sexta-feira, 26 de março de 2010

CARTA A UM UNIVERSITÁRIO CRISTÃO

Alderi Souza de Matos

Caro irmão em Cristo,

Você tem o privilégio de freqüentar um curso superior, algo que não está disponível para muitos brasileiros como você. Todavia, esse privilégio implica em muitas responsabilidades e em alguns desafios especiais. Um desses desafios diz respeito a como conciliar a sua fé com determinados ensinos e conceitos que lhe têm sido transmitidos na vida acadêmica.

Até ingressar na universidade, você viveu nos círculos protegidos do lar e da igreja. Nunca a sua fé havia sido diretamente questionada. Talvez em algumas ocasiões você tenha se sentido um tanto desconfortável com certas coisas lidas em livros e revistas, com opiniões emitidas na televisão ou com alguns comentários de amigos e conhecidos. Porém, de um modo geral, você se sentia seguro quanto às suas convicções, ainda que nunca tivesse refletido sobre elas de modo mais aprofundado.

Agora, no ambiente secularizado e muitas vezes abertamente incrédulo da universidade, você tem ficado exposto a idéias e teorias que se chocam frontalmente com a sua fé até então singela, talvez ingênua, da infância e da adolescência. Os professores, os livros, as aulas e as conversas com os colegas têm mostrado outras perspectivas sobre vários assuntos, as quais parecem racionais, científicas, evoluídas. Alguns de seus valores e crenças parecem agora menos convincentes e você se sente pouco à vontade para expressá-los. Para ajudá-lo a enfrentar esses desafios, eu gostaria de fazer algumas considerações e chamar a sua atenção para alguns dados importantes.

Em primeiro lugar, você não deve ficar excessivamente preocupado com as suas dúvidas e inquietações. Até certo ponto, ter dúvidas é algo que pode ser benéfico porque o ajuda a examinar melhor a sua fé, conhecer os argumentos contrários e adquirir convicções mais sólidas. O apóstolo Paulo queria que os coríntios tivessem uma fé testada, amadurecida, e por isso recomendou-lhes: “Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem a si mesmos” (2 Co 13.5, NVI). As dúvidas mal resolvidas realmente podem ser fatais, mas quando dão oportunidade para que a pessoa tenha uma fé mais esclarecida e consciente, resultam em crescimento espiritual e maior eficácia no testemunho. O apóstolo Pedro exortou os cristãos no sentido de estarem “sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês” (1 Pe 3.15, NVI).

Além disso, você deve colocar em perspectiva as afirmações feitas por seus professores e colegas em matéria de fé religiosa. Lembre-se que todas as pessoas são influenciadas por pressupostos, e isso certamente inclui aqueles que atuam nos meios universitários. A idéia de que professores e cientistas sempre pautam as suas ações pela mais absoluta isenção e objetividade é um mito. Por exemplo, muitos intelectuais acusam a religião de ser dogmática e autoritária, de cercear a liberdade das pessoas e desrespeitar a sua consciência. Isso até pode ocorrer em muitos casos, mas a questão aqui é a seguinte: Estão os intelectuais livres desse problema? A experiência mostra que os ambientes acadêmicos e científicos podem ser tão autoritários e cerceadores quanto quaisquer outras esferas da atividade humana. Existem departamentos universitários que são controlados por professores materialistas de diversos naipes – agnósticos, existencialistas e marxistas. Muitos alunos cristãos desses cursos são ridicularizados por causa de suas convicções, não têm a liberdade de expor seus pontos de vista religiosos e são tolhidos em seu desejo de apresentar perspectivas cristãs em suas monografias, teses ou dissertações. Portanto, verifica-se que certas ênfases encontradas nesses meios podem ser ditadas simplesmente por pressupostos ou preconceitos anti-religiosos e anticristãos, em contraste com o verdadeiro espírito de tolerância e liberdade acadêmica.

Você, estudante cristão que se sente ameaçado no ambiente universitário, deve lembrar que esse ambiente é constituído de pessoas imperfeitas e limitadas, que lidam com seus próprios conflitos, dúvidas e contradições, e que muitas dessas pessoas foram condicionadas por sua formação familiar ou educacional a sentirem uma forte aversão pela fé religiosa. Tais indivíduos, sejam eles professores ou alunos, precisam não do nosso assentimento às suas posições anti-religiosas, mas do nosso testemunho coerente, para que também possam crer no Deus revelado em Cristo e encontrem o significado maior de suas vidas.

Todavia, ao lado dessas questões mais pessoais e subjetivas, existem alegações bastante objetivas que fazem com que você se sinta abalado em suas convicções cristãs. Uma dessas alegações diz respeito ao suposto conflito entre fé e ciência. O cristianismo não vê esse impasse, entendendo que se trata de duas esferas distintas, ainda que complementares. Deus é o criador tanto do mundo espiritual quanto do mundo físico e das leis que o regem. Portanto, a ciência corretamente entendida não contradiz a fé; elas tratam de realidades distintas ou das mesmas realidades a partir de diferentes perspectivas. O problema surge quando um intelectual, influenciado por pressupostos materialistas, afirma que toda a realidade é material e que nada que não possa ser comprovado cientificamente pode existir. O verdadeiro espírito científico e acadêmico não se harmoniza com uma atitude estreita dessa natureza, que decide certas questões por exclusão ou por antecipação.

Mas vamos a alguns tópicos mais específicos. Você, universitário cristão, pode ouvir em sala de aula questionamentos de diversas modalidades: acerca da religião em geral (uma construção humana para responder aos anseios e temores humanos), de Deus (não existe ou então existe, mas é impessoal e não se relaciona com o mundo), da Bíblia (um livro meramente humano, repleto de mitos e contradições), de Jesus Cristo (nunca existiu ou foi apenas um líder carismático), da criação (é impossível, visto que a evolução explica tudo o que existe), dos milagres (invenções supersticiosas, uma vez que conflitam com os postulados da ciência), e assim por diante. Não temos aqui espaço para responder a todas essas alegações, mas perguntamos: Quem conferiu às pessoas que emitem esses julgamentos a prerrogativa de terem a última palavra sobre tais assuntos? Por que deve um universitário cristão aceitar tacitamente essas alegações, tantas vezes motivadas por preferências pessoais e subjetivas dos seus mestres, como se fossem verdades definitivas e inquestionáveis?

O fato é que, desde o início, os cristãos se defrontaram com críticas e contestações de toda espécie. Nos primeiros séculos da era cristã, muitos pagãos acusaram os cristãos de incesto, canibalismo, subversão e até mesmo ateísmo! Foram especialmente contundentes as críticas feitas por homens cultos como Porfírio, Galeno e Celso, que questionaram a Escritura, as noções de encarnação e ressurreição, e outros pontos. Eles alegavam que o cristianismo era uma religião de gente ignorante e supersticiosa. Em resposta a esses ataques intelectuais surgiu um grupo de escritores e teólogos que ficaram conhecidos como os apologistas e os polemistas. Dentre eles podem ser citados Justino Mártir, Irineu de Lião, Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes, que produziram notáveis obras em defesa da fé cristã.

Em nosso tempo, também têm surgido grandes defensores da cosmovisão cristã, tais como Cornelius van Til, C. S. Lewis, Francis Schaeffer, R. C. Sproul, John Stott e outros, que têm utilizado não somente a Bíblia, mas a teologia, a filosofia e a própria ciência para debater com os proponentes do secularismo. Além deles, outros autores têm publicado obras mais populares acerca do assunto, apresentando argumentos convincentes em resposta às alegações anticristãs. Dois bons exemplos recentes são o livro de Lee Strobel, Em Defesa da Fé, que possui um capítulo especialmente instrutivo sobre uma questão até hoje não aclarada pela ciência, ou seja, a origem da vida, e o livro de Phillip Johnson, Ciência, Intolerância e Fé, cujo subtítulo já diz muito: “A cunha da verdade: rompendo os fundamentos do naturalismo”. É importante que você, universitário cristão, leia esses e outros bons autores, familiarize-se com seus argumentos e reflita de maneira cuidadosa sobre a sua fé, a fim de que possa resistir à sedução dos argumentos divulgados nos meios acadêmicos.

Outra iniciativa importante que você deve tomar é aproximar-se de outros estudantes que compartilham as mesmas convicções. É muito difícil enfrentar sozinho as opiniões contrárias de um sistema ou de uma comunidade. Por isso, envolva-se com um grupo de colegas cristãos que se reúnam para conversar sobre esses temas, compartilhar experiências, apoiar-se mutuamente e cultivar a vida espiritual. Muitas universidades têm núcleos da Aliança Bíblica Universitária (ABU) e de outras organizações cristãs idôneas que visam precisamente oferecer auxílio aos estudantes que se deparam com esses desafios. Não deixe também de participar de uma boa igreja, onde você possa encontrar comunhão genuína e alimento sólido para a sua vida com Deus.
Em conclusão, procure encarar de maneira construtiva os desafios com que está se defrontando. Veja-os não como incômodos, mas como oportunidades dadas por Deus para ter uma fé mais madura e consciente, para conhecer melhor as Escrituras, para inteirar-se das críticas ao cristianismo e de como responder a elas, para dar o seu testemunho diante dos seus professores e colegas, por palavras e ações. Saiba que você não está só nessa empreitada. Além de irmãos que intercedem por sua vida, você conta com a presença, a força e a sabedoria do Senhor. Muitos já passaram por isso e foram vitoriosos. Meu desejo sincero é que o mesmo aconteça com você. Deus o abençoe!

Perguntas para reflexão:

1. As universidades nasceram à sombra da igreja e por muitos séculos foram moldadas por princípios cristãos. Por que hoje a maior parte delas se tornaram cidadelas do secularismo e do ceticismo?

2. O que é melhor – que os cristãos criem as suas próprias universidades ou que procurem exercer maior influência nas universidades seculares?

3. O que as igrejas podem fazer para minimizar o impacto sofrido por muitos jovens crentes ao ingressarem no meio universitário?

4. Como as igrejas podem fazer melhor uso da boa apologética para defender a fé cristã das acusações que lhe são feitas pela academia e outras instituições?

5. Quais são as áreas em que os jovens cristãos encontram maior dificuldade para conciliar a sua fé com os posicionamentos da ciência e do mundo acadêmico?

Sugestões bibliográficas:

CRAIG, William Lane. A veracidade da fé cristã: uma apologética contemporânea. São Paulo: Vida Nova.

JOHNSON, Phillip. Ciência, intolerância e fé. Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2004.

JOHNSON, Phillip. As perguntas certas. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

LARSEN, Dale e Sandy. Sete mitos sobre o cristianismo. São Paulo: Vida.

MacARTHUR, JR., John. Criação ou evolução: a luta pela verdade sobre o princípio do universo. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

SCHAEFFER, Francis. A morte da razão: a desintegração da vida e da cultura moderna. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
SCHAEFFER, Francis. O Deus que intervém: o abandono da verdade e as trágicas conseqüências para a nossa cultura – a única esperança na verdade histórica do cristianismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

STOTT, John. Por que sou cristão. Viçosa, MG: Editora Ultimato.

STROBEL, Lee. Em defesa da fé. São Paulo: Vida, 2002.

terça-feira, 23 de março de 2010

UMA CARTA “DESONESTA” A UMA NAÇÃO CRISTÃ

HARRIS, Sam. Carta a uma Nação Cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 96 pp.

Sam Harris, nascido no ano de 1967 (erroneamente a orelha do livro traz a informação do seu nascimento como tendo sido em 1957) faz parte de uma nova safra de ateístas, dentre os quais se destacam homens: Michel Onfray[1] (filósofo francês), Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Daniel Dennett. Estes três últimos, juntamente com Harris, foram alcunhados de “quatro cavaleiros do novo apocalipse ateísta”.[2] Esta nova safra de ateístas se diferencia de grandes vultos do passado, como por exemplo, Bertrand Russel, Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche e Karl Marx, por ser mais militante, mais agressiva, mais marqueteira e mais “evangelística”. Prova disso, é a campanha exposta nos pôsteres dos ônibus londrinos, em que a afirmação “Provavelmente não há Deus. portanto, deixe de se preocupar e aproveite sua vida” é escancarada. Harris estudou na Universidade de Stanford, “mas abandonou os estudos ali depois de um incidente não esclarecido com a droga ecstasy. Nesse mesmo tempo, Harris teve uma profunda experiência religiosa”.[3]

A obra em questão, Carta a uma Nação Cristã, é a segunda da lavra de Sam Harris. Em 2004, ele escreveu o livro O Fim da Fé: Religião, Terrorismo e o Futuro da Razão, onde lança as bases do seu pensamento ofensivo ao teísmo. Algo a ser destacado é a sugestão de que “a crença em Deus é inerentemente má, começando em impulsos maléficos da mente e do espírito e levando, finalmente, a efeitos sociais perniciosos”.[4] Harris, não satisfeito, no ano de 2006 lançou o seu segundo livro, Carta a uma Nação Cristã. O livro em si é bem escrito, possuindo uma linguagem de fácil compreensão e assimilação, contribuindo assim, para a consecução do suposto objetivo de Harris, que é escrever “diretamente para o seu leitor cristão”.[5] Isso fica evidente pelo mesmo ser escrito em forma de uma carta pessoal. Acontece que, o livro não foi escrito tendo em vista os cristãos. A verdadeira intenção de Sam Harris fica clara um pouco mais à frente, quando ele afirma que o propósito mais amplo do livro “é dar munição aos secularistas de todas as sociedades contra seus opositores, cada vez mais fervorosos”.[6] Ele acentua ainda que, deseja demolir “as pretensões intelectuais e morais do cristianismo em suas formas mais ardorosas”.[7] Então, que fique bem esclarecida qual é a real intenção do autor. Ele se dirige de forma pessoal aos cristãos apenas como um subterfúgio literário, mas o seu real interesse é alcançar uma determinada elite intelectual naturalista e secularista, com o fim de encorajá-la a ser mais ousada em suas afirmações públicas contra o teísmo de uma forma geral, e mais especificamente contra o cristianismo.

Harris se dirige aos Estados Unidos, que de acordo com ele, é uma nação teimosa, não se submetendo à secularização experimentada pelo continente europeu. Como coloca acertadamente o Dr. Mohler: “Ele lamenta que, por alguma razão, uma virulenta corrente de crença em Deus persiste nesse país, e isso deve ser resultado de alguma falha básica na mente americana”.[8]

Algo verdadeiramente interessante na obra de Sam Harris é a sua admissão do raciocínio por antíteses, algo inadmissível para os filósofos pós-modernos. Ele concorda com os cristãos, quando defende que é impossível que as duas cosmovisões envolvidas estejam, ao mesmo tempo, corretas. Eis suas palavras: “Nós concordamos, por exemplo, que se um de nós está certo, o outro está errado. Ou a Bíblia é a palavra de Deus, ou não é. Ou Jesus oferece à humanidade o único verdadeiro caminho para a salvação (João 14.6), ou não oferece”.[9] Nesse ponto, Harris está correto. É impossível, que dois sistemas de pensamentos, ou duas cosmovisões, que se opõem em suas proposições estejam ambas corretas. O cristianismo e o ateísmo não podem estar ambos corretos. Um tem de estar errado. Francis Schaeffer (1912-1984), um dos maiores pensadores cristãos reformados do século XX, afirmou que, “se há alguma coisa verdadeira, o oposto tem de ser falso. Quando se trata de moral, se algo é verdade, o contrário é falso. Esta pequena fórmula, ‘A’ é ‘A’ e ‘Se você tem A, ele não é não-A’, é o primeiro passo da lógica clássica”.[10]

Harris inicia o seu ataque contra a fé cristã fazendo um mau uso tremendo de passagens bíblicas, visando dar ênfase na suposta falsa moralidade bíblica. Ele cita trechos do Antigo Testamento que apresentam penas para determinados crimes. Ele acusa os cristãos de citarem textos de forma desconexa. Acontece que, Harris acaba caindo no dito erro condenado por ele. Por exemplo, ele cita a passagem de Mateus 5.18-20, e afirma que Jesus endossou as formas punitivas veterotestamentárias. O ponto-chave da passagem, é quando Jesus afirma que “até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra”. Com isso, ele afirma que, “Jesus confirmou integralmente a lei do Velho Testamento”.[11] Algumas falácias podem ser apontadas na análise irresponsável de Harris:

1. Ele demonstra aqui uma ignorância crassa e um desconhecimento monumental acerca de como interpretar textos legais. Ele demonstra desconhecer a divisão tripartite da lei veterotestamentária. Por desconhecer o que é Lei Moral, Lei Cerimonial e Lei Civil é que ele faz afirmações irresponsáveis como essa.

2. Harris se apresenta como um verdadeiro analfabeto funcional[12] na leitura que faz de Mateus 5.18-20. Ele ignora, intencionalmente e de forma completa o contexto mais amplo, especificamente, o contexto posterior. Logo no versículo 21, Jesus esclarece e especifica sua afirmação, expondo a Lei Moral, conforme resumida nos Dez Mandamentos.

Algo hilário em Carta a uma Nação Cristã é a defesa vigorosa do ateísmo diante das acusações de que os ateus são maus. O autor afirma: “Cristãos como você invariavelmente declaram que monstros como Adolf Hitler, Josef Stálin, Mao Tse-tung, Pol Pot e Kim Il Sung surgem do ventre do ateísmo”.[13] Para negar essa acusação, ele cita um discurso de Hitler, no qual o ditador se declara cristão e diz agir motivado pela honra de Deus.[14] No entanto, o próprio Harris admite parcimoniosamente, que tais homens por vezes são inimigos da religião organizada.[15] Ele se debate com a ideia da maldade ateísta e cita também horrores como o holocausto, as cruzadas, os conflitos religiosos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte e a inquisição como demonstrações irrefutáveis de que a religião, em vez do ateísmo, é má. Sobre esse ponto, faço questão de citar o pensamento de um intelectual ex-ateu, que conheceu bem de perto a violência religiosa:

Como alguém que cresceu na Irlanda do Norte, conheço perfeitamente bem a violência religiosa. Não há dúvida de que a religião pode gerar violência, mas ela não está sozinha nisso. A história do século XX nos proporcionou uma consciência alarmante de como o extremismo político pode igualmente causar violência. Na América Latina, milhares de pessoas parecem ter “desaparecido” em consequência de campanhas violentas e implacáveis de políticos direitistas e suas milícias. No Camboja, Pol Pot eliminou milhões de seus compatriotas em nome do socialismo. O surgimento da União Soviética teve um significado específico. Lênin considerava fundamental para a revolução socialista eliminar a religião, e pôs em prática medidas planejadas para erradicar as crenças religiosas através do “uso prolongado da violência”. Uma das maiores tragédias dessa era sombria da história humana foi causada pelos que tentaram eliminar a crença religiosa por meio da violência e opressão, acreditando possuir justificativas para tal. Suas ações eram ratificadas apenas pela autoridade fornecida pelo estado.[16]

O ponto a ser destacado, ao contrastarmos as declarações de Sam Harris e de Alister McGrath, é que os cristãos são honestos em sua confissão da violência advinda do fundamentalismo religioso, ao passo que os ateístas são desonestos mesmo diante dos fatos históricos apresentados.

Sam Harris apresenta uma forma de raciocínio pueril ao apregoar a extinção da religião e apresentar algumas nações européias como evidências disso. Ele elenca nações como Noruega, Islândia, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e Reino Unido como as sociedades menos religiosas do mundo, bem como exemplos positivos de alta expectativa de vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Forçosamente, Harris atribui isso ao abandono da religião.[17] A grande falácia na sua argumentação é a completa desconsideração para com a história e a análise sociológica empreendida por Max Weber. De acordo com Weber,

Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas e nos congressos católicos, principalmente na Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante.[18]

A tese de Weber, é que os países protestantes sempre apresentaram um potencial maior para o desenvolvimento social e econômico. E é exatamente isso que Sam Harris ignora na sua análise desonesta, fraudulenta e irresponsável. Ele, de forma proposital, esquece que países como, Noruega, Islândia, Suécia, Holanda, Suíça, Dinamarca e o Reino Unido possuem um forte legado religioso e protestante, bem como o fato de que o desenvolvimento nessas nações está inextricavelmente ligado à sua herança protestante. As afirmações de Harris são, a bem da verdade, um amontoado de factóides falsos e exagerados. Outro exemplo de suas afirmações grotescas se encontra em uma informação lacônica sobre alunos secundaristas e a compreensão da matemática e ciências:

Em 2005 foi realizada uma pesquisa em 34 países, que mediu a porcentagem de adultos que aceitam a evolução. Os Estados Unidos ficaram na posição número 33, logo acima da Turquia. Enquanto isso, os estudantes secundaristas nos Estados Unidos se classificam abaixo dos estudantes de todos os países europeus e asiáticos em testes de compreensão de matemática e ciências. Esses dados são inequívocos: estamos construindo uma civilização da ignorância.[19]

Deve ser notado, que Harris mencionou os estudantes dos países asiáticos como se classificando acima dos alunos secundaristas americanos. Pois bem, ele deveria ter mencionado, que os alunos secundaristas da Coréia do Sul, um país fortemente protestante e não-secularizado, ocupam as primeiras colocações na compreensão de matemática e ciências. Harris apenas joga as informações e as interpreta convenientemente, visando apoiar sua tese.

Carta a uma Nação Cristã se constitui assim, em um instrumento extremamente frágil para os secularistas que desejam exterminar a fé cristã. É preciso bem mais do que uma linguagem apaixonada e desonesta para fazer ceder as colunas do cristianismo. Positivamente, a obra de Sam Harris nos oferece uma clara oportunidade de refinar a apologética cristã, mostrando aos ateístas a sua ignorância e torpeza intelectuais.

Por fim, é preciso que os incautos admiradores da retórica venenosa de Sam Harris saibam que, o rei não está nu! Pelo contrário, as abas de suas vestes continuam enchendo o mundo com a sua glória e sabedoria!




[1] Autor de Tratado de Ateologia, lançado no Brasil, em 2007, pela editora Martins Fontes.

[2] R. Albert Mohler Jr. Ateísmo Remix. São José dos Campos: Fiel, 2009, 10.

[3] Ibid, 49.

[4] Ibid.

[5] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 9. Conforme destaque de Richard Dawkins no prefácio.

[6] Ibid, 14.

[7] Ibid.

[8] R. Albert Mohler Jr. Ateísmo Remix, 52.

[9] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 21.

[10] Francis A. Schaeffer, O Deus que Intervém. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, 21.

[11] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 26.

[12] “Analfabeto funcional” é o indivíduo que faz uma leitura, sem compreensão de textos informativos. Tal expressão contrasta com o conceito de “leitura funcional”, delineado pelo linguista Mário Perini. A boa leitura envolve compreensão do texto e sua interação com outras variáveis, como o contexto.

[13] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 47.

[14] Ibid, 48.

[15] Ibid, 47.

[16] Alister McGrath e Joanna McGrath, O Delírio de Dawkins: Uma Resposta ao Fundamentalismo Ateísta de Richard Dawkins. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, 109, 110.

[17] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 50.

[18] Max Weber, A Éitca Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2002, 35. Gostaria de indicar a análise extraordinária de André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, 240 pp. Extraordinária é a primeira parte intitulada, Os Protestantes e o Advento das Grandes Democracias, 41-110.

[19] Sam Harris, Carta a uma Nação Cristã, 69, 70.

quinta-feira, 11 de março de 2010

16º ANIVERSÁRIO DA ORGANIZAÇÃO ECLESIÁSTICA DA IGREJA PRESBITERIANA FILADÉLFIA

Do dia 2 ao dia 4 de Abril, acontecerá a comemoração de 16 anos de organização eclesiástica da Igreja Presbiteriana Filadélfia, em Marabá-PA. Na ocasião, teremos como preletor o Pr. Josafá Vasconcelos, pastor-efetivo da Igreja Presbiteriana da Herança Reformada, em Salvador-BA.
O tema da Conferência será: 1ª Coríntios e sua relevância para os dias de hoje.
A programação será a seguinte:
SEXTA-FEIRA (19:30h): Culto e Exposição de 1ª Coríntios 3.1-9
SÁBADO (19:30h): Culto e Exposição de 1ª Coríntios 5
DOMINGO - EBD (09:00): Estudo sobre o Princípio Regulador do Culto e sua relação com os "dias santos" (Natal e Páscoa)
DOMINGO (19:00h): Culto Solene e Exposição de 1ª Coríntios 4.1-5.
Estamos em oração para que o Senhor nos abençoe durante esse período!
SOLI DEO GLORIA!

terça-feira, 9 de março de 2010

A CABANA - A PERDA DA ARTE DO DISCERNIMENTO EVANGÉLICO

ALBERT MOHLER JR.

Dr. Albert Mohler é o presidente do Southern Baptist Theological Seminary, pertencente à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos; é pastor, professor, teólogo, autor e conferencista internacional, reconhecido pela revista Times como um dos principais líderes entre o povo evangélico norte-americano. É casado com Mary e tem dois filhos, Katie e Christopher.

O mundo editorial vê poucos livros atingirem o status de "sucesso". No entanto, o livro A Cabana, escrito por William Paul Young, superou esse status. O livro, publicado originalmente pelo próprio autor e dois amigos, já vendeu mais de dez milhões de cópias e já foi traduzido para mais de trinta idiomas. É, agora, um dos livros mais vendidos de todos os tempos, e seus leitores estão entusiasmados.

De acordo com Young, o livro foi escrito originalmente para seus próprios filhos. Em essência, ele pode ser descrito como uma teodicéia em forma de narrativa – uma tentativa de responder à questão do mal e do caráter de Deus por meio de uma história. Nessa história, o personagem principal está entristecido por causa do rapto e do assassinato brutal de sua filha de sete anos, quando recebe aquilo que se torna uma intimação de Deus para encontrá-lo na mesma cabana em que a menina foi morta.

Na cabana, "Mack" se encontra com a Trindade divina, onde Deus, o Pai, é representado como "Papai", uma mulher afro-americana, e Jesus, por um carpinteiro judeu, e "Sarayu", uma mulher asiática, é identificada como o Espírito Santo. O livro é, principalmente, uma série de diálogos entre Mack, Papai, Jesus e Sarayu. As conversas revelam que Deus é bem diferente do Deus da Bíblia. "Papai" é absolutamente alguém que não faz julgamentos e parece determinado a afirmar que toda a humanidade já está redimida.

A teologia de A Cabana não é incidental à história. De fato, em muitos pontos a narrativa serve, principalmente, como uma estrutura para os diálogos. E estes revelam uma teologia que, no melhor, é não-convencional e, sem dúvida, herética em certos aspectos.

Embora o artifício literário de uma "trindade" não-convencional de pessoas divinas seja, em si mesmo, antibíblico e perigoso, as explicações teológicas são piores. "Papai" conta a Mack sobre o tempo em que as três pessoas da Trindade manifestaram-se da seguinte forma: "nós falamos com a humanidade através da existência humana como Filho de Deus". Em nenhuma passagem da Bíblia, o Pai ou o Espírito Santos é descrito como assumindo a forma humana. A cristologia do livro é confusa. "Papai" diz a Mack que, embora Jesus seja plenamente Deus, "ele nunca usou a sua natureza como Deus para fazer qualquer coisa". Eles apenas viveu do seu relacionamento comigo, da mesma maneira como eu desejo me relacionar com qualquer ser humano". Quando Jesus curou o cego, "Ele fez isso como um ser humano dependente que confiava em minha vida e poder para agir nele e por meio dele. Jesus, como ser humano, não tinha qualquer poder em si mesmo para curar alguém".

Embora haja muita confusão teológica a ser esclarecida no livro, basta dizer que a igreja cristã tem lutado por séculos para chegar a um entendimento fiel da Trindade, a fim de evitar esse tipo de confusão – reconhecendo que a fé cristã está, ela mesma, em perigo.

Jesus diz a Mack que ele é "o melhor caminho para qualquer ser humano se relacionar com Papai ou com Sarayu". Não é o único caminho, mas o melhor caminho.

Em outro capítulo, "Papai" corrige a teologia de Mack afirmando: "Eu não preciso punir as pessoas pelos seus pecados. O pecado é a sua própria punição, que devora você a partir do interior. Não tenho o propósito de punir o pecado; tenho alegria em curá-lo". Sem dúvida, a alegria de Deus está na expiação realizada pelo Filho. No entanto, a Bíblia revela consistentemente que Deus é o Juiz santo e reto, que punirá pecadores. A idéia de que o pecado é a "sua própria punição" se encaixa no conceito do karma, e não no evangelho cristão.

O relacionamento do Pai com o Filho, revelado em textos como João 17, é rejeitado em favor de uma absoluta igualdade de autoridade entre as pessoas da Trindade. "Papai" explica que "não temos qualquer conceito de autoridade final entre nós, somente unidade". Em um dos mais bizarros parágrafos do livro, Jesus diz a Mack: "Papai é tão submisso a mim como o sou a ele, ou Sarayu a mim, ou Papai a ela. Submissão não diz respeito à autoridade e à obediência; é um relacionamento de amor e respeito. De fato, somos submissos a você da mesma maneira".

Essa hipotética submissão da Trindade a um ser humano – ou a todos os seres humanos – é uma inovação teológica do tipo mais extremo e perigoso. A essência da idolatria é a auto-adoração, e essa noção da Trindade submissa (em algum sentido) à humanidade é indiscutivelmente idólatra.

O aspecto mais controverso da mensagem de A Cabana gira em torno das questões do universalismo, da redenção universal e da reconciliação final. Jesus diz a Mack: "Aqueles que me amam procedem de todo sistema que existe. São budistas, mórmons, batistas, islamitas, democratas, republicanos e muitos que não votam ou não fazem parte de qualquer igreja ou de instituições religiosas". Jesus acrescenta: "Não tenho desejo de torná-los cristãos, mas quero unir-me a eles em sua transformação em filhos e filhas de meu Papai, em meus irmãos e irmãs, meus amados".

Em seguida, Mack faz a pergunta óbvia: Todos os caminhos levam a Cristo? Jesus responde: "Muitos dos caminhos não levam a lugar algum. O que isso significa é que eu irei a qualquer caminho para encontrar vocês".

Devido ao contexto, é impossível extrair conclusões essencialmente universalistas ou inclusivistas quanto ao significado de Yong. "Papai" repreende Mack dizendo que está agora reconciliado com todo o mundo. Mack replica: "Todo o mundo? Você quer dizer aqueles que crêem em você, não é?" "Papai responde: "Todo o mundo, Mack".

No todo, isso significa algo bem próximo da doutrina da reconciliação proposta por Karl Barth. E, embora Wayne Jacobson, o colaborador de Young, tenha lamentado haver pessoas que acusam o livro de ensinar a reconciliação final, ele reconhece que as primeiras edições do manuscrito foram influenciadas indevidamente pela "parcialidade, na época," de Young para com a reconciliação final – a crença de que a cruz e a ressurreição de Cristo realizaram a reconciliação unilateral de todos os pecadores (e de toda a criação) com Deus.

James B. DeYoung, do Western Theological Seminary, um erudito em Novo Testamento que conheceu Young por vários anos, documenta a aceitação de Young quanto a uma forma de "universalismo cristão". A Cabana, ele conclui, "descansa sobre o fundamento da reconciliação universal".

Apesar de que Wayne Jacobson e outros se queixam daqueles que identificam heresia em A Cabana, o fato é que a igreja cristã tem identificado, explicitamente, esses ensinos como heresia. A pergunta óbvia é esta: por que tantos cristãos evangélicos parecem ser atraídos não somente à história, mas também à teologia apresentada na narrativa – uma teologia que, em vários pontos, está em conflito com as convicções evangélicas?

Os observadores evangélicos não estão sozinhos em fazer essa pergunta. Escrevendo em The Chronicle of High Education (A Crônica da Educação Superior), o professor Timothy Beal, da Case Western University, argumentou que a popularidade de A Cabana sugere que os evangélicos devem estar mudando a sua teologia. Ele cita os "modelos metafóricos não-bíblicos de Deus" no livro, bem como seu modelo "não-hierárquico" da Tridade e, mais notavelmente, "sua teologia de salvação universal".

Beal afirma que nada dessa teologia faz parte das "principais correntes teológicas evangélicas" e explica: "De fato, essas três coisas estão arraigadas no discurso teológico acadêmico radical e liberal dos anos 1970 e 1980 – que influenciou profundamente os feministas contemporâneos e a teologia da libertação, mas que, até agora, teve muito pouco impacto nas imaginações teológicas de não-acadêmicos, especialmente dentro das principais correntes religiosas".

Em seguida, ele pergunta: "O que essas idéias teológicas progressistas estão fazendo no fenômeno da ficção evangélica?" Ele responde: "Desconhecidas para muitos de nós, elas têm estado presente em muitos segmentos liberais do pensamento evangélico durante décadas". Agora, ele diz, A Cabana introduziu e popularizou esses conceitos liberais até entre as principais denominações evangélicas.

Timothy Beal não pode ser rejeitado como um conservador e "caçador de heresias". Ele está admirado com o fato de que essas "idéias teológicas progressistas" estão "se introduzindo aos poucos na cultura popular por meio de A Cabana".

De modo semelhante, escrevendo em Books & Culture (Livros e Cultura), Katharine Jeffrey conclui que A Cabana "oferece uma teodicéia pós-moderna e pós-bíblica". Embora sua principal preocupação seja o lugar do livro "num panorama literário cristão", ela não pôde evitar o lidar com a sua mensagem teológica.

Ao avaliar o livro, deve-se ter em mente que A Cabana é uma obra de ficção. Contudo, é também um argumento teológico, e isso não pode ser negado. Diversos romances notáveis e obras de literatura contêm teologia aberrante e heresia. A pergunta crucial é se as doutrinas aberrantes são características da história ou são a mensagem da obra. Em A Cabana, o fato inquietante é que muitos leitores são atraídos à mensagem teológica do livro e não percebem como ela conflita com a Bíblia em muitos assuntos cruciais.

Tudo isso revela um fracasso desastroso do discernimento evangélico. Dificilmente não concluímos que o discernimento teológico é agora uma arte perdida entre os evangélicos – e esse erro pode levar tão-somente à catástrofe teológica.

A resposta não é banir A Cabana ou arrancá-lo das mãos dos leitores. Não precisamos temer livros – temos de estar prontos para responder-lhes. Necessitamos desesperadamente de uma redescoberta teológica que só pode vir de praticarmos o discernimento bíblico. Isso exigirá que identifiquemos os perigos doutrinários de A Cabana. Mas a nossa principal tarefa consiste em familiarizar novamente os evangélicos com os ensinos da Bíblia sobre esses assuntos e fomentar um rearmamento doutrinário de cristãos evangélicos.

A Cabana é um alerta para o cristianismo evangélico. Uma avaliação como a que Timothy Beal ofereceu é reveladora. A popularidade desse livro entre os evangélicos só pode ser explicada pela falta de conhecimento teológico básico entre nós – um fracasso em entender o evangelho de Cristo. A tragédia de que os evangélicos perderam a arte de discernimento bíblico se origina na desastrosa perda do conhecimento da Bíblia. O discernimento não pode sobreviver sem doutrina.


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Traduzido por: Wellington Ferreira

Copyright:

© R. Albert Mohler Jr.

Traduzido do original em inglês: The Shack — The Missing Art of Evangelical Discernment.

http://www.albertmohler.com/

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sexta-feira, 5 de março de 2010

SOBRE MATEUS 24.36

Um amigo me enviou o seguinte e-mail:
"E aí grande amigo, como vão as coisas? Rapaz Alan, preciso da sua ajuda. Veja só se você pode me ajudar. Eu entendo a unipersonalidade de Cristo e suas naturezas inseparáveis, só que uma pergunta de um membro da igreja me pegou e eu não soube sair, e fiquei de dar a resposta depois. Lá me Mateus 24.35-36 (leia por favor), dizer que ele sabia como Deus e não sabia como homem, acredito ser simplista, e até mesmo perigoso, pois pode fazer uma ruptura na pessoa de Cristo. Como explicar isso? pode me ajudar por favor?"
Eis a minha resposta:
Rapaz, realmente essa é uma questão muito delicada e difícil. A quantidade de debates e controvérsias na história provam isso. No entanto, vejamos se consigo fazer alguns apontamentos úteis.

Realmente, é simplório (para não dizer desonesto intelectualmente) apelar para uma “divisão” nas naturezas de Jesus, como se em alguns momentos a natureza humana agisse, e em outros, a natureza divina. Wayne Grudem, por exemplo, peca na sua cristologia ao apresentar uma espécie de Jesus “esquizofrênico”, onde algumas experiências que a natureza humana de Cristo passa, não são as mesmas que a natureza divina enfrenta. Por exemplo, na página 461 da sua Teologia Sistemática, Grudem afirma: “podemos dizer que Jesus tinha cerca de trinta anos (Lc 3.23), se estivermos falando a respeito de sua natureza humana, mas podemos dizer que ele existiu eternamente (Jo 1.1-2; 8.58), se estivermos falando de sua natureza divina”. Grudem pende para uma espécie de nestorianismo, pois na mesma página ele afirma que apenas a natureza humana experimentava fraqueza e se cansava, mas a sua natureza divina era onipotente. O ponto que desejo ressaltar, é que afirmar que em Mateus 24.35,36 Jesus estava falando a partir da perspectiva de sua natureza humana é cair no mesmo erro de Grudem. É abraçar o nestorianismo.

Algo que achei interessante, é que todos os comentaristas, apesar de não dividirem Jesus como Grudem faz, acabam apelando para Jesus como homem. Por exemplo, Robert L. Reymond afirma: “Jesus declarou expressamente que não sabe o dia ou a hora do seu retorno. Quer dizer, ele enfaticamente nega esse conhecimento como homem acerca do ‘quando’ da sua parousia” (A New Systematic Theology of the Christian Faith, pág. 1007). Hendriksen segue o mesmo discurso: “Na verdade, nem o próprio Filho, visto pelo prisma de sua natureza humana” (Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, pág. 517).

Vejamos a passagem de Mateus 24.36: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”.

A melhor forma de interpretar esse versículo, em minha opinião, é fazendo uso da ideia da comunicação dos atributos (communicatio idiomatum), que afirma que as propriedades de ambas as naturezas podem ser atribuídas a uma Pessoa. As limitações da natureza humana, por exemplo, são as limitações da pessoa inteira. Franklin Ferreira e Alan Myatt afirmam o seguinte: “Por isto, se pode dizer que Jesus Cristo é todo-poderoso, onisciente, onipresente e assim por diante, mas também se pode dizer que ele é um homem real, de conhecimento e poder limitados, e sujeito às necessidades, dores e limitações humanas” (Teologia Sistemática, pág. 519). Nesse sentido, o correto é afirmar que, a pessoa de Cristo, quando do seu ministério terreno, não conhecia a precisa ocasião do seu retorno. É difícil conciliarmos isso com o fato de Jesus ser plenamente Deus também. Obviamente, a consumação de todas as coisas fora decretada por Deus desde antes da fundação do mundo, e, logicamente toda a Trindade participou dessa deliberação. Quando lemos as palavras de Jesus em Mateus 24.36 e em Marcos 13.32, não devemos imaginar que o Espírito Santo, “que é familiarizado com as coisas profundas de Deus, e os segredos do seu coração”, como afirma John Gill, seja ignorante a esse respeito.

Olhando por esse prisma, devemos nos perguntar: É possível que a Primeira e a Terceira Pessoa da Trindade saibam de algo que a Segunda ignora ou desconhece? No entanto, a própria Segunda Pessoa da Trindade afirma que desconhece o dia e a hora do seu retorno. Como podemos resolver esse impasse? Meu amigo, creio ser esse um problema dos mais difíceis em toda a Teologia.

Há um conceito na teologia calvinista importante para interpretarmos Mateus 24.36 e Marcos 13.32. É o conceito do extra calvinisticum, que ensina que “a humanidade finita do Redentor não era capaz de receber, compreender e conter os atributos infinitos que eram próprios da natureza divina infinita, ou seja, a onipotência, a onisciência e a onipresença” (Heber Carlos de Campos, A União das Naturezas do Redentor, pág. 277). O sentido do extra calvinisticum, é que a pessoa de Cristo experimentou limitações dada a necessidade da encarnação. Jesus, no seu estado de humilhação não podia deter de forma exaustiva o conhecimento divino. O princípio filosófico do finitum non capax infiniti (o finito não é capaz do infinito) entra aqui. Ao assumir a natureza humana, a pessoa do Logos limitou, não perdeu, os atributos supramencionados. G. C. Berkouwer afirma o seguinte sobre o extra calvinisticum: “os atributos Divinos são ocultos no Verbo encarnado por causa da veste carnal, e que a aparência de Servo humilhado não prejudica em nada a riqueza deste Rei” (A Pessoa de Cristo, pág. 161, extraído de http://www.monergismo.com).

Certamente que essa é uma doutrina difícil de compreender e digerir, porém, considero como a que melhor faz jus à integridade da pessoa de Cristo.

Espero ter ajudado em algo.
Em Cristo, nosso Redentor!
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