sexta-feira, 10 de julho de 2009

A PROPÓSITO DO QUINCENTENÁRIO DE JOÃO CALVINO



“Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere”.[1]

O dia de hoje (10 de julho de 2009) marca o aniversário de 500 anos do nascimento do reformador francês Jean Cauvin, ou como é popularmente conhecido no Brasil e nos demais países lusófonos, João Calvino. Trata-se de uma data importante para o protestantismo mundial, especialmente, para os protestantes da tradição reformada ou calvinista. Exatamente há 500 anos (10 de julho de 1509) nasceu na cidade francesa de Noyon, região da Picardia, aquele que, anos mais tarde, seria alcunhado com justiça de “A Mente da Reforma” ou “O Exegeta da Reforma”.[2] Isso devido ao fato de que, no que concerne à Reforma Protestante, podemos afirmar que, enquanto Lutero foi o desbravador e iniciador, João Calvino foi o sistematizador e grande organizador do movimento.

Não tenho o propósito de escrever um post que se constitua numa obra-prima sobre Calvino. Até porque, mesmo que tal fosse o meu intento, deparar-me-ia com dois enormes problemas: 1) a impossibilidade, pois um blog é um espaço por demais pífio e diminuto; e 2) a incapacidade, pois o gênio de Calvino é incompreendido até mesmo pelos seus mais ilustres biógrafos. No entanto, quero aqui apenas apresentar minha gratidão a Deus pela figura histórica e notável do Reformador de Genebra.

Calvino aparece elencado na História do Cristianismo como um dos grandes teólogos que já existiram. De acordo com a minha leitura da história (há quem discorde, e para isso tem total liberdade!), ele aparece como o terceiro maior teólogo que o Cristianismo já produziu, ficando atrás do apóstolo Paulo e de Agostinho de Hipona. Como tal, Calvino foi um gigante, e como afirma o Prof. Armando Araújo Silvestre, “os gigantes do passado tornaram-se paradigmas para o presente o futuro”.[3] Todavia, creio que a importância de João Calvino como paradigma para o protestantismo brasileiro ainda não foi devidamente compreendida. Para a grande maioria dos evangélicos brasileiros Calvino ainda permanece nas sombras, como uma figura desconhecida.

Particularmente, como presbiteriano que sou, sinto-me triste por perceber como mesmo em nosso meio jaz uma verdadeira ignorância quanto ao nosso passado. Mais triste ainda é perceber no meio presbiteriano alguns traços de descaso e desrespeito para com o legado deixado por Calvino. Mais uma vez, valho-me das palavras do Prof. Armando para expressar minha tristeza:

A triste constatação de que nem mesmo os que se dizem fiéis calvinistas conhecem algo de substancial desse reformador universal chega a estarrecer. Há mesmo alguns que se dizem guardiães da herança deixada por Calvino, mas que não conseguem passar de meras citações a favor ou contra, com acusações pesadas ou defesas apaixonadas. Leitura e compreensão para acusar ou defender? Quase nada. Conhecimento? Praticamente nulo.[4]

É no mínimo curioso que Jabocus Arminius, considerado como o grande antagonista de Calvino, tenha demonstrado duas coisas que muitos dos seus pretensos “herdeiros” não demonstram: respeito e consideração. Segundo Arminius, “João Calvino está um nível acima de qualquer comparação, no que diz respeito à interpretação da Escritura. Os seus comentários precisam ser muito mais valorizados do que qualquer dos escritos que recebemos dos pais da igreja”.[5]

É preciso enfatizar que, Calvino não inventou nada, nenhuma doutrina, nenhuma prática. Ele simplesmente identificou, de forma hábil, o que já se encontrava registrado de forma inspirada nas Sagradas Escrituras. Ele não inventou a doutrina da predestinação, como alguns sugerem. Apenas expôs o que a Bíblia traz em seu escopo sobre este assunto. Ele também não inventou o assassinato por motivações religiosas, como alguns o acusam como principal responsável pela morte do médico espanhol Miguel Serveto (1553). Com tanta informação disponível sobre este incidente, é de admirar que ainda hoje existam indivíduos que o difamem por causa disso. Tais apedeutas ignóbeis e obtusos desconhecem que Serveto já havia sido condenado pela Igreja Católica Romana e era caçado pela Inquisição, tendo fugido da cidade francesa de Vienne. É importante que se diga, que Calvino, apesar de não ter sido responsável pela morte de Serveto, consentiu com a sua morte. O problema é que os opositores de Calvino o apresentam como um desalmado violento e excessivamente cruel. Ele pode ser acusado de intolerância, não de crueldade. Eis suas palavras sobre o assunto numa carta a Guilherme Farel: “Espero que Serveto seja condenado à morte, mas desejo que seja poupado da atrocidade da pena”.[6] Pena que o Pequeno Conselho (Petit Conseil) de Genebra não tenha dado ouvidos a Calvino. Sem querer me estender muito nesse assunto, penso que será elucidativo lembrar que, de acordo com Alister McGrath, os habitantes de Genebra eram divididos em três grupos distintos: 1) os citoyens ou cidadãos, grupo composto por aqueles que nasceram e foram batizados em Genebra e eram filhos de outros citoyens; 2) os bourgeois ou burgueses, grupos composto por pessoas abastadas que tinham condições de adquirir ou negociar o título de bourgeois; e 3) os habitants ou habitantes, que não se enquadravam nessas duas categorias, porém, eram estrangeiros que residiam legalmente na cidade, com nenhum direito a voto, de portar armas ou de assumir qualquer posto público na cidade. Calvino não era suíço, era francês, portanto, um estrangeiro. No caso de Serveto, “como um mero habitant, ele era rigorosamente excluído da administração da justiça civil e criminal”.[7] Coloco a próxima frase em letras garrafais na tentativa de ajudar os analfabetos funcionais de plantão a compreenderem a História: QUEM CONDENOU E EXECUTOU SERVETO FOI O PEQUENO CONSELHO DE GENEBRA, DO QUAL CALVINO NÃO FAZIA PARTE!

É preciso dizer também que, Calvino não é o pai do capitalismo selvagem, como frequentemente é afirmado. Em parte, isso é devido à interpretação confusa que Max Weber faz da ética calvinista sobre o trabalho, e, em parte, isso também é uma consequência de inúmeras interpretações bestiais da obra de Weber. Calvino não trouxe o capitalismo para Genebra. Pelo contrário, quando chegou a Genebra, Calvino já encontrou uma cidade aquecida pelo comércio e com toda a estrutura ideal para o desenvolvimento do sistema capitalista. A gênese do capitalismo genebrino remonta a meados do século XV, portanto, é anterior a Calvino.

João Calvino foi, na realidade, unus de plebe (um do povo comum).[8] Ele foi um homem devoto a Deus; um homem que apresentou seu coração “pronto e sincero” ao Senhor. Ele foi grandemente usado por Deus para organizar o movimento da Reforma Protestante e transformar toda uma cidade. Em Genebra, sua influência foi exercida primariamente por sua dedicação à pregação. Seu único desejo era servir ao Senhor, como ele mesmo afirmou: “Basta-me viver e morrer por Cristo, o qual é lucro para todos os seus seguidores, tanto na vida como na morte”.[9] Logicamente, ele não foi perfeito. Ele também teve de lutar com os seus próprios pecados, os quais lhe eram tão evidentes. No entanto, como um vaso nas mãos do oleiro, foi usado para levar a fiel pregação da Palavra a um povo faminto e carente. A influência de João Calvino ainda hoje pode ser sentida na teologia, educação, política e economia.

A importância de João Calvino para nós reside no fato de que, ele nos deu um notável exemplo do que é viver para a glória de Deus somente. Diferentemente do que acontece na grande maioria das igrejas evangélicas do nosso tempo, não encontramos no pensamento e na vida de Calvino nenhuma tentativa de fazer algo dissociado da vontade de Deus revelada nas Sagradas Escrituras. Somos herdeiros de uma tradição riquíssima, amplamente fundamentada na Palavra. Precisamos valorizar (que ninguém entenda isso como idolatrar!) mais o legado deixado a nós por este servo de Deus.

Pessoalmente, sinto-me duplamente abençoado por Deus: por pertencer ao ramo do Cristianismo Protestante conhecido como Calvinismo, e também por ter tido a graça de nascer no mesmo dia em que nasceu João Calvino, 10 de julho. Parabéns pra mim duas vezes!

SOLI DEO GLORIA!

[1] “A ti, ó Deus, ofereço o meu coração, pronto e sincero”.

[2] Hermisten Maia Pereira da Costa, Raízes da Teologia Contemporânea, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 136.

[3] Armando Araújo Silvestre, Calvino: O Potencial Revolucionário de um Pensamento, (São Paulo: Vida, 2009), 19.

[4] Ibid.

[5] Citado por Solano Portela Neto no prefácio do comentário de 2 Coríntios, (São José dos Campos: Fiel, 2008), 11.

[6] Eduardo Galasso Faria (org.), João Calvino: Textos Escolhidos, (São Paulo: Pendão Real, 2008), 224.

[7] Alister McGrath, A Vida de João Calvino, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 138.

[8] João Calvino, Cartas de João Calvino, (São Paulo: Cultura Cristã, 2009), 13.

[9] Ibid, 23.

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