quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A GENEALOGIA DE JESUS É IMENSURAVELMENTE MAIS DO QUE APENAS UMA LISTA DE NOMES ANTIGOS

John MacArthur, Jr.

“Judá gerou de Tamar a Perez e a Zera; Perez gerou a Esrom; Esrom, a Arão; Arão gerou a Aminadabe; Aminadabe, a Naassom; Naassom, a Salmom; Salmom gerou de Raabe a Boaz; este, de Rute, gerou a Obede; e Obede, a Jessé; Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mateus 1.3-6).

A genealogia de Jesus nos mostra a obra da graça de Deus em Sua escolha de quatro ex-rebeldes, quatro mulheres (as mulheres só são listadas até à menção de Maria), através das quais o Messias e Rei viria. Essas mulheres são ilustrações excepcionais da graça de Deus e, por esse motivo, estão incluídas na genealogia, contrariando a regra de que apenas homens sejam mencionados.

A primeira proscrita foi Tamar, a nora cananéia de Judá. Deus tirara a vida do seu marido, Er, e de seu irmão mais novo, Onã, por causa da sua maldade. Então, Judá prometeu à jovem viúva e sem filhos, que o seu terceiro filho, Selá, se tornaria seu marido e lhe daria filhos em nome de seu irmão, quando ele crescesse. Depois que Judá não conseguiu cumprir essa promessa, Tamar se disfarçou de prostitua e enganado, Judá teve relações sexuais com ela. Desta união ilícita nasceram dois filhso gêmeos, Perez e Zera. A história sórdida é encontrada em Gênesis 38. Como podemos ver na genealogia, Tamar, Judá e Perez estão juntos na linha messiânica. Apesar da prostituição e incesto, a graça de Deus veio sobre três pessoas que não mereciam nada, incluindo uma prostituta gentia desesperada e enganosa.

A segunda proscrita também era uma mulher gentia. Ela também era culpada de prostituição. No entanto, ao contrário de Tamar, para esta a prostituição era uma profissão. Raabe, uma moradora de Jericó, protegeu dois homens israelitas que Josué tinha enviado para espiar a cidade. Ela mentiu para os mensageiros do rei de Jericó, a fim de salvar os espias, porém, por causa de seu temor e seu ato de bondade para com seu povo, Deus poupou a sua vida e de sua família quando Jericó foi sitiada e destruída (Josué 2.1-21; 6.22-25). A graça de Deus não só poupou sua vida, mas a trouxe para a linhagem messiânica, como esposa de Salmom e mãe do piedoso Boaz, que foi avô do grande Davi.

A terceira proscrita foi Rute, a esposa de Boaz. Como Tamar e Raabe, Rute era gentia. Depois que seu primeiro marido, um israelita, morreu, ela veio para Israel com sua sogra, Noemi. Rute era piedosa, amorosa e uma mulher sensível, que aceitou o Senhor como o seu próprio Deus. Seu povo, os pagãos moabitas, era o produto das relações incestuosas de Ló com suas duas filhas solteiras. A fim de preservar a linhagem da família, porque elas não tinham maridos ou filhos, cada uma embebedou seu pai e fez com que ele tivesse relações sexuais com ela. O filho fruto da união de Ló com sua filha mais velha foi Moabe, pai de um povo que se tornou um dos mais implacáveis inimigos de Israel. Malom, o israelita que se casou com Rute, tinha violado a lei mosaica (Deuteronômio 7.3; cf. 23.3; Esdras 9.2; Neemias 13.23). Muitos comentaristas afirmam que a sua morte precoce, e de seu irmão, foi juízo divino por causa da sua desobediência. Embora fosse uma pagã moabita, sem direito a se casar com um israelita, a graça de Deus não somente trouxe Rute para a família de Israel, mas, mais tarde, através de Boaz, para a linhagem real. Ela se tornou a grande avó de Israel, o rei Davi.

A quarta proscrita foi Bate-Seba. Ela não é identificada na genealogia pelo nome, mas é apenas mencionada como a esposa de Davi e ex-mulher de Urias. Como já mencionado, Davi cometeu adultério com ela, e enviou o seu marido para a frente de batalha para ser morto, e depois a tomou como sua própria esposa. O filho fruto do adultério morreu na infância, mas o próximo filho nascido deles foi Salomão (2 Samuel 11.1-27; 12.14,24), o sucessor do trono de Davi e continuador da linhagem messiânica. Pela graça de Deus, Bate-Seba se tornou esposa de Davi, a mãe de Salomão, e uma ancestral do Messias.

A genealogia de Jesus Cristo é infinitamente mais do que uma lista de nomes antigos. É muito mais do que uma lista de antepassados humanos de Jesus. É um belo testemunho da graça de Deus e do ministério de Seu Filho, Jesus Cristo, o amigo dos pecadores, que não veio chamar os justos, mas pecadores (Mateus 9.13). Se Ele chamou pecadores, pela graça, para serem seus antepassados, devemos ficar admirados quando Ele os chama, pela graça, para serem seus descendentes? O rei apresentado aqui é verdadeiramente o Rei da graça!

FONTE: The MacArthur Commentary.
Tradução livre: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E RELEVÂNCIA DOS SOLAS - 6ª PARTE

V – SOLI DEO GLORIA (SOMENTE A DEUS A GLÓRIA)

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. a ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Romanos 11.33-36). “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31).

O quinto e último “sola” da Reforma Protestante significa literalmente “Somente a Deus a glória”. E por qual razão a glória deve ser dada somente a Deus? Bem, por algumas razões óbvias: pensamos na Escritura? Ela é de Deus, veio a nós pela intermediação de Deus, e permanecerá eternamente para a glória de Deus. A justificação pela fé? Vem de Deus, por meio de Deus, e para a glória de Deus. A graça? A graça, também, tem sua fonte em Deus, vem a nós pela obra de Deus o Filho, e é para a glória de Deus.

Este quinto slogan é como que a síntese dos outros quatro, pois onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, onde Cristo tenha sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre foi por uma mesma razão. Porque nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fazendo o trabalho dele ao nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em entretenimento, a pregação do evangelho em palestra de auto-ajuda, o crer em técnica, o ser bom em sentir-nos bem e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e a Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós.

O que nós temos hoje no evangelicalismo brasileiro é uma religião puramente antropocêntrica. Basta assistir a um desses programas de televisão aos sábados e visitar algumas igrejas que percebemos a celebração da auto-realização, do bem-estar terapêutico, e das virtudes morais. Mas, a pregação do evangelho não é isso. Não é auto-realização, bem-estar terapêutico, nem ainda de virtude moral. A pregação do evangelho é a pregação da reconciliação com Deus. O homem, no seu estado de pecado é inimigo de Deus, portanto, ele precisa ser reconciliado com Deus. A pregação da reconciliação é um fim legítimo em si; é o reconhecimento da glória de Deus na redenção de pecadores e não requer algo maior do que isso para justificar sua importância. Pregar a Escritura é pregar Cristo; pregar Cristo é pregar a cruz; pregar a cruz é pregar a graça; pregar a graça é pregar a justificação; pregar a justificação é atribuir o todo da salvação à glória de Deus e responder a essa Boa Nova em grata obediência por meio de nossa vocação no mundo.

Irmãos, quando estamos centrados em volta de Deus e sua obra salvífica em Cristo, nossos cultos ajustam a nossa visão a outro grau: deixamos de servir como pessoas mundanas para ver-nos como pecadores redimidos cuja vida só pode ter um propósito: “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. Eu fico pensando nos cristãos do passado, nas gerações que nos precederam, em como aquelas pessoas contribuíram positivamente para a nossa cultura, para a democracia, os direitos civis. Penso na época em que alguns dos pensadores, artistas e profissionais, bem como pais e vizinhos piedosos estavam dispostos a morrer por artigos de fé que hoje são considerados como “irrelevantes” e “divisionistas”. Pessoas deram as suas vidas por esses cinco “solas”, e nós não damos sequer o nosso tempo, ponderando sobre a sua validade.

APLICAÇÃO

Irmãos, Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito.

A glória por tudo o que existe pertence somente a Deus: “Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura” (Isaías 42.8). Quem somos nós diante de Deus, para acharmos que podemos reivindicar alguma coisa da parte dele, ou para pensarmos que o culto é para a nossa descontração? Eis a resposta: “Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que se levanta... Todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” (Isaías 40.15, 17).

CONCLUSÃO

Quero finalizar, meus amados irmãos, voltando ao questionamento feito no início: o que nós, jovens do século XXI temos a ver com cinco pequenas frases cunhadas no século XVI? Absolutamente tudo! Carregamos conosco o título de cristãos protestantes, mas infelizmente esquecemos o que é protestar. Dizemos que somos protestantes, mas ultimamente não temos protestado contra nada. Muito pelo contrário, temos sido influenciados pelos falsos evangelhos da nossa cultura secular. O primeiro passo que temos que dar, jovens, é reconhecer que enfraquecemos a igreja pela nossa própria falta de arrependimento sério, tornamo-nos cegos aos pecados em nós mesmos que vemos tão claramente em outras pessoas, e é indesculpável o nosso erro de não falar às pessoas adequadamente sobre a obra salvadora de Deus em Jesus Cristo.

Devemos nos arrepender do nosso mundanismo e colocar Deus no centro de nossas vidas. Precisamos voltar a amar a Bíblia, a olhar firmemente apenas para Jesus Cristo, o Autor e Consumador da nossa fé; devemos reconhecer que não merecemos absolutamente nada de Deus, a não ser a sua justa condenação, mas ao mesmo tempo, devemos ser gratos porque não é assim que Ele tem nos tratado. Ele tem dispensado sobre nós graça sem medida. E como jovens, muitas vezes abordados pela cultura hedonista, que ensina que o jovem deve buscar o prazer acima de qualquer coisa, devemos repudiar esse ponto de vista e buscar o verdadeiro prazer que está em fazer tudo para a glória maior de Deus.

Que Deus nos abençoe!

Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E RELEVÂNCIA DOS SOLAS - 5ª PARTE

IV – SOLA FIDE (SOMENTE A FÉ)

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8, 9). “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5.1).

Este quarto slogan é como que uma consequência do anterior, pois se a salvação toda se deve à graça divina, isso realça melhor ainda o evangelho da livre justificação. Isso quer dizer que os crentes são justificados por Deus pela fé, inteiramente à parte de quaisquer obras que tenham feito ou que possam fazer. Essa doutrina da Justificação por meio de Cristo unicamente pela fé tornou-se a doutrina primordial da Reforma. Ela foi uma reação de Martinho Lutero contra a idéia de que o ser humano pudesse se tornar justo e aceitável aos olhos de Deus por meio das boas obras e das indulgências que eram vendidas na época. Lutero disse que a justificação pela fé é a doutrina pela qual a igreja se mantém de pé ou cai.

E nesse ponto nós precisamos entender qual o problema histórico. A tradução oficial da igreja medieval era a Vulgata Latina. Quando Lutero leu a tradução que o famoso Erasmo de Roterdam fez a partir do grego e percebeu discrepâncias entre a Vulgata e o Novo Testamento Grego. A mais gritante, pelo menos do ponto de vista de Lutero, era a tradução errada da palavra grega “justificar”. O original grego, que significa “declarar justo” estava traduzido pela palavra latina justificare, que quer dizer “fazer justo”. Dessa forma, a justificação foi vista como processo de se tornar ou ser feito justo em vez de um ato declarativo de um tribunal. Isso levava o indivíduo a crer que para ser salvo, ele precisava cooperar com a graça de Deus à medida que era transformado em pessoa justa.

Só que, quando estava estudando Romanos e Gálatas, Lutero percebeu que Deus exige uma justiça perfeita. Ele não exige apenas a disposição de cooperar com a graça. Assim, ele percebeu que a única justiça perfeita é a de Cristo. Então, ele acabou convicto de que as Escrituras ensinavam claramente dois pontos essenciais: Deus não pode aceitar uma justiça imperfeita, e por isso ele imputa (credita) ao crente a “justiça alienígena” de Jesus Cristo, que é perfeita.assim, o crente é simul justus et peccator - “simultaneamente justo e ainda pecador”.

Mas em nossos dias essa doutrina tem sido amplamente esquecida, ignorada, raramente central, e muitas vezes até negada pelos teólogos e pastores evangélicos. De acordo com uma pesquisa feita, 87% dos evangélicos são praticantes católico-romanos medievais quanto a seu conceito de como o indivíduo se relaciona com Deus. Freqüentemente, a ênfase recai sobre a obra de Cristo ou do Espírito Santo dentro do crente para que ele atinja a “vida cristã vitoriosa”, ou sobre passos e princípios para que ele se aproxime de Deus. A ênfase da nossa geração é puramente subjetiva e terapêutica, a ponto de existir uma “Comunidade Evangélica Spa Espiritual”, no sudeste do país. É desesperadora a necessidade de ouvirmos o famoso conselho que Lutero deu ao seu discípulo Melanchthon: “O evangelho se acha inteiramente fora de você!”

Dissemos que é pela doutrina da justificação pela fé que a igreja se mantém de pé ou cai, portanto, a que se deve o atual declínio do evangelicalismo brasileiro? Simplesmente porque landmarks como Justificação, Santificação e Redenção estão captulando diante de conceitos como terapia, bem-estar espiritual, felicidade, vida vitoriosa, entretenimento, e muitas outras coisas. As pessoas que estão fora da igreja não sentem a necessidade de serem justificadas, visto que ofenderam a um Deus que é Santo. Muito pelo contrário, elas sentem a necessidade é de terem seus anseios, e até mesmo suas ambições, atendidas por Deus. Deus não é mais “justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias” (Salmo 7.11), agora ele é o Deus-servo de uma geração corrupta e pervertida, existindo apenas para atender aos desvarios do homem decadente. Em 1993, a revista Newsweek publicou uma matéria sobre uma igreja enorme no estado americano do Arizona que tinha abandonado o discipulado bíblico e a pregação em favor de “uma Escola Dominical com coisas apelativas tipo Steven Spielberg e música genérica Amy Grant nos cultos bem como drama em lugar do sermão”.

APLICAÇÃO
O que podemos dizer sobre o Sola Fide? Precisamos recuperar a doutrina da justificação pela fé em Cristo Jesus. Este não é um assunto popular nos círculos evangélicos porque a justificação não é vista como uma necessidade. E é precisamente porque a justificação não é a “necessidade sentida” do não-crente que nós precisamos pregar a Lei de Deus. E por quê? Porque mesmo as pessoas religiosas que achavam que estavam vencendo sentem o fundo do poço de sua depravação quando clamam com o publicano: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (Lucas 18.13). A necessidade de misericórdia só é sentida depois que a realidade da culpa impressiona. Só então o evangelho pode aliviar.

Pensem, por um instante, meus irmãos, que motivo você para sentir a necessidade da justiça de Cristo, se você não perceber sua nudez perante um Deus santo? De fato, pregar sobre a ira de Deus, sobre pecado, inferno e muitos outros assuntos não vai apelar aos ouvintes dos nossos dias, e isso não deve nos surpreender. O grito pelo socorro da graça nunca cativará o ouvido enquanto não houver novamente um sentimento de culpa e desespero em nossas igrejas.

Essa verdade não foi feita para ser apenas afirmada como parte de uma confissão, mas para ser proclamada como a “boa nova” que justifica não só o crente diante de Deus como também a existência da igreja no mundo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

INDICAÇÃO DO CRISTÃO REFORMADO: POR QUE AMAMOS A IGREJA

Dois livros lançados nos últimos anos fizeram muito sucesso. São eles: A Cabana, de William P. Young, e Por que Você Não Quer Mais Ir à Igreja?, de Wayne Jacobsen e Dave Coleman. No Brasil, ambos foram lançados pela editora Sextante. Ao lado de obras de Brian McLaren, esses livros têm fomentado o pernicioso movimento conhecido como “Os Desigrejados”, de pessoas para as quais o Cristianismo institucionalizado perdeu o seu encanto. São pessoas que afirmam a possibilidade de ser cristão e ter um relacionamento de amor e vida com Jesus Cristo, sem ter nenhum vínculo com alguma igreja local, com suas regras, dogmas, pastores e demais líderes.

Graças a Deus, a editora Mundo Cristão acaba de lançar uma obra que tem como objetivo refutar as premissas dos gurus “desigrejados” e reafirmar a importância da comunhão com uma igreja local. Trata-se do livro Por que Amamos a Igreja, de autoria de Kevin DeYoung, pastor senior da Reformed University Church, em Michigan, e Ted Kluck, arituclista da ESPN Magazine. Transcrevo abaixo dois trechos da Introdução:

Não chamo de “igreja” a reunião de três caras bebendo café na Starbucks, falando sobre a espiritualidade da banda de rock Violent Femmes e discutindo por que a série Sex and the city é realmente profunda. Refiro-me à igreja local que se reúne em determinado lugar e que exulta na cruz de Cristo; que canta músicas a um Deus santo e amoroso; que tem oficiais, boa pregação, celebra os sacramentos, exerce disciplina e recolhe ofertas. Essa é a igreja que combina liberdade e forma na adoração coletiva, que tem pessoas jovens e velhas, tipos alternativos e viciados em corridas de carros, pessoas que buscam a Deus e as que se dedicam fielmente a uma causa, uma igreja que provavelmente tem boletins e regras.

A igreja que amamos é tão falha e suja quanto nós, mas ainda assim é a noiva de Cristo. Eu também posso tanto ter um alicerce sem uma casa ou uma cabeça sem um corpo quanto menosprezar a noiva que meu Salvador ama (Kevin DeYoung).


Em resumo, vamos escrever um livro sobre por que gostamos (amamos os) dos cristãos. Sei que existem vários cristãos evangélicos antipáticos por aí. Alguns deles estão na igreja. Tenho certeza de que, às vezes, sou um deles. Os cristãos também fazem coisas esquisitas e embaraçosas de vez em quando (p. ex., a maioria dos filmes cristãos e grande parte da música cristã contemporânea). Mas também existem muitas pessoas bacanas em nossa igreja – pessoas das quais realmente gosto, e não apenas no sentido de que “ele é meu irmão em Cristo e, portanto, tenho de gostar dele”. Alguns deles são até mesmo presbíteros ou estão em outras posições "hierárquicas" (esse é um jargão negativo; perceba a ironia da coisa) dentro da igreja. se minha fé fosse unicamente “pessoal”, ou se fizesse igreja em casa com outras cinco pessoas, sentiria falta deles.

Também fico feliz por minha igreja ser “organizada”. Sou feliz por saber aonde levar meu bebê de colo nas manhãs de domingo. Sou feliz porque alguém foi suficientemente institucional para pensar nos temas de uma ou duas aulas da classe da escola dominical. Sou feliz porque meu pastor, em vez de simplesmente caminhar por sua conta, importa-se o suficiente para estudar as Escrituras e fazer pesquisas numa prateleira cheia de livros de autores mortos para me dar comida espiritual de verdade a cada domingo. Sou feliz porque alguém lidera um ministério de impacto social para os mais necessitados de nossa área. Sou feliz porque alguém (e não eu) garante que as crianças aprendam alguma coisa bíblica em suas aulas. Em seu sentido mais básico, isso é religião organizada. E amo muito isso tudo.

[...]

Portanto, ao mesmo tempo que espero que este livro seja um incentivo aos praticantes da religião organizada com mentalidade evangélica sentados nos bancos (eu) ou nos púlpitos (Kevin), também espero que ele sirva como um convite a João Descontente para que afaste sua insatisfação provavelmente bem fundamentada e se junte a nós na igreja. Não somos perfeitos (longe disso), mas amamos Jesus, amamos o evangelho e fazemos o possível para amar os outros cristãos (Ted Kluck).

Por que Amamos a Igreja traz a recomendação de dois fiéis estudiosos brasileiros: Dr. Augustus Nicodemus Lopes e Rev. Franklin Ferreira. Aquele diz o seguinte:

Muita gente no Brasil, à semelhança do cenário norte-americano, gostaria de ser cristão sem ter de pertencer a uma igreja. O movimento de cristãos “desigrejados”, que vê a igreja mais como obstáculo e empecilho à comunhão com Deus, aparenta encontrar muitos adeptos. Todavia, esse movimento – que não é novo – faz uma análise superficial do conceito de Igreja no Novo Testamento, minimiza suas dimensões e tende a seguir uma visão utópica de cristianismo e de igreja que simplesmente não encontra respaldo nas Escrituras. Por que amamos a Igreja é um livro escrito com paixão, clareza e profundidade por dois autores que entendem bem esse movimento e que, ainda assim, acreditam que vale a pena continuar a amar a Igreja e pertencer a ela.

Já Franklin Ferreira afirma o seguinte sobre a obra:

Numa época em que crescem aqueles que têm se afastado das igrejas locais e ainda querem ser percebidos como cristãos, este livro franco, bíblico e pastoral é uma defesa competente da igreja centrada em Cristo, presente por meio da pregação das Escrituras, da ministração dos sacramentos e da comunhão disciplinada entre os crentes. Seja para aqueles que rejeitaram ou estão considerando deixar uma comunidade ou ainda para aqueles que buscam alento para continuar congregando numa determinada igreja, este livro será de grande ajuda. Como se conclui da argumentação de Kevin DeYoung & Ted Kluck, não podemos amar o Noivo se não amamos a noiva – e isso inclui amar a igreja visível.

Então, seja você um atual “desigrejado”, um cético a respeito da validade de uma igreja local ou um defensor da mesma, o Cristão Reformado recomenda efusivamente o livro Por que Amamos a Igreja.

Boa leitura!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

É SANTO O "HOLY HIP-HOP"?*


Dr. David Murray[i]

Eu me sinto realmente encorajado pelo movimento Novo Calvinismo, e o vejo como positivo em linhas gerais. Não acho que já tenha escrito alguma crítica sobre ele. Na verdade, tenho aprendido muito com os seus pregadores e blogueiros. Desejo ser um incentivador, em vez de um crítico. Porém, estou cada vez mais preocupado com a promoção cada vez maior do “Rap Gospel” ou “Holy Hip Hop” nos círculos do Novo Calvinismo, até mesmo por homens a quem eu admiro e muito estimo no Senhor.

Eu entendo o motivo – geralmente muito louvável o desejo de alcançar os perdidos nos bairros pobres. Definitivamente, não estou dizendo que os rappers cristãos e seus simpatizantes não são convertidos – simplesmente, embora gravemente, enganados. E não aceito que, na misericórdia e graça de Deus, almas têm sido salvas por esse meio.

Na Desiring God Pastors Conference deste ano, eu me sentei ao lado de três sinceros jovens de diferentes origens raciais. Eles me disseram que eram “Rapper Pastors”. Sem nunca ter ouvido o termo, pedi-lhes que me explicassem. Disseram-me que estavam trabalhando entre as gangues de Chicago, levado o evangelho aos jovens nas ruas através do Rap. “Por que Rap?”, perguntei. Eles responderam que era a única forma dessas gangues compreenderem, visto que foi nesse meio que receberam qualquer educação. Um deles me mostrou letras impressionantes, gravadas em seu iPhone, baseadas na palestra daquele dia de conferência. Ele iria fazer um “rap” com ela e com outras palestras da conferência, para a igreja que se reúne em sua casa, em Chicago, e para os jovens nas ruas de Chicago.

Evangelismo de trampolin?[ii]

Enquanto conversávamos, eu estava profundamente humilhado e desafiado por sua sinceridade, coragem e zelo. E, apesar de admitir que ainda me sentia desconfortável com o seu método evangelístico, pude entender a plausibilidade de seu argumento. Afinal de contas, foi assim que eles ouviram o evangelho primeiro. Agora, tendo usado isso como um trampolim, eles ouviam o ensino da Bíblia em profundidade por uma hora de duração.

Mas um argumento discutível de evangelismo de trampolim entre as gangues de Chicago é bastante diferente de cristãos maduros de culturas completamente diferentes promoverem shows e danças de “Holy Hip-Hop”, com apresentações em igrejas e etc. Com base em Êxodo 20.7 (cf. a exposição do Terceiro Mandamento do Catecismo Maior de Westminster, ou Calvino sobre esse assunto) e no princípio bíblico geral de “frutos revelarem raízes” (e.g. Mateus 7.16-20), eu tenho uma pergunta que resume as minhas preocupações:

As origens, associações e os presentes frutos de um gênero musical ou sub-cultura devem ser seriamente considerados quando se decide incorporá-los no culto público de Deus?

Presume que a maioria dos cristãos responderá afirmativamente a esta questão cuidadosamente estruturada (note a ênfase no culto público). No entanto, a maioria dos cristãos tem pouca ideia a respeito das origens, associações e presentes frutos da cultura Hip-Hop. Eles veem uma versão sanitizada nos palcos da igreja, mas não conhecem quase nada sobre como ela começou, ao que está associada, e não ter que viver com o brutal, aterrorizante, encharcado de sangue, e os frutos de lágrimas derramadas dia após dia, noite após noite nos bairros pobres. Por favor, não responda a este artigo até que você tenha investigado um pouco isso.

Redimir a cultura?

Mas não podemos resgatá-la para o Senhor? Não podemos pegar a batida, as roupas, as posturas, a cultura, e simplesmente mudar as palavras de violência, rebeldia, orgulho, desrespeito, vaidade, auto-adoração, ódio à mulher, glorificação do estupro, de brutalidade, cruéis e obcecadas por sexo e transformá-las à imagem de Cristo e da pregação e/ou adoração centrada na cruz? (É difícil saber se “Holy Hip Hop” é pregação ou louvor. Eu pressuponho, como a maioria – mesmo seus simpatizantes – que é quase impossível se juntar a ele e “cantar”. É mais uma forma de pregação do que louvor).

A igreja sempre corre o risco de escorregar lenta e imperceptivelmente, para longe da “loucura da pregação” em direção à aparentemente razoável e persuasiva “sabedoria deste mundo”. Na cultura antiga, a sabedoria do mundo disse aos pregadores do evangelho: “Use a filosofia!” ou “Use milagres!”, mas estava Paulo preso ao método aparentemente tolo de um só, a voz humana desacompanhada autoritativamente declarando a verdade. Ele não usou o método comum grego socrático nem aceitou o modelo judaico rabínico. Ele usou o método de Deus e o modelo da pregação – culturalmente inaceitável como agora.

Através dos anos, a Igreja tem sido continuamente tentada a usar vários modismos e tendências culturais para alcançar os perdidos – punk rock cristão, glam rock cristão, death metal cristão – normalmente com frutos pouco duradouros. As tentações assumem diferentes formas em diferentes culturas, mas Deus planejou e designou a pregação para ser o meio universal de reunir os Seus eleitos, não importando a cultura ou época em que vivemos.

Questões desafiadoras

Estou apenas expressando uma preferência cultural? Estou sendo apenas um tradicionalista ou legalista? Estou tornando a minha consciência, às vezes falha, em uma regra para outros? Estou ameaçando o precioso dom da liberdade cristã? Tenho que responder a estas perguntas desafiadoras de forma honesta e em oração ao escrever algo como isto. E eu continuo a examinar meus motivos e objetivos.

Mas não posso também desafiar irmãos muito estimados no Senhor a fazerem algumas perguntas a si mesmos? Seu desejo é semelhante ao de Cristo para a salvação das almas perdidas em nossos bairros pobres, e talvez a sua amizade pessoal com alguns rappers cristãos, impedem você de examinar o Hip-Hop através da afiada lente bíblica e de uma abordagem bíblica coerente para o culto público? Talvez, você, às vezes, confunde os efeitos incrivelmente poderosos da música e do ritmo sobre o espírito humano com os poderosos efeitos do Espírito Santo? O “Holy Hip-Hop” está conduzindo líderes cristãos e não-cristãos para longe do Hip-Hop profano e sua cultura, ou os mantém na mesma, e talvez até distanciando mais? Há sempre uma linha a ser desenhada em que dizemos: Esta cultura está tão corrompida que a separação, ao invés da transformação, pode ser a resposta cristã correta?[iii] Você está correndo risco de, inadvertidamente, prejudicar a dependência da pregação bíblica simples, reformada e que glorifica a Deus para salvar todos os tipos de almas, independentemente da cor de sua pele? Se a mensagem realmente é mais importante e poderosa do que a música, você poderia remover a música e deixar as palavras nuas excitar o mesmo interesse e produzir o mesmo efeito? Porque, principalmente as igrejas brancas estão fornecendo uma plataforma para isto, e por que são tantas as igrejas afro-americanas relutantes em acolher um gênero musical que tanto tem feito para destruir suas comunidades e devastar vidas jovens?

Promoção pública

Enviei versões deste artigo para alguns dos líderes do movimento do Novo Calvinismo e recebi críticas úteis e desafiadoras. Em resposta, tenho editado e re-elaborado este post ao longo de muitas e muitas horas em uma tentativa de apresentar isso de forma pacífica e respeitosa o máximo possível. Confio que você irá me permitir o direito de expressar estas preocupações dessa forma, e também que você responderá em um espírito semelhante.

Se a promoção indiscriminada do “Holy Hip-Hop” não tivesse se tornado tão pública e difundida nos últimos dias e semanas, provavelmente, eu teria tentado conduzir uma discussão mais particular sobre minhas preocupações. Talvez os promotores do “Holy Hip-Hop” pudessem ter sido mais prudentes ao fazerem uma consulta mais ampla e diálogo sério com outros cristãos fora de seus círculos, antes de irem assim cada vez mais ao público com seu apoio imparcial e incondicional de que eles devem saber que dividirão o movimento reformado. Embora agora eu me sinta, obrigado pela consciência, a colocar isto em domínio público, continuo a acolher o diálogo, tanto público como privado.

Estou esperançoso de que o movimento do Novo Calvinismo está agora velho e maduro o suficiente para considerar com seriedade e espírito de oração, algumas preocupações de outros cristãos fora de seus círculos internos, daqueles que os amam, apreciam-nos, e sinceramente, desejam sua prosperidade espiritual a longo prazo.

Eu odeio polêmica e temo a resposta a isso. Tenho certeza de que algumas pessoas muito mais inteligentes que eu conseguirão abrir alguns buracos em alguns dos meus argumentos. (Estou disposto a ser corrigido). Entretando, uma vez que a reação inicial arrefeceu, eu espero que haja séria consideração do meu apelo geral, alguma oração que busque sondar a alma, e uma reforma de vidas e igrejas corajosa e fortalecida pelo evangelho.


Eu removerei quaisquer comentários que tornem isso pessoal contra indivíduos citados ou usem isso como uma desculpa para evitar o Novo Calvinismo.


* TRADUÇÃO: Alan Rennê Alexandrino Lima, com as significativas colaborações de Daniel Gomes Silveira, Marcos Vasconcelos e Rogério Portella.

[i] Professor de Antigo Testamento e Teologia Prática no Puritan Reformed Theological Seminary. O Dr. David Murray foi um dos preletores do Simpósio Os Puritanos, em 2009.

[ii] NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: No original “stepping-stone evangelism”. Literalmente, significa “evangelismo pedra de passagem”. É o evangelismo que se utiliza de um “trampolim” ou um pretexto para reunir pessoas e torná-las ouvintes em potencial. As pessoas são convidadas para um show de rock ou um campeonato de Vale-Tudo, para depois evangelizá-las. Agradeço ao meu amigo Rogério Portela pelo esclarecimento.

[iii] NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: Para uma avaliação da ênfase no mandato cultural, recomendo: Cornelis Pronk, Neocalvinismo: Uma Avaliação crítica. São Paulo: Os Puritanos, 2010. p. 16-19.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E RELEVÂNCIA DOS SOLAS - 4ª PARTE

III – SOLA GRATIA (SOMENTE A GRAÇA)
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8, 9). “Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça” (Salmo 6.4). “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos” (Romanos 3.23-25).

O terceiro slogan oriundo da Reforma Protestante do Século XVI é o Sola Gratia, que significa, literalmente, “Somente a Graça”. O que essa terceira frase deseja enfatizar? Aqui, os Reformadores insistiram em que os pecadores não têm nenhum direito a reivindicar de Deus, que Deus não lhes deve nada senão o castigo por seus pecados, e que, se ele os salva apesar de suas transgressões, como é o caso daqueles que são salvos, é só porque agrada a Deus fazer isso. Eles ensinavam que a salvação é somente pela Graça.

Infelizmente, hoje a maioria das pessoas crê que o homem é basicamente bom, que Deus tem a obrigação de dar a cada um a oportunidade de ser salvo, e se, somos salvos, em última análise é por causa da nossa boa decisão de receber o Jesus que nos é oferecido no Evangelho. Já existem até grupos que dizem que aqueles que já são salvos têm o direito de fazer cobranças a Deus, no sentido de que ele cumpra as promessas da Aliança. Alguns dias atrás vi o teleevangelista “S. S. Souastro” dizendo que, por causa da Aliança o crente pode cobrar que Deus cumpra suas promessas. Sobre isso, duas coisas podem ser observadas: 1) uma promessa é uma livre-expressão de alguém, no sentido de que fará ou dará algo a outrem, sem qualquer exigência. Por isso, promessa é algo que não se cobra. Vocês não cobram promessas que seus amigos humanos falíveis fazem, quanto mais cobrar a Deus que é fiel à sua própria natureza; 2) o homem, mesmo depois de salvo, não se encontra numa relação em pé de igualdade com Deus. Ainda existe a “infinita diferença qualitativa” entre Deus e o homem. Portanto, quem sou eu para determinar alguma coisa pra Deus?

Essa confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta confiança falsa enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores até aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas. Assusta-me o quão incoerentes nós costumamos ser. Não costumamos refletir acerca das implicações das afirmações que fazemos, pois se os seres humanos são basicamente bons e o mal pode ser atribuído a forças impessoais, a estruturas, instituições e criação, então a doutrina da graça – a essência do evangelho – fica completamente sem sentido. Foi exatamente por isso que Jesus disse: “Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores” (Marcos 2.17). Então, se a pessoa não se vê como doente, ela não tem por que receber tratamento de um médico; se a pessoa não se vê como pecadora destituída da glória de Deus, conseqüentemente, ela não se verá como carente da graça de Deus.

Irmãos, percebam como uma coisa está atrelada à outra. Em nossos dias, o enfraquecimento da doutrina do pecado e a perda da percepção do desespero e da decadência humana na pregação, ensino e publicação de livros nos conduziram a uma visão míope da graça. Se a pessoa se sente totalmente condenada e impotente, um evangelho que proclama a graça divina como perdão é a resposta indubitável. Mas se ela se sente apenas extraviada, infeliz, não-realizada e fraca, um evangelho que ofereça uma assistência infundida já é suficiente.

Irmãos queridos, dizer que a salvação é pela graça não é simplesmente afirmar o caráter sobrenatural da salvação, mas é também excluir qualquer forma de cooperação entre o homem e Deus. Definitivamente, o ser humano não coopera em nada. Do começo ao fim a salvação é obra de Deus. Vejam o que afirmou o profeta Jonas: “Mas, com a voz de agradecimento, eu te oferecerei sacrifício; o que votei pagarei. Ao SENHOR pertence a salvação!” (Jonas 2.9). No que diz respeito ao Novo Nascimento a decisão e o esforço humanos são totalmente excluídos como tendo qualquer papel atuante: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Romanos 9.16). Salvação, queridos, não depende do desejo nem do esforço do homem, mas da misericórdia de Deus. Este foi o grito dos Reformadores.

APLICAÇÃO
De que maneira essa verdade se aplica a nós, resbiterianos do século XXI, mas herdeiros da Reforma Protestante do século XVI?

Primeiramente, devemos ter a convicção de que fomos salvos única e exclusivamente pela graça divina. Não fizemos absolutamente nada que nos ajudasse na nossa salvação. Foi unicamente Deus, com a sua graça e a sua misericórdia, que nos salvou. Não há em tua vida nenhuma bondade, nenhuma justiça, nada que tenha despertado a simpatia de Deus. A salvação é pela graça apenas: “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Romanos 11.6).

Em segundo lugar, se estamos realmente convencidos da justeza da crítica que a Reforma fez à Roma medieval, também não podemos mais aceitar a doutrina arminiana dentro dos círculos protestantes. Não é só Roma que precisa ser rejeitada, mas a idéia de que o homem é “bonzinho”, o pentecostalismo, a teologia da prosperidade e a tradição avivalista, no ponto em que cada um deles deixa de honrar suficientemente a graça de Deus.

SOBRE O RECENTE PROTESTO CONTRA A UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

Em protesto ao pronunciamento da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), publicado desde 2007 no site da Universidade Presbiteriana Mackenzie contra o PL 122/2006 (conhecido como “lei anti-homofobia”), um grupo de ativistas organizou uma manifestação no dia 24 de novembro de 2010, por volta das 18h, em frente à universidade. Com previsão de mais de três mil participantes, o evento contou somente com cerca de 400, que se postaram diante dos portões da instituição, na Rua Itambé. Em seguida, o grupo deslocou-se do Mackenzie para a Avenida Paulista com um número já bastante reduzido, conforme anunciado por diversos veículos de comunicação como a Globo News, a Folha de São Paulo, a CET, o site da UOL e dezenas de outros sites informativos. Na universidade, as aulas transcorreram normalmente.

A oposição da IPB ao projeto de lei se baseia não só no senso comum e em análises jurídicas especializadas (que consideraram o projeto “inconstitucional”), mas sobretudo nos princípios cristãos que norteiam tanto a denominação quanto o Mackenzie. Não há novidade nisso: quando se matriculam na instituição, os alunos assinam o contrato de serviços educacionais, em que há uma cláusula explicando esse caráter confessional. Isso não significa perseguição a quem não subscreve essas bases cristãs, muito pelo contrário: não há registro na história da universidade de casos de discriminação de qualquer tipo, seja contra alunos homossexuais, seja contra alunos que professam outras religiões, ou nenhuma. Todos têm acesso aos mesmos benefícios, como bolsas de estudo.

No entanto, desde o momento em que a publicação do texto da IPB no site do Mackenzie foi “descoberta” pelos ativistas neste ano, a igreja, a universidade e a pessoa de seu Chanceler têm sido duramente atacados e acusados de “homofobia”. Filmados em vídeo, os manifestantes pediam a demissão do Chanceler, cuja foto foi estampada em diversos sites homossexuais acompanhada de palavras de ódio. A virulência que caracterizou essas expressões de indignação, mesmo antes da aprovação do projeto, confirma o quanto é perigoso que a sociedade se veja refém de uma minoria militante, que procura impor seus pontos de vista por meio de pressão e difamação, não admitindo que pessoas, igrejas e organizações cristãs simplesmente afirmem ser a conduta homossexual um pecado.

Para detalhar melhor sua postura bíblica — que se fundamenta no amor, não no separatismo, e prega o respeito a todos —, cristãos que partilham da mesma visão sobre o homossexualismo se uniram para elaborar o manifesto “Universidade Mackenzie: Em Defesa da Liberdade de Expressão Religiosa”. O texto foi reproduzido em cerca de oito mil sites cristãos e conservadores, recebendo mais de 36 mil citações na internet. Traduzido para idiomas como alemão, espanhol, francês, holandês e inglês, foi postado em sites de diversos países estrangeiros, como Estados Unidos, França, Alemanha e Portugal. Centenas de manifestações de solidariedade à postura do Mackenzie foram veiculadas em diversos meios, inclusive no conhecido blog de Reinaldo Azevedo (articulista da revista Veja), um dos comentaristas políticos mais lidos e respeitados do país. Respondendo às acusações de “homofobia” com argumentos sólidos e bíblicos, os cristãos creem que sua postura contribuiu para que a manifestação de repúdio ao documento da IPB tenha recebido tão pouca adesão do público.

Nós, cristãos, estamos alegres e gratos por todo o apoio recebido e pelas orações do povo de Deus em favor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e de seu Chanceler, o Rev. Augustus Nicodemus Gomes Lopes. Instamos o povo de Deus a que se una também em súplicas e intercessões para que o Deus todo-poderoso derrame seu Espírito Santo sobre a igreja evangélica neste país. Necessitamos com urgência de um avivamento, de forma que o Cristo crucificado seja exaltado, os crentes sejam santificados, a Escritura Sagrada seja pregada com liberdade, pecadores se convertam e nosso país seja transformado, para a glória do Deus trino da graça.

Este pronunciamento é uma criação coletiva com vistas a representar o pensamento cristão brasileiro.

Para ampla divulgação.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS

INTRODUÇÃO

O Dia de Ação de Graças é comemorado na 4ª quinta-feira de novembro em vários países do mundo. Trata-se de um dia especial, quando milhões de pessoas se reúnem para se alegrarem e festejarem. A grande maioria, porém, não sabe ou, simplesmente, desconsidera a razão do nome desse dia. O sentido, o significado e a importância do Dia de Ação de Graças tem caído no esquecimento para a grande maioria daqueles que se dizem cristãos. Este, se tornou apenas mais um dia festivo, mais uma desculpa para festas e jantares.


Pouca gente sabe que o surgimento do Dia de Ação de Graças está com os colonizadores do que hoje é a nação norte-americana. Estes colonizadores eram puritanos, conhecidos como Pais Peregrinos. Eles tiveram que abandonar a Inglaterra por causa das perseguições e embarcaram para a Nova Inglaterra (hoje Estados Unidos) num pequeno navio chamado Mayflower (Flor de Maio) em agosto de 1620.


No dia 21 de dezembro de 1620, cerca de cem desses “Peregrinos” desembarcaram numa baía chamada de Cape Cod na colônia de Massachusetts, e fundaram a comunidade de Plymouth. Interessante, é que o interesse deles era desembarcar não nessa baía, mas sim na colônia da Virgínia. O desembarque em Cape Cod foi providência de Deus, pois se eles tivessem desembarcado na Virgínia, eles seriam perseguidos como na Inglaterra. Dos cem Peregrinos, cerca de trinta e cinco eram presbiterianos.


Pelo menos cinquenta dos Peregrinos morreram no primeiro inverno rigoroso. Eles possuíam poucos equipamentos para lavrar a terra e para suportar o rigor do inverno. Providencialmente, eles contaram com a ajuda dos nativos norte-americanos. Os nativos se tornaram amigos e providenciaram comida para aos Peregrinos. Com a convivência, no inverno seguinte, eles conseguiram boas plantações conseguiram permanecer vivos, além de se expandirem. Eles consideraram que isso era a bênção de Deus sobre as suas vidas. Deus tinha lhes dado condições de derrotarem as adversidades. Por isso, era hora de comemorar. Eles organizaram uma grande festa, que também contou com a participação dos nativos que tinham lhes ajudado. Esta grande festa teve repercussões em todo o território americano, sendo repetida ano após ano. Posteriormente, ela foi oficializada como feriado nacional americano e ficou conhecida como Dia de Ação de Graças.

Hoje, várias nações ao redor do mundo comemoram o Dia de Ação de Graças. Infelizmente, nem sempre como a recordação da bondade e do cuidado paternal de Deus, em conceder aos seres humanos bênçãos imerecidas. No entanto, seguindo o exemplo dos pais puritanos, precisamos ter em nossa mente que a razão de ser dessa data está em Deus, apenas em Deus.

O SALMO 138

o Salmo 138, é claramente um salmo de ação de graças que termina com um ato de confiança e uma súplica.[1] Nele, o salmista expressa grande alegria diante do Senhor porque alguma coisa saíra bem, porque as circunstâncias eram boas.[2] O salmista Davi entende como propício bendizer o senhor e render-lhe graças “ao recordar a ajuda singular que Deus sempre lhe outorgara (a experiência que desfrutara de sua fidelidade e bondade)”.[3]

Não temos como precisar qual o momento específico da vida de Davi quando ele escreveu este salmo. O salmo traz indicações que a ação de graças em questão se deu por conta de algum livramento dos inimigos que Deus concedeu a Davi (cf. vv. 3,6,7). O que é certo, é que Davi passou por inúmeras dificuldades, sendo perseguido por um de seus filhos, a ponto de ter de fugir. O que é certo, é que quando se encontrou em meio a terríveis desafios, Davi clamou pelo Senhor, e foi atendido em suas súplicas. O Senhor se compadeceu dele.

No que diz respeito à sua estrutura, o Salmo 138 pode ser dividido em duas partes: 1) Um olhar grato para o passado por causa das experiências que Davi teve com a misericórdia e a fidelidade do Senhor (vv. 1-3); e 2) Um olhar cheio de conforto e esperança para o futuro (vv. 4-8). O que é importante para nós, é que este salmo nos oferece também duas posturas que nunca devem estar ausentes de nossa caminhada cristã. Com base nisso, gostaria de refletir a respeito das doces e sublimes verdades que podemos contemplar neste salmo.

AS AÇÕES DE DEUS NO PASSADO DEVEM MOTIVAR NOSSA PROFUNDA GRATIDÃO E FUNDAMENTAR NOSSA VIVA ESPERANÇA


Verifiquemos a primeira parte do nosso tema:


I – AS AÇÕES DE DEUS NO PASSADO DEVEM MOTIVAR NOSSA PROFUNDA GRATIDÃO (vv. 1-3)


“Render-te-ei graças, SENHOR, de todo o meu coração; na presença dos poderosos te cantarei louvores. Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade, pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra. No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força da minha alma”.


Davi inicia com uma declaração de que louvaria ao Senhor e renderia graças a Ele com inteireza de coração. É como se ele dissesse: “Render-te-ei graças, Senhor, como tudo aquilo que está dentro de mim, com inteireza de devoção e afeto, com todo o fervor de que sou capaz”. Uma ação de graças verdadeira não pode ser apenas de lábios. Ao dizer que louvaria o Senhor com todo o seu coração, Davi queria expressar que seu louvor, sua ação de graças não seria apenas de lábios, mas sim com um coração sincero e não dividido.[4]


Algo que também podemos perceber em Davi é a sua disposição de louvar a Deus na presença “dos poderosos” (~yhiäl{a/). Essa palavra pode ser traduzida como “deuses”. Isso pode significar que a ação de graças deve ser prestada apenas a Deus em contraste com a adoração prestada aos falsos deuses. No entanto, pode significar também que mesmo na presença dos grandes reis da terra o Senhor deve ser o alvo de nossa devoção e de nossa gratidão.


No versículo 2, nós podemos encontrar o motivo da adoração do salmista Davi: “Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade, pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra”. Davi experimentara a misericórdia e a verdade do Senhor. Interessante é que as palavras usadas para “misericórdia” (ds,x,) e “verdade” (tm,a/) possuem vários significados. Elas podem ser traduzidas, respectivamente, como: “bondade”, “afeição”, “bondade amorosa”[5] e “firmeza, fidelidade e verdade”.[6] Deus havia dispensado seu amor, sua bondade, sua misericórdia, sua fidelidade e verdade a Davi. Estes atributos divinos eram grande fonte de conforto para Davi. Da mesma forma, a bondade, a misericórdia, a verdade e a fidelidade de Deus devem ser grandes fontes de conforto e grande motivadores à ação de graças que devemos prestar ao Senhor.


Por um instante, tentemos mensurar quantas vezes o Senhor já nos abençoou imerecidamente. Quantas e quantas vezes o Senhor já demonstrou sua misericórdia para nós? Lemos na Palavra de Deus que as misericórdias de Deus se renovam a cada manhã (Lamentações 3.23). Então, devemos perceber, o número de dias de vida que temos é parte do número de manifestações da misericórdia de Deus para conosco. Sim, é apenas uma parte, pois durante um dia, Deus ainda se mostra misericordioso em inúmeras ocasiões. Sempre que fazemos o mal, que pecamos e que não recebemos o que os nossos atos merecem. Em todas estas ocasiões o Senhor é misericordioso. Além disso, lembremos das inúmeras vezes em que o Senhor demonstrou sua bondade a cada um de nós: respondendo nossas orações; livrando cada um de nós de perigos, muitos dos quais sequer percebemos; abençoando as obras de nossas mãos; concedendo bênçãos materiais que muitas vezes são usadas por nós como motivos para nos afastarmos dele. Interessante que muitas vezes nos apegamos ao fato de que se algo servir para nos fazer mal, Deus não concederá o que pedimos. Mas é impressionante como mesmo aquilo que não é mau em si mesmo, muitas vezes é usado por nós de maneira ruim. É incrível a nossa capacidade de pegarmos as boas dádivas, os bons presentes do nosso Pai celestial e transformá-los em maldições para nossas vidas. Fazemos mau uso da bondade do Senhor.


Pensemos em como o Senhor é bondoso, misericordioso, verdadeiro e fiel. Que sentimentos são despertados em nossos corações ao lembrarmos isso? Gratidão? Ou será que conseguiremos permanecer frios, inertes, estagnados diante de Deus?


O versículo 3 nos mostra o clamor de um necessitado e o testemunho da resposta de Deus: “No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força da minha alma”. “Davi infere que seu escape do perigo não podia ter sido fortuito, pois transpareceu claramente que Deus lhe respondera”.[7] Nossas orações revelam mais da bondade de Deus. Isso se dá pela confiança demonstrada ao fazermos o pedido e culmina com o atendimento às nossas petições. Por que ele nos responde? Porque é bondoso! Em nós não há bondade nenhuma! Entretanto, em Deus reside a plenitude da bondade. Foi por isso que Jesus Cristo afirmou que “ninguém é bom senão um, que é Deus” (Marcos 10.18). Além disso, algo que aprendemos com Davi, é que ninguém poderá obter resposta alguma da parte do Senhor sem oração. A oração é vital, é essencial para o relacionamento entre Deus e o seu povo.


Em muitas ocasiões o Senhor retém suas bênçãos exatamente porque o seu povo não tem nenhum prazer na oração. Nossos cultos de oração são provas disso. Não me refiro apenas a bênçãos temporais e materiais. Estou afirmando que muitas vezes não recebemos nem mesmo ânimo, alento, força espiritual, como Davi recebeu simplesmente porque não oramos. Hoje em dia, vejo pessoas que amam ser abençoadas, que proclamam que Deus é fiel, tentando colocar o Senhor em um pré-moldado, mas que não têm nenhum prazer na oração; não têm tempo para erguer um clamor; não têm disposição para suplicar aos pés da cruz.


É impressionante como ao finalizarmos uma oração, o nosso ânimo está renovado, nossas forças estão refeitas. Isso é mais uma prova da bondade de Deus. Não temos forças em nós mesmos, mas Ele fortalece as nossas forças. Ele faz isso para que possamos resistir às cargas e aos fardos diários. Então, resistamos às tentações, apeguemo-nos fortemente a Ele, com fé, e esperemos com paciência o que o futuro trará.


Quantas orações tuas o Senhor já respondeu? Em quantos clamores você já foi acudido? Você tem sido grato?


Agora, passemos à segunda parte do nosso tema:


II – AS AÇÕES DE DEUS NO PASSADO DEVEM FUNDAMENTAR NOSSA VIVA ESPERANÇA (vv. 4-8)


“Render-te-ão graças, ó SENHOR, todos os reis da terra, quando ouvirem as palavras da tua boca, e cantarão os caminhos do SENHOR, pois grande é a glória do SENHOR. O SENHOR é excelso, contudo, atenta para os humildes; os soberbos, ele os conhece de longe. Se ando em meio à tribulação, tu me refazes a vida; estendes a mão contra a ira dos meus inimigos; a tua destra me salva. O que a mim me concerne o SENHOR levará a bom termo; a tua misericórdia, ó SENHOR, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos”.


Tudo o que Deus operou no passado deve nos fazer olhar para o futuro com grande expectativa. Foi assim com Davi e deve ser assim também com cada um de nós. O Senhor havia sido misericordioso, bondoso, verdadeiro e fiel. Isso despertou em Davi um sentimento incontrolável de gratidão. Além disso, fez com que o servo do Senhor olhasse para um período mais à frente. Ele expressa sua viva esperança nos versículos 4 e 5: “Render-te-ão graças, ó SENHOR, todos os reis da terra, quando ouvirem as palavras da tua boca, e cantarão os caminhos do SENHOR, pois grande é a glória do SENHOR”. Davi olhou e contemplou um tempo futuro quando todos os governantes da terra dobrarão seus joelhos e com as suas línguas confessarão a soberania e a supremacia do Senhor Jesus Cristo.


Hoje, o mundo se encontra num completo caos moral e espiritual. Temos governantes que não temem a Deus. Mesmo aqueles que se declaram crentes estão procedendo como ímpios, como pessoas que não temem a Deus. Nossos governantes desafiam o Senhor abertamente com os seus pecados e com as suas declarações arrogantes, aprovando leis que afrontam a Palavra do Senhor. Entretanto, chegará o dia quando todos os reis da terra renderão graças a Deus, dobrarão seus joelhos em reverência e cantarão os caminhos do Senhor. Isso é confiança demonstrada!


Davi, ao olhar para o futuro, “declara sua confiança nesse grande Deus. Ele reconhece de forma realista que ainda não passou pelo pior das angústias, mas tem a certeza de que o Deus que dá vida está por trás dele, pronto para intervir em seu favor”.[8] Vejam o que diz o versículo 7: “Se ando em meio à tribulação, tu me refazes a vida; estendes a mão contra a ira dos meus inimigos; a tua destra me salva”. Esse versículo é impressionante e traz uma lição muito importante. Nós não gostamos de sofrer. Nós somos completamente avessos ao sofrimento. O que você mais deseja? Não seria não sofrer? Pois bem, Davi nos ensina o quanto estamos errados. Nosso maior desejo deve ser o de receber consolo, fortalecimento, conforto e misericórdia da parte de Deus. No mundo estamos constantemente expostos a perigos. Aprendamos com Davi, então, que o Senhor sempre renovará a nossa vida mesmo em meio a tribulações, angústias e perseguições. A mão de Deus sempre está e sempre estará estendida para nos socorrer e nos salvar. O verbo traduzido como “refazes” (ynIYEïx;ñT.) significa “preservas”.


O versículo final do Salmo 138, o versículo 8, afirma o seguinte: “O que a mim me concerne o SENHOR levará a bom termo; a tua misericórdia, ó SENHOR, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos”. Este versículo “é uma das mais belas profissões de confiança em Deus”.[9] Aqui, Davi declara “até o final sua dependência de Deus”.[10] Davi confiava que o futuro seria um período no qual ele continuaria debaixo da misericórdia e da bondade de Deus. Ele diz: “O que a mim me concerne o SENHOR levará a bom termo”. Com isso ele quer dizer que, Deus completará a obra iniciada na vida de Davi. O verbo traduzido como “levará a bom termo” (rm;G") significa “completar”, “finalizar”, “terminar”.[11] Onde será que já lemos algo parecido? Sim, na Epístola de Paulo aos Filipenses: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (1.6).


As ações de Deus realizadas no passado deram a Davi uma certeza inabalável de que ele receberia o cuidado contínuo do Senhor. A misericórdia experimentada no passado era a mesma do presente, e continuaria a mesma no futuro. Nosso Deus é imutável, ele não muda. Essa é a razão da confiança de Davi: “a tua misericórdia, ó SENHOR, dura para sempre”. Não pode haver dúvidas de nossa parte de que “a maneira de manter boa esperança em meio aos perigos é fixar os olhos na bondade de Deus, na qual repousa nosso livramento”.[12] A salvação que nos foi outorgada não é passageira, não é evanescente.


Interessante, é que mesmo tendo tamanha confiança e tamanha certeza da imutabilidade da misericórdia e da bondade divinas, Davi acha oportuno encerrar este salmo com uma singela e sincera oração: “não desampares as obras das tuas mãos”. Mesmo Deus prometendo em sua Palavra que jamais nos abandonará e que não deixará a obra das suas mãos incompleta, ainda assim é necessário orarmos, suplicarmos, pedirmos sempre a Deus para que ele não nos desampare. Temos aqui soberania divina e responsabilidade humana andando juntas. Isso é importante! Nunca vi uma época como a presente quando as pessoas fazem tão mau uso da doutrina da soberania de Deus. Existem pessoas que pensam que porque a salvação não pode ser perdida também não precisam cumprir nada; imaginam que porque são salvas não precisam vigiar, orar, ler as Escrituras, evitar o pecado, resistir às tentações. Existem pessoas que pensam que porque Deus prometeu na Bíblia que “aos seus amados ele o dá enquanto dormem” (Salmo 127.2), não precisam trabalhar. Existem pessoas que pensam que o pecado que cometem é da responsabilidade de Deus, e por isso, ele não vai pesar a mão sobre tais pessoas. Existem vasos de ira que têm prazer no pecado, que se rebelam contra o Senhor e agem como os vasos da ilustração de Paulo, em Romanos 9.20, perguntando: “Por que me fizeste assim?”. Precisamos sim orar. Precisamos suplicar o cuidado contínuo de Deus. Ele se alegra com isso. Ele tem prazer em ver os seus filhos declarando sua completa dependência, carência e necessidade dele. Calvino afirma que, “ao declarar que Deus aperfeiçoa a salvação do seu povo, Davi não encoraja a ociosidade; antes, fortalece a sua fé e se anima ao exercício da oração”.[13]

· CONCLUSÃO


Quero concluir, relembrando a promessa e a advertência existentes no versículo 6: “O SENHOR é excelso, contudo, atenta para os humildes; os soberbos, ele os conhece de longe”. A primeira parte é o que se encontra em Isaías 57.115: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito”. Apesar de sua supremacia, Deus é acessível. Ele “atenta”, ou seja, ele presta atenção especial nos humildes. No entanto, Deus conhece de longe aqueles que são soberbos. Uma tradução possível é que Deus se mantém distante daqueles que são soberbos, que são altivos e arrogantes.

Com isso em mente, somos advertidos a mantermos sempre uma disposição humilde diante de Deus, reconhecendo que Ele é o Senhor cujo trono está nas alturas, que tudo o que temos não é nosso, mas sim dele, foi-nos dado por ele, para a glória dele. Com certeza, queridos irmãos, ao longo dos anos de nossas vidas temos experimentado muito a misericórdia e a bondade do Senhor; com certeza, experimentaremos isso muitas e muitas vezes ainda. Como nos colocaremos diante do Senhor? Com humildade e com ações de graças em nossos lábios e, acima de tudo, em nossos corações? Ou com soberba, arrogância e orgulho, vivendo como se não existisse nenhum Deus nas alturas?



[1] L. A. Schökel E C. Carniti, Salmos II (Salmos 73-150), (São Paulo: Paulus, 1998), 1571.

[2] Gordon D. Fee e Douglas Stuart, Entendes o que Lês?, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 183.

[3] João Calvino, Salmos, Vol. 4, (São José dos Campos: Fiel, 2009), 473.

[4] Ibid, 474.

[5] BDB Hebrew Lexicon. BIBLEWORKS 7.0.

[6] Ibid.

[7] João Calvino, Salmos, Vol. 4, 476.

[8] Leslie C. Allen in F. F. Bruce (Org.), Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos, (São Paulo: Vida, 2009), 894.

[9] L. A. Schökel E C. Carniti, Salmos II (Salmos 73-150), 1574.

[10] Leslie C. Allen in F. F. Bruce (Org.), Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos, 894.

[11] BDB Hebrew Lexicon. BIBLEWORKS 7.0.

[12] João Calvino, Salmos, Vol. 4, 480.

[13] Ibid.

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