quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

E O REVERENDO? VAI BEM?

Por REVERENDO Alan Rennê

Tenho visto algumas pessoas que possuem verdadeira ojeriza ao título de “reverendo” atribuído aos pastores de um modo geral, e, especificamente, da minha denominação, a Igreja Presbiteriana do Brasil. Inclusive, alguns amigos pessoais são veementemente contra o uso desse título. De forma sintética, o argumento utilizado gira em torno do Salmo 111.9: “Enviou ao seu povo a redenção; estabeleceu para sempre a sua aliança; santo e tremendo é o seu nome”. A palavra “tremendo” é a palavra hebraica yare’, que significa, basicamente, “temer, ter medo, reverenciar”.[1] Quando usado no niphal, como na passagem citada, traz a idéia de “ser temido, reverenciado, ser honrado”.[2] A versão King James traduz o Salmo 111.9 da seguinte maneira: “He sent redemption unto his people: he hath commanded his covenant for ever: holy and reverend is his name”.

Então, o argumento usado é que “reverendo” é um título aplicado apenas a Deus, portanto, não devemos atribuí-los a quem quer que seja. No caso, pastores não devem ser chamados de “reverendos” jamais! Usá-lo para pastores é fazer um uso antibíblico!

Nunca concordei com esse posicionamento. Diante disso, gostaria de citar a análise de um erudito da minha denominação, o Rev. Odayr Olivetti. A citação é longa, porém, muito valiosa[3]:

SOBRE TÍTULOS DOS PASTORES

Pergunta nº 29 – “Por que os pastores têm o título de ‘reverendo’, sendo que tal título não é bíblico?”

Resposta: vamos por partes:

1. Não são somente os pastores presbiterianos que usam esse título. Desde muitos séculos atrás, esse título foi adotado para designar os clérigos. Encontramo-lo na Igreja Católica Romana, na Igreja da Inglaterra (Anglicana), nas igrejas episcopais, metodistas, etc. Na Inglaterra, por exemplo, somente alguns dissidentes, ou seja, somente algumas igrejas livres, separadas da igreja oficial do país, é que rejeitam o uso desse título. Assim é que, naquele país, mesmo entre os batistas há grupos cujos pastores usam o título de reverendo.

2. Pensemos um pouco em alguns títulos explicitamente bíblicos. Vamos nos restringir aos seguinte: anjo, pastor, mestre, guia (Ap 1.20; 2.1; Ef 4.11; Hb 13.7,17).

a) Quanto sabemos, “anjo” não foi adotado por igreja alguma, por uma série de razões imagináveis, entre as quais esta: o desenvolvimento errôneo da representação dos anjos na crença e na prática do romanismo, desfigurando os vigorosos mensageiros do Senhor.

b) “Pastor”, título muito simpático e que expressa as funções básicas dos ministros e de outros obreiros – alimentar, guiar, proteger e disciplinar o rebanho. É adotado por algumas denominações, e não deixa de ser utilizado de maneira menos formal e mais coloquial pelos presbiterianos e outros.

Contudo, analisando-se bem a questão relacionada com esse título, notam-se alguns motivos de objeção ao seu uso como título específico dos ministros da Palavra. Vejamos:

1º - Sl 23.1 – É utilizado com referência à Divindade: “O Senhor é o meu pastor”. Em Jo 10.11,16; Hb 13.20; 1 Pe 2.25, etc., Jesus Cristo é chamado pastor.

Não causa espécie dar a uns pobres mortais, “vasos de barro”, na expressão de Paulo, um título que é dado a Deus Pai e a Deus Filho?

2º No caso da descrição das atividades na igreja e da igreja, “pastor” é palavra mais descritiva de funções, não título peculiar a uma dada categoria de pessoas. Note-se que no Antigo Testamento Deus se refere a um pagão como Seu pastor (Is 44.28). Em At 20.28 e em 1 Pe 5.1,2, se vê que não são somente os ministros da Palavra que exercem funções pastorais.

c) “Mestre”. Nas várias denominações evangélicas há pastores que são chamados “mestres”, ou porque fizeram mestrado em algumas disciplina acadêmico-teológica, ou porque são professores em seminários e institutos bíblicos, ou porque obtiveram o grau de doutor em algum curso teológico, sendo que, lexicamente, mestre, professor e doutor são sinônimos. – Mesmo denominações que repudiam o título de “reverendo” para os seus ministros, não se acanham de lhes permitir ou lhes dar o título de “mestre” ou “doutor”. Entretanto, Jesus Cristo vetou o uso desse título, dizendo: “Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos” (Mt 23.8).

d) “Guia”. Expressando pouco mais pouco menos o que a palavra “pastor” expressa, sendo, porém, palavra menos rica do que “pastor”, o título “guia” sofre a mesma objeção que atinge a palavra “mestre”, pois Jesus ordenou: “Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo” (Mt 23.10).

3. As palavras ligeiramente antes consideradas são significativas e envolvem habilitação, autoridade, poder. Sem essas qualificações, como pode o pastor pastorear, o mestre ensinar e o guia guiar?

Ora, esses títulos, dados e aceitos no seio da igreja cristã, requerem atitude respeitosa e disposição para a obediência por parte dos membros da igreja. Os que não se dispõem a se colocar na posição de cordeiros e ovelhas, não respeitarão o pastor e não obedecerão à sua voz; os que não se dispõem a se colocar na posição de discípulos ou alunos, não respeitarão o mestre ou doutor, e não seguirão as suas instruções. Os que não se dispõem a se colocar na posição de pessoas guiadas, conduzidas, dirigidas, não respeitarão o guia e não seguirão as suas indicações e a sua direção.

Observe-se como as ideias de respeito e de obediência estão presentes em qualquer desses títulos, ou de outros semelhantes, que se queira dar ao ministro da Palavra.

Ora, o significado primário da palavra “reverendo” é este: “digno de ser reverenciado ou respeitado” (Caldas Aulete).

Além das considerações feitas até aqui, os cristãos fiéis e os homens em geral devem ser tratados com honra (Fp 2.29; 1 Pe 2.17), o que por certo não exclui os ministros desse tratamento honroso. Mas, de modo especial, as referências e descrições bíblicas favorecem a ideia de que os ministros de Deus devem ser respeitáveis (responsabilidade deles) e respeitados (responsabilidade dos outros). Ver, por exemplo, Êx 3.10-14; Nm 12.1-10; 14.1-12; 16.1-5,28-33; Mt 10.14,40-42; Jo 12.26; 1 Tm 5.17; Hb 13.7,17.

Destaques:

a) 1 Tm 5.17 – Os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino (presbíteros docentes; responsáveis por fazer o que está registrado nessa parte da passagem), são considerados merecedores de dobrada honra, ou de dobrados honorários (responsabilidade dos membros e dos demais oficiais da igreja).

b) Hb 13.7,17 – “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e considerando atentamente o fim da sua vida” (responsabilidade dos guias), “imitai a fé que tiveram” (responsabilidade dos outros crentes). “Obedecei aos vossos guias, e sede submissos para com eles” (responsabilidade dos membros e oficiais da igreja); “pois velam por vossas almas, como quem deve prestar contas” (responsabilidade dos ministros de Deus).

“Imitai a fé” e “Obedecei... sede submissos” exigem humildade, respeito, consideração.

Portanto, não é antibíblico dar o título de reverendo aos pastores.

c) Mesmo porque, os ministros do Evangelho sabem que toda e qualquer honra que recebam pertence a Deus e a Deus a transferem, no espírito de passagens como Sl 115.1; 1 Co 1.10,31 e Rm 11.36.

O ministro que se pavoneia por causa dos privilégios do ministério, como se ele fosse o tal, está abusando, e lembra o burro da fábula: Transportou no lombo, pelas ruas da cidade, relíquias que faziam os transeuntes pararem e se dobrarem respeitosamente. O burro ficou cheio de si. Qual não foi seu espanto, quando, ao voltar, já sem as relíquias no lombo, em vez de gestos reverentes recebeu pedradas!

Finalizando, os títulos em si nada são. Deixemos que cumpram a sua tarefa de designar funções, de distinguir carreiras e de credenciar habilitações formais, estabelecendo certa norma de relações e de serviços na igreja.


[1] Andrew Bowling in R. Laird Harris, Gleason L. Archer, Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 654.

[2] Holladay Hebrew Lexicon in BIBLEWORKS 7.0. Minha tradução.

[3] Odayr Olivetti, Consultório Bíblico, (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), 49-52

3 comentários:

Dr. Valdinar Monteiro de Souza disse...

Concordo plenamente, Rev. Alan. E como dá gosto ler o Consultório Bíblico e beber da sabedoria que vem do alto, dada por Deus ao Rev. Odayr Olivetti e todos aqueles que, humildemente, a buscam!

O Rev. Odayr Olivetti, homem de cultura invulgar, com seu excelente magistério, tem sido um instrumento de Deus para abençoar o seu povo.

CrerParaVer disse...

Obrigado Rev. Alan pelo esclarecimento. Deus abençoe o teu ministério e o desejo de estar firmado na Verdade. Gostei do blog e já estou seguindo. Também escrevo mensagens todos os dias em meu blog.
Daniel Deusdete, estudante no Seminário Presbiteriano de Brasília - SPB.

Alan Rennê disse...

Daniel,
Valeu pela visita e pelo comentário.

Que o Senhor te abençoe em teus estudos! Visitarei o teu blog, com certeza!

Um enorme abraço!

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