terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

CONSULTA SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO

Um amigo e irmão em Cristo me enviou o seguinte questionamento:

“Vou ser direto, mas você pode ser longo, se tiver tempo. Sabendo que apenas Adão e Eva tiveram LIVRE-ARBÍTRIO (capacidade de escolher, por si mesmo, entre fazer o bem ou o mal) e, devido ao pecado, temos hoje o que chamamos de LIVRE-AGÊNCIA (capacidade de decisão que não influi em nossa salvação). Teremos na GLÓRIA o LIVRE-ARBÍTRIO novamente? Por favor, mande uma resposta com referências bíblicas”.

Abordarei a questão a partir do seguinte esquema: 1) Definições; 2) O Livre-Arbítrio no Éden; e 3) Livre-Arbítrio na consumação.
I - DEFINIÇÕES
Este é um assunto extremamente delicado. Isso se dá, principalmente, pelos usos distintos que arminianos e calvinistas fazem do termo “livre-arbítrio”. É necessário compreender que, “a expressão ‘livre-arbítrio’ não se encontra na Bíblia, e o conceito popular que se tem dele também não”.[1] Nesse termo, os conceitos de liberdade e vontade estão envolvidos. No caso, é a afirmação de que a vontade é livre. Quando os arminianos usam o termo “liberdade”, eles estão dizendo que a vontade é livre e independente de uma causa determinadora prévia. Os calvinistas falam em liberdade, mas não querem dizer que os atos da vontade sejam desprovidos de uma causa determinadora ou que sejam frutos do acaso. O mesmo se dá com o termo “vontade” ou “arbítrio”. Charles Hodge pontua que, “a palavra vontade em si é um daqueles termos ambíguos”.[2] Quando os arminianos falam em vontade, eles se referem a um poder independente e autônomo pelo qual podemos realizar escolhas. Já os calvinistas, ao falarem da vontade, referem-se simplesmente à função de escolher ou desejar algo, “não um poder independente da anatomia da alma humana”.[3]
Gostaria de fazer duas observações: Primeira, a definição de livre-arbítrio apresentada não está incorreta, ou seja, trata-se “do poder inerente de escolha com a mesma facilidade entre alternativas”[4], no caso, entre o bem e o mal. Nossa Confissão de Fé de Westminster assim se expressa a respeito do livre-arbítrio: “O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder”.[5] Porém, ela ainda deixa algumas verdades pontuais descobertas. Por exemplo, ela acaba pressupondo um estado de neutralidade moral por parte do ente que realiza a escolha. E nós sabemos que não havia no homem neutralidade moral por ocasião da sua criação: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1.31a). Note, que aqui a criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus já tinha sido realizada. Assim sendo, a natureza humana era boa, santa e etc. Conclui-se, portanto, que Adão não estava imbuído de neutralidade moral. Com isso em mente, a melhor definição de livre-arbítrio que encontro é a seguinte: É a capacidade de realizar escolhas contrárias à inclinação moral do indivíduo. No caso de Adão, que possuía uma natureza santa e uma inclinação para o bem, o livre-arbítrio consistiria na capacidade dele escolher aquilo que era diametralmente oposto à sua natureza santa e boa: o mal.
A segunda observação diz respeito ao conceito de livre-agência. Esse conceito aponta para o homem enquanto um agente livre e responsável por suas ações e escolhas. O Dr. Héber Carlos de Campos define “livre-agência” como segue: “a capacidade que todos os seres racionais têm de agir espontaneamente, sem serem coagidos de fora, a caminharem para qualquer lado, fazendo o que querem e o que lhes agrada, sendo, contudo, levados a fazer aquilo que combina com a natureza deles”.[6] Em outras palavras, a livre-agência é a capacidade que os seres racionais possuem de agirem de acordo com as inclinações dominantes das almas deles. No caso de Adão e Eva e de todos os seres humanos após a Queda, está correto em se afirmar que possuem livre-agência. A natureza humana se tornou corrompida, totalmente depravada, completamente inclinada para o mal: “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gênesis 6.5). A livre-agência abrange o querer, o gostar e a predileção dos seres racionais, sempre de acordo com as inclinações dominantes da alma humana pós-queda. Isso significa que o querer do homem é mau, seu gosto é por aquilo que é mau, sua predileção está na corrupção, em virtude de ser continuamente má toda a inclinação da sua alma.
E quanto ao convertido? Teria ele o livre-arbítrio restaurado, uma vez que ele foi salvo e capacitado a desejar o bem? Não, de forma nenhuma! O convertido possui apenas livre-agência. Ele possui duas naturezas. A nova foi implantada pela ação do Espírito Santo ao aplicar nele os benefícios do sacrifício redentivo de Jesus. “O convertido não tem livre-arbítrio porque age segundo a sua natureza. Quando faz o bem, age segundo o Espírito que está nele; quando faz o mal, age segundo a carne”.[7] Paulo afirma em Gálatas 5.16: “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne”.
II – O LIVRE-ARBÍTRIO DOS NOSSOS PRIMEIROS PAIS
A grande questão, para mim, está na pressuposição de que Adão e Eva possuíam o livre-arbítrio, como “a capacidade de fazer coisas contrárias à sua inclinação moral”.[8] Tal tem sido a posição da maioria dos teólogos reformados. Alguns questionamentos surgem, como por exemplo: Por mais que Adão e Eva possuíssem essa capacidade, o que os levaria a escolherem o mal, se a inclinação dominante de suas almas era para o bem? Como alguém santo, desconhecedor do mal, escolheria o mal, se dentro de si sua inclinação era santa? Quando colocada sob a óptica da absoluta soberania de Deus, tenho dificuldades em admitir que nossos primeiros pais possuíam livre-arbítrio. Concordo plenamente com Vincent Cheung, quando ele afirma o seguinte:

A liberdade é relativa – você é livre de algo. Dizemos que o homem não possui livre-arbítrio porque ao discutir a soberania divina e a responsabilidade humana, lidamos com a relação metafísica entre Deus e o homem. De forma mais específica, a questão é de que modo e qual a extensão do controle divino exercido sobre os pensamentos e as ações dos homens. Dessa forma, nesse contexto, quando perguntamos se o homem dispõe de livre-arbítrio, perguntamos se o homem é livre de Deus ou do controle de Deus em qualquer sentido. pelo fato de o ensino bíblico ser que Deus exerce controle constante e absoluto sobre todos os pensamentos e ações dos homens, a conclusão necessária é que o ser humano não possui livre-arbítrio. Sua liberdade é zero em relação a Deus.[9]

É inadmissível a ideia de que Adão desfrutasse de algum grau de liberdade em relação a Deus. De fato, as faculdades de sua alma agiram para que ele pecasse contra Deus. Sendo santo, ele escolheu tomar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. No entanto, essa liberdade não foi exercida de forma autônoma, livre de Deus ou do seu controle. Concordo com a bombástica declaração de Cheung:

Também, os calvinistas frequentemente afirmam que Adão foi livre antes da Queda. Mas novamente, eu sempre falo de liberdade com relação à Deus, e dessa perspectiva, eu diria que Adão não teve nenhuma liberdade, seja qual for, nem mesmo antes da Queda. Ser “livre” para pecar é irrelevante. A questão é se Adão era livre de Deus para escolher permanecer no pecado – ele não era. Em adição, eu não diria que Deus permitiu Adão cair, mas que Deus causou essa queda. Muitos calvinistas também discordariam comigo nisso.[10]

É interessante observar que, nem mesmo Deus possui livre-arbítrio, visto que é impossível que Ele escolha fazer algo contrário à sua inclinação moral. Pergunto: Por que Adão teria? Se afirmarmos que Adão possuía livre-arbítrio, que seja entendido como liberdade em relação a outros seres e coisas que não Deus. Em Efésios 1.11, o apóstolo Paulo, falando sobre a predestinação, afirma que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. Registre-se que o verbo traduzido como “faz” é o verbo energeo, de onde vêm as palavras “energizar” e “energia”, que por sua vez é uma propriedade positiva. O ponto, é que Deus energiza todos os acontecimentos do cosmos criado, incluindo o episódio edênico. Em Atos dos Apóstolos encontramos o mesmo conceito, quando Paulo, fazendo uso da letra de uma canção do grego Arato em homenagem a Zeus, assevera acerca do verdadeiro Deus: “pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (17.28). Não existe nenhum movimento à parte de Deus. Nem mesmo Adão possuiu tal prerrogativa. Afirmar o contrário seria ser incoerente com a doutrina da absoluta soberania de Deus! A forma como Mc Gregor Wright coloca a questão é interessante:

Como pode uma vontade puramente espontânea (“automovida”) começar uma ação? Se a vontade é “neutra” e não predeterminada para agir de um modo ou de outro, o que faz com que ela aja? Se ela parte do neutro, como ela pode sair desse centro morto? Se é dito que a vontade é “induzida” ou “levada” ou “influenciada” para agir, devemos insistir que essas são meramente palavras para diferentes tipos de causação.[11]

O filósofo reformado e pressuposicionalista Gordon Clark cita alguns exemplos de passagens bíblicas que mostram, de maneira inequívoca, que Deus exerce controle sobre a vontade dos seres humanos e predestina suas escolhas[12]: Êxodo 34.24; 2 Samuel 17.14; 2 Crônicas 10.15 e Filipenses 2.12,13.
Muitos teólogos se sentem desconfortáveis com isso, pois veem como algo incompatível com a sua natureza santa, o fato de Deus decretar a escolha de Adão e Eva. Nesse ponto, apenas confessamos a doutrina da Incompreensiblidade de Deus. Não compreendemos as razões últimas dos decretos divinos. Não obstante, não podemos negar sua onipotência e soberania sobre todos os eventos do cosmos. Negar a soberania divina é abraçar a ideia de Platão, que negava que Deus[13] era a causa primeira de todas as coisas. Eis suas palavras:

Deus, uma vez que é bom, não poderia ser a causa de tudo, como diz a maioria das pessoas, mas causa apenas de um pequeno número das coisas que acontecem aos homens, e sem culpa do maior número delas. Com efeito, os nossos bens são menos do que os males, e, se a causa dos bens a ninguém mais se deve atribuir, dos males têm de se procurar outros motivos, mas não o deus.[14]

Temos aqui uma negação clara de Deus como a causa primeira de todas as coisas! Deus é soberano! Como coloca Gordon Clark, “o que quer que Ele faça é justo, por essa mesma razão, porque Ele o fez”.[15]
Para encerrar minhas considerações a respeito do suposto livre-arbítrio de Adão e Eva, gostaria de enfatizar que em nenhum lugar a Bíblia o afirma. Ele apenas é pressuposto, mas não é provado. Isso se dá a partir de Gênesis 2.16,17, quando Deus ordena ao homem: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Afirma-se que, se Deus deu essa ordem, é porque Adão tinha a capacidade de fazer o contrário. Acontece, que não existe na passagem nenhum indicativo de que Adão estivesse imbuído de tal capacidade. O propósito da ordem dada pelo Senhor a Adão era torná-lo responsável pela escolha decretada na eternidade. O fato de Deus dar essa ordem não implica dizer que Adão era capaz de contrariá-la. Implica dizer que, ele era responsável diante de Deus. Tal entendimento não se coaduna com a teoria do livre-arbítrio de Adão, pois “a teoria do livre-arbítrio destrói a responsabilidade mais do que a apoia”[16], ou, como observa Ronald Nash: “Comportamento errático, impulsivo e ao acaso não é livre nem responsável”.[17]
III – LIVRE-ARBÍTRIO NA GLÓRIA?
O questionamento acerca da “restauração” do Livre-Arbítrio na glória está permeado pela pressuposição de que ele existiu no Éden. Nesse ponto, não divirjo dos demais estudiosos reformados. Todos são unânimes em afirmar que por ocasião da consumação de todas as coisas, quando Jesus retornar, o homem será plenamente glorificado, ou seja, todo traço de pecado e de imperfeição será eliminado tanto da sua vida quanto da criação.
Todas as faculdades constituintes do ser humano (intelecto, vontade, afeições) serão glorificadas. Por causa do pecado, todo o ser do homem “está contaminado pelo pecado, inclusive sua vontade, que agora é escrava deste maldito vício”.[18] Na vida por vir a nossa liberdade será plenamente aperfeiçoada. O Pai da Igreja, Aurélio Agostinho, bispo de Hipona, afirmou que estaremos no estado non posse peccare, que significa “não posso pecar”. Em razão da nossa glorificação final, nossa vontade não se inclinará para aquilo que é mau e corrupto. Ela se inclinará inteira e absolutamente para aquilo que é bom, puro, santo e reto. O apóstolo Paulo expressou sua esperança, quando delclarou: “Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8.20,21). As afirmações do apóstolo João, em Apocalipse reforçam esse pensamento: “Nela, nunca jamais penetrará coisa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira, mas somente os inscritos no livro da vida do Cordeiro” (21.27); “Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele. Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre ele, e reinarão pelos séculos dos séculos” (22.3-5). Observe outras passagens, como: Efésios 4.13; Judas 24; 1 João 3.2.
Com isso em mente, afirmo que, na glória, “seremos enfim totalmente livres”[19], mas continuaremos a possuir apenas a livre-agência. Agiremos consoante nossa inclinação dominante. E, uma vez que nossa inclinação será completa e totalmente para o bem, faremos apenas o bem. Esse é o ensinamento da afirmação da Confissão de Fé de Westminster: “É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só”.[20] Concluo com a essência do comentário de Archibald Alexander Hodge sobre esse trecho da Confissão:

4. Quanto ao estado dos homens glorificados no céu, nossa Confissão ensina que continuam, como antes, agentes livres; contudo, os restos de suas velhas tendências morais corruptas, sendo extirpadas para sempre, e as graciosas disposições implantadas na regeneração, sendo aperfeiçoadas, e o homem todo, sendo conduzido à medida da estatura do varão perfeito, à semelhança da humanidade glorificada de Cristo, permanecem para sempre perfeitamente livres e imutavelmente dispostos à perfeita santidade. Adão era santo e instável. Os homens não regenerados são impuros e estáveis; isto é, são permanentes na impureza. Os homens regenerados possuem duas tendências morais opostas, digladiando-se pelo domínio em seus corações. São lançados entre elas, contudo a tendência graciosamente implantada gradualmente por fim prevalece perfeitamente. Os homens glorificados são santos e estáveis. São todos livres e, portanto, responsáveis.[21]

A Deus seja a glória pelos séculos dos séculos!

[1] Leandro Antonio de Lima, Razão da Esperança: Teologia para hoje, (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 97.
[2] Charles Hodge, Teologia Sistemática, (São Paulo: Hagnos, 2001), 699.
[3] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna, (São Paulo: Cultura Cristã, 1998), 48.
[4] Ibid, 47.
[5] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, IX, 2, (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), 87.
[6] Héber Carlos de Campos, Curso de Antropologia Bíblica, 22. Material não publicado. Apostila da disciplina de Antropologia Bíblica do Curso de Teologia, Validação, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
[7] Leandro Antonio de Lima, Razão da Esperança: Teologia para hoje, 99.
[8] Héber Carlos de Campos, Anotações das aulas da disciplina de Antropologia Bíblica.
[9] Vincent Cheung, Ofertas Voluntárias e Livre-Arbítrio, 2. Artigo extraído do site: http://www.monergismo.com.
[10] Vincent Cheung, O Autor do Pecado, (2005), 17,18. Extraído do site: http://www.monergismo.com.
[11] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna, 53.
[12] Gordon H. Clark, What Do Presbyterians Believe?, (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 1981), 108.
[13] Deve ser notado que na discussão atribuída por Platão a Sócrates e Glauco, o termo “Deus” faz referência a Zeus. Apesar disso, a ideia elencada aqui demonstra o pensamento de muitos a respeito da soberania de Deus.
[14] Platão, A República, Livro II, (São Paulo: Martin Claret, 2009), 68.
[15] Gordon H. Clark, Determinismo e Responsabilidade, 9. Artigo extraído do site: http://www.monergismo.com.
[16] R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna, 52.
[17] Ronald Nash, Questões Últimas: uma introdução à Filosofia, (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), 363.
[18] Franklin Ferreira e Alan Myatt, Teologia Sistemática, (São Paulo: Vida Nova, 2007), 459.
[19] Anthony Hoekema, Criados à imagem de Deus, (São Paulo: Cultura Cristã, 1999), 268.
[20] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, IX, 2, 91.
[21] A. A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge, (São Paulo: Os Puritanos, 1999), 227.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

E O REVERENDO? VAI BEM?

Por REVERENDO Alan Rennê

Tenho visto algumas pessoas que possuem verdadeira ojeriza ao título de “reverendo” atribuído aos pastores de um modo geral, e, especificamente, da minha denominação, a Igreja Presbiteriana do Brasil. Inclusive, alguns amigos pessoais são veementemente contra o uso desse título. De forma sintética, o argumento utilizado gira em torno do Salmo 111.9: “Enviou ao seu povo a redenção; estabeleceu para sempre a sua aliança; santo e tremendo é o seu nome”. A palavra “tremendo” é a palavra hebraica yare’, que significa, basicamente, “temer, ter medo, reverenciar”.[1] Quando usado no niphal, como na passagem citada, traz a idéia de “ser temido, reverenciado, ser honrado”.[2] A versão King James traduz o Salmo 111.9 da seguinte maneira: “He sent redemption unto his people: he hath commanded his covenant for ever: holy and reverend is his name”.

Então, o argumento usado é que “reverendo” é um título aplicado apenas a Deus, portanto, não devemos atribuí-los a quem quer que seja. No caso, pastores não devem ser chamados de “reverendos” jamais! Usá-lo para pastores é fazer um uso antibíblico!

Nunca concordei com esse posicionamento. Diante disso, gostaria de citar a análise de um erudito da minha denominação, o Rev. Odayr Olivetti. A citação é longa, porém, muito valiosa[3]:

SOBRE TÍTULOS DOS PASTORES

Pergunta nº 29 – “Por que os pastores têm o título de ‘reverendo’, sendo que tal título não é bíblico?”

Resposta: vamos por partes:

1. Não são somente os pastores presbiterianos que usam esse título. Desde muitos séculos atrás, esse título foi adotado para designar os clérigos. Encontramo-lo na Igreja Católica Romana, na Igreja da Inglaterra (Anglicana), nas igrejas episcopais, metodistas, etc. Na Inglaterra, por exemplo, somente alguns dissidentes, ou seja, somente algumas igrejas livres, separadas da igreja oficial do país, é que rejeitam o uso desse título. Assim é que, naquele país, mesmo entre os batistas há grupos cujos pastores usam o título de reverendo.

2. Pensemos um pouco em alguns títulos explicitamente bíblicos. Vamos nos restringir aos seguinte: anjo, pastor, mestre, guia (Ap 1.20; 2.1; Ef 4.11; Hb 13.7,17).

a) Quanto sabemos, “anjo” não foi adotado por igreja alguma, por uma série de razões imagináveis, entre as quais esta: o desenvolvimento errôneo da representação dos anjos na crença e na prática do romanismo, desfigurando os vigorosos mensageiros do Senhor.

b) “Pastor”, título muito simpático e que expressa as funções básicas dos ministros e de outros obreiros – alimentar, guiar, proteger e disciplinar o rebanho. É adotado por algumas denominações, e não deixa de ser utilizado de maneira menos formal e mais coloquial pelos presbiterianos e outros.

Contudo, analisando-se bem a questão relacionada com esse título, notam-se alguns motivos de objeção ao seu uso como título específico dos ministros da Palavra. Vejamos:

1º - Sl 23.1 – É utilizado com referência à Divindade: “O Senhor é o meu pastor”. Em Jo 10.11,16; Hb 13.20; 1 Pe 2.25, etc., Jesus Cristo é chamado pastor.

Não causa espécie dar a uns pobres mortais, “vasos de barro”, na expressão de Paulo, um título que é dado a Deus Pai e a Deus Filho?

2º No caso da descrição das atividades na igreja e da igreja, “pastor” é palavra mais descritiva de funções, não título peculiar a uma dada categoria de pessoas. Note-se que no Antigo Testamento Deus se refere a um pagão como Seu pastor (Is 44.28). Em At 20.28 e em 1 Pe 5.1,2, se vê que não são somente os ministros da Palavra que exercem funções pastorais.

c) “Mestre”. Nas várias denominações evangélicas há pastores que são chamados “mestres”, ou porque fizeram mestrado em algumas disciplina acadêmico-teológica, ou porque são professores em seminários e institutos bíblicos, ou porque obtiveram o grau de doutor em algum curso teológico, sendo que, lexicamente, mestre, professor e doutor são sinônimos. – Mesmo denominações que repudiam o título de “reverendo” para os seus ministros, não se acanham de lhes permitir ou lhes dar o título de “mestre” ou “doutor”. Entretanto, Jesus Cristo vetou o uso desse título, dizendo: “Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos” (Mt 23.8).

d) “Guia”. Expressando pouco mais pouco menos o que a palavra “pastor” expressa, sendo, porém, palavra menos rica do que “pastor”, o título “guia” sofre a mesma objeção que atinge a palavra “mestre”, pois Jesus ordenou: “Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo” (Mt 23.10).

3. As palavras ligeiramente antes consideradas são significativas e envolvem habilitação, autoridade, poder. Sem essas qualificações, como pode o pastor pastorear, o mestre ensinar e o guia guiar?

Ora, esses títulos, dados e aceitos no seio da igreja cristã, requerem atitude respeitosa e disposição para a obediência por parte dos membros da igreja. Os que não se dispõem a se colocar na posição de cordeiros e ovelhas, não respeitarão o pastor e não obedecerão à sua voz; os que não se dispõem a se colocar na posição de discípulos ou alunos, não respeitarão o mestre ou doutor, e não seguirão as suas instruções. Os que não se dispõem a se colocar na posição de pessoas guiadas, conduzidas, dirigidas, não respeitarão o guia e não seguirão as suas indicações e a sua direção.

Observe-se como as ideias de respeito e de obediência estão presentes em qualquer desses títulos, ou de outros semelhantes, que se queira dar ao ministro da Palavra.

Ora, o significado primário da palavra “reverendo” é este: “digno de ser reverenciado ou respeitado” (Caldas Aulete).

Além das considerações feitas até aqui, os cristãos fiéis e os homens em geral devem ser tratados com honra (Fp 2.29; 1 Pe 2.17), o que por certo não exclui os ministros desse tratamento honroso. Mas, de modo especial, as referências e descrições bíblicas favorecem a ideia de que os ministros de Deus devem ser respeitáveis (responsabilidade deles) e respeitados (responsabilidade dos outros). Ver, por exemplo, Êx 3.10-14; Nm 12.1-10; 14.1-12; 16.1-5,28-33; Mt 10.14,40-42; Jo 12.26; 1 Tm 5.17; Hb 13.7,17.

Destaques:

a) 1 Tm 5.17 – Os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino (presbíteros docentes; responsáveis por fazer o que está registrado nessa parte da passagem), são considerados merecedores de dobrada honra, ou de dobrados honorários (responsabilidade dos membros e dos demais oficiais da igreja).

b) Hb 13.7,17 – “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e considerando atentamente o fim da sua vida” (responsabilidade dos guias), “imitai a fé que tiveram” (responsabilidade dos outros crentes). “Obedecei aos vossos guias, e sede submissos para com eles” (responsabilidade dos membros e oficiais da igreja); “pois velam por vossas almas, como quem deve prestar contas” (responsabilidade dos ministros de Deus).

“Imitai a fé” e “Obedecei... sede submissos” exigem humildade, respeito, consideração.

Portanto, não é antibíblico dar o título de reverendo aos pastores.

c) Mesmo porque, os ministros do Evangelho sabem que toda e qualquer honra que recebam pertence a Deus e a Deus a transferem, no espírito de passagens como Sl 115.1; 1 Co 1.10,31 e Rm 11.36.

O ministro que se pavoneia por causa dos privilégios do ministério, como se ele fosse o tal, está abusando, e lembra o burro da fábula: Transportou no lombo, pelas ruas da cidade, relíquias que faziam os transeuntes pararem e se dobrarem respeitosamente. O burro ficou cheio de si. Qual não foi seu espanto, quando, ao voltar, já sem as relíquias no lombo, em vez de gestos reverentes recebeu pedradas!

Finalizando, os títulos em si nada são. Deixemos que cumpram a sua tarefa de designar funções, de distinguir carreiras e de credenciar habilitações formais, estabelecendo certa norma de relações e de serviços na igreja.


[1] Andrew Bowling in R. Laird Harris, Gleason L. Archer, Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 654.

[2] Holladay Hebrew Lexicon in BIBLEWORKS 7.0. Minha tradução.

[3] Odayr Olivetti, Consultório Bíblico, (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), 49-52

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

CARTA ENVIADA À REVISTA ULTIMATO EM REFERÊNCIA AO TEXTO “DEUS – PAI OU MÃE?”

Por Franklin Ferreira

Conquanto a revista Ultimato tenha um lugar de importância entre os periódicos evangélicos publicados no Brasil, alguns de seus autores têm difundido repetidas vezes opiniões que vão além do que nos é revelado nas Escrituras e em oposição à tradição evangélica. Em sua edição 318, de maio-junho de 2009, esta revista publicou o texto "Deus – Pai ou Mãe?", escrito por Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM (Jovens com Uma Missão). Em 9 de junho de 2009 escrevi uma carta para a revista sobre este texto. Somente em 26 de agosto de 2009 recebi um tipo de resposta-padrão da editora: "Recebemos seu comentário, ele é sempre bem-vindo. Por uma questão de espaço nem toda correspondência que recebemos é publicada. Suas críticas, sugestões e/ou observações serão encaminhadas ao diretor-redator e articulistas para que eles tomem conhecimento".

Abaixo, posto minha correspondência para a revista, ligeiramente revisada e editada.


Prezados irmãos,

Preciso confessar que já há algum tempo ando desencantado com a revista Ultimato. Quando servi na equipe pastoral da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, entre 2000-2007, minha esposa cuidou da livraria daquela comunidade. Fazíamos questão de promover a revista Ultimato, inclusive por meio de assinaturas, mesmo discordando de um ou outro texto - especialmente os de Ricardo Gondim e, algumas vezes, os de Robinson Cavalcanti e Paul Freston. Aliás, antes disso até, minha esposa já divulgava a Ultimato através de uma assinatura coletiva que mantinha com seus colegas de trabalho.

Hoje sirvo na equipe pastoral de uma igreja batista em São Paulo, e não tenho mais como indicar a revista como referência para os membros destas igrejas. O último escrito da Bráulia é um exemplo do que quero dizer. O texto intitulado "Deus - Pai ou Mãe?" é generalista, grosseiro e pagão.

Por exemplo, ela escreve a partir de sua experiência pessoal: "Minha experiência não é diferente do que é vivenciado pela maioria da população brasileira e do mundo. Mãe pra nós é igual amor caloroso, quente, cheiroso, vivo. Pai já é mais complicado. Pra muitos, infelizmente, pai significa abuso, violência, abandono, dor". Bom, me permita compartilhar minha experiência. Eu sou pai de uma filha; ela tem oito anos. Não só a compreensão que tenho do que a Bíblia ensina sobre Deus o Pai, mas o que ela ensina sobre a paternidade me ajuda a agir para ser um pai de verdade para ela; duvido que a minha filha (inteligente e perceptiva que só) concorde com o que a Bráulia escreveu. E minha experiência como filho de igual forma não me permite concordar. Aliás, preciso notar que a autora consegue saltar de sua experiência pessoal para uma generalização infundada. Se ela supõe falar em nome de "muitos", ela tem que provar seu argumento. Ela precisa mostrar quem são a "maioria da população brasileira e do mundo" que concorda com ela. Ou, se não, que ela restrinja-se a falar somente a partir de sua experiência pessoal, e pare de se esconder atrás de supostos "muitos". Por outro lado, muito irônica a reportagem do Fantástico no domingo retrasado (24 de maio de 2009); uma mãe oferecendo sua filha para um "programa sexual" por... quatro garrafas de cerveja. E, depois, querendo vender sua filha por míseros R$ 500,00. Puxa! Isto é que é "amor caloroso, quente, cheiroso, vivo"! Segundo o Jornal Nacional, essa mãe foi presa na terça-feira passada (2 de junho de 2009). Mas esse é apenas um dos milhares de exemplos negativos em nosso país, em que há fartos exemplos de mães abandonando seus filhos ainda recém-nascidos. Menos generalidades superficiais, por favor. Em vez de fazer uma caricatura da paternidade, contrapondo-a superficialmente à suposta "perfeição" da maternidade (como se o pecado não desfigurasse igualmente maternidade e paternidade), ela faria muito melhor se mostrasse o que vem a ser a verdadeira paternidade e maternidade à luz da Bíblia. Não será ridicularizando ou rebaixando a paternidade que ela ajudará os homens a serem homens de verdade e verdadeiros maridos e pais.
Mais adiante, Bráulia escreveu: "Na América Latina, o continente onde o pai veio de longe e ao nos estuprar nos concebeu bastardos, vivemos no vazio da imagem masculina do amor. O pai se foi, e dói em nossa alma órfã". Presumo que ela fale aí dos estrangeiros que vieram prá cá, para povoar e trabalhar nesta terra, em meio a grande sacrifício, fugindo da fome e da guerra no Velho Mundo e no Japão. Como muitos brasileiros, meu pai era português. O único membro da família que se converteu ao evangelho. Literalmente, morreu de tanto trabalhar (e ainda estudava num seminário teológico à noite, pois almejava servir no ministério pastoral) para dar uma vida digna para sua família. Exemplo de retidão e paixão pelo evangelho. Mais uma vez, Bráulia só pode falar por ela. Generalizações são toscas.
No fim, o pior. Ela terminou o texto orando com um ímpeto típico daqueles influenciados pela teologia feminista: "Pai-Mãe nosso celestial, acima do gênero e falhos modelos humanos, tenha piedade de nós, nos ajude a conhecer o verdadeiro amor..." Tomo a liberdade de citar, abaixo, o que escrevi com meu colega Alan Myatt na Teologia Sistemática que Edições Vida Nova publicou em 2007 (páginas 248-249). Respondemos ao uso indevido de imagens femininas para caracterizar Deus – prática bastante comum entre os pagãos do Antigo Testamento, que atribuíam sexualidade à divindade, como Baal e Astarote. Ao ir além da linguagem bíblica inspirada, que, no que se refere a Deus, é analógica – como ensinou João Calvino há muito tempo atrás, é a linguagem da acomodação da misericórdia divina –, Bráulia se colocou ao lado dos que abraçaram a teologia liberal e das feministas pagãs de nossa era. Se ela não se limitar agora à linguagem bíblica, não será um suposto "bom senso" que irá impedi-la de, em pouco tempo, tratar a deidade por... "Deus/a" ou, pior, "deusa".


Lamento muito que a Ultimato promova este tipo de texto em suas páginas. Como disse, não foi o primeiro texto publicado na revista a gerar forte desconforto em mim. Por isto, reitero: por amor aos membros da igreja em que sirvo, não posso mais promover de boa fé a revista entre eles. Textos como este, longe de edificar, semeiam a contenda, a confusão e, no fim, uma representação pagã do Deus da Bíblia – majestoso, transcendente, cheio de glória, e que oferece o seu único Filho, em quem ele tem todo o prazer, para morrer por pecadores. Não preciso ir além da linguagem da Bíblia para, diante da revelação e beleza do evangelho, afirmar com as Escrituras que Deus Pai é amor, e sabemos disto, pois ele ofereceu seu único Filho como propiciação pelos nossos pecados, e este amor experimentamos em toda a sua exuberância por o Espírito Santo ter sido derramado sobre nós.

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Ao responder às feministas, notamos que tanto o Antigo Testamento quanto o Novo Testamento usam o gênero masculino quando se referem a Deus. Uma dessas analogias é a analogia paterna.1 Isto seria um indício de que Deus é do gênero masculino? Alister McGrath escreve:


Falar em Deus como pai é dizer que o papel do pai no antigo Israel permite compreendermos melhor a natureza de Deus. Isso não significa dizer que Deus seja do gênero masculino. Nem a sexualidade masculina, nem a sexualidade feminina devem ser atribuídas a Deus. Pois a sexualidade é um atributo que pertence à ordem da criação, sendo inadmissível aceitar uma correspondência direta entre esse tipo de polaridade (homem/mulher), conforme se observa na criação, e o Deus criador.
Na verdade, o Antigo Testamento evita atribuir funções sexuais a Deus, devido à ocorrência de fortes traços pagãos nesses tipos de associações. Os cultos à fertilidade dos cananeus davam ênfase às funções sexuais tanto dos deuses quanto das deusas; portanto, o Antigo Testamento recusa-se a endossar a idéia de que o gênero ou a sexualidade de Deus seja uma questão importante.


Então, para McGrath, qualquer tentativa de atribuir sexualidade a Deus representa uma volta ao paganismo. Ele continua: "Não há a menor necessidade de trazer de volta as idéias pagãs dos deuses e deusas para resgatar a noção de que Deus não é nem masculino nem feminino; essas idéias já estão potencialmente presentes, se não forem negligenciadas, na teologia cristã".2


Na verdade, existem imagens maternais de Deus na Escritura. Deus é revelado como uma mãe pássaro (Rt 2.12; Sl 17.8; Mt. 23.37), uma mãe ursa que luta para proteger seus ursinhos (Os 13.8) e como uma mãe que consola seus filhos (Is 66.13). A presença de imagens paternais e maternais é evidência que apóia a conclusão de McGrath. Deus transcende as categorias do gênero humano. Não obstante, em lugar nenhum a Bíblia chama Deus de "mãe". Portanto o título "mãe" não deve ser próprio para se falar da pessoa de Deus. Podemos reconhecer a plenitude da riqueza das imagens bíblicas de Deus, sem ir além da linguagem que a própria Bíblia emprega ao descrevê-lo.


1 - Cf. o capítulo 2, onde analisamos a natureza analógica da linguagem teológica.
2 - Teologia sistemática, histórica e filosófica, p. 315-316. Vale a pena ler toda a argumentação de McGrath nesta obra, com especial atenção para a citação final, da mística medieval Juliana de Norwich.

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