotência, a onisciência e a onipresença” (Heber Carlos de Campos, A União das Naturezas do Redentor, pág. 277). O sentido do extra calvinisticum, é que a pessoa de Cristo experimentou limitações dada a necessidade da encarnação. Jesus, no seu estado de humilhação não podia deter de forma exaustiva o conhecimento divino. O princípio filosófico do finitum non capax infiniti (o finito não é capaz do infinito) entra aqui. Ao assumir a natureza humana, a pessoa do Logos limitou, não perdeu, os atributos supramencionados. G. C. Berkouwer afirma o seguinte sobre o extra calvinisticum: “os atributos Divinos são ocultos no Verbo encarnado por causa da veste carnal, e que a aparência de Servo humilhado não prejudica em nada a riqueza deste Rei” (A Pessoa de Cristo, pág. 161, extraído de http://www.monergismo.com).

Certamente que essa é uma doutrina difícil de compreender e digerir, porém, considero como a que melhor faz jus à integridade da pessoa de Cristo.

Espero ter ajudado em algo.
Em Cristo, nosso Redentor!

Um comentário:

monica disse...

Como é maravilhoso podermos ouvir de quem Cristo é. Ele é uma pérola.Uma jóia graciosa que nossos olhos pecadores não podem contemplar perfeitamente. Louvado seja o Senhor que vem nos buscar para nos levar a um lugar onde estaremos, não ouvindo falar dEle, mas com Ele. Glória ao Cristo que venceu!

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