segunda-feira, 13 de julho de 2009

A MORTE DO DISCERNIMENTO EM UMA CABANA


Considerações sobre uma Heresia Celebrada e Amada por muitos, inclusive Evangélicos

“Enquanto tentava estabelecer algum equilíbrio interno, a raiva voltou a emergir. Energizado pela ira, Mack foi até a porta. Decidiu bater com força para ver o que acontecia, mas, no momento em que levantou o punho, a porta se escancarou e diante dele apareceu uma negra enorme e sorridente. Mack pulou para trás por instinto, mas foi lento demais. Com uma velocidade surpreendente para o seu tamanho, a mulher atravessou a distância entre os dois e o engolfou nos braços, levantando-o do chão e girando-o como se ele fosse uma criança pequena. E o tempo todo gritava o seu nome, Mackenzie Allen Phillips, com o ardor de alguém que reencontrasse um parente amado há muito perdido. Por fim, colocou-o de volta no chão e, com as mãos nos ombros dele, empurrou-o para trás, como se quisesse vê-lo bem”.[1]

I – SOBRE O LIVRO
O parágrafo acima é um trecho de um livro que alcançou o 1º lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times. Além disso, tem se mantido durante quarenta e três semanas seguidas na lista dos 10 mais vendidos da Revista Veja. Atualmente, figura como o 2º colocado. Trata-se do livro A Cabana, escrito por William P. Young, formado em Religião, nos Estados Unidos.
O que esse livro tem em seu escopo, que fez com que alcançasse grande sucesso, vendendo milhões de exemplares? O segredo reside no tratamento dado ao assunto que é comum a todos os seres humanos: o sofrimento. Ele conta a história de um homem de 56 anos, Mackenzie Allen Phillips, pai de cinco filhos e casado com Nannete A. Samuelson. Num determinado final de semana, Mack leva toda a família para um acampamento no Parque Estadual do Lago Wallowa, no estado americano do Oregon. Logo no dia seguinte, quando preparava café da manhã para os seus filhos, dois deles, Josh e Kate, pediram-lhe para dar um último passeio na canoa de um casal amigo. Com a permissão do pai, ambos empreenderam tal passeio. Porém, os dois se desequilibraram e viraram a canoa, o que fez com que Mack mergulhasse imediatamente para salvar Josh, que ficara preso embaixo da canoa. Nesse ínterim, sua filha mais nova, a pequena Missy foi sequestrada por um estranho. Uma longa e desgastante busca foi feita na tentativa de encontrar Missy. Seguindo algumas pistas, como relatos de que ela tinha sido vista numa picape verde, Mack e a equipe de busca chegaram a uma cabana em ruínas, onde encontraram o vestido da criança rasgado e encharcado de sangue.
A partir daí, Mack passou a enfrentar um sofrimento terrível (denominado no livro como Grande Tristeza) por conta do sumiço e subsequente assassinato de sua filhinha. Um emaranhado de sentimentos passou a acossá-lo, inclusive a revolta por Deus ter permitido tal brutalidade, e a culpa por ter se descuidado. Além disso, Mack sofria muito ao perceber como sua filha Kate estava cada vez mais distante e isolada. Ele queria ajudá-la, mas não sabia como.
A Grande Tristeza o acompanhou por alguns anos até que, durante uma tempestade, ao verificar a caixa de correio, Mack se deparou com um bilhete datilografado, com os seguintes dizeres: “Mackenzie, já faz um tempo. Senti sua falta. Estarei na cabana no fim de semana que vem, se você quiser me encontrar. Papai”.[2] Ao verificar a caixa de correio, Mack se deparou com um bilhete datilografado por Deus, convidando-o a ir até à cabana onde sua filhinha fora assassinada, para ali receber a cura para o seu sofrimento. Depois de relutar muito, Mack foi até lá, e ao chegar, deparou-se com a Trindade. O restante da narrativa mostra o desenrolar dos acontecimentos durante o final de semana em que Mack desfrutou da companhia das três Pessoas da Trindade e foi transformado em um novo homem.
Os objetivos de William Young ao escrever essa obra foram nobres e elogiáveis: 1) apresentar o conceito de que o sofrimento humano possui sentido; 2) ensinar que Deus usa o nosso sofrimento e a nossa dor com vistas a um propósito maior. O grande problema é que o autor, na tentativa de cumprir seus objetivos, lança mão de conceitos heterodoxos, heréticos, blasfemos e antibíblicos. O que segue é uma análise, ainda que perfunctória, à luz da teologia bíblico-reformada do conteúdo perigoso apresentado pelo livro A Cabana, que tem prestado um verdadeiro desserviço ao Cristianismo. Minha preocupação ao escrever esta resenha não é destruir o deleite das pessoas. Antes, parto de uma preocupação pastoral, visto que esse livro tem sido lido por pessoas da igreja onde sirvo, e endossado por líderes descomprometidos com uma saudável teologia bíblica. Não tenho como objetivo ensinar prisão mental e espiritual. Muito menos ensinar uma forma de obscurantismo tridentino, confeccionando um novo Index de livros proibidos. Minha intenção é ajudar as pessoas a discernirem o que está por trás do best-seller A Cabana.

II – CONCEITOS HERÉTICOS
2.1. FEMINIZAÇÃO DE DEUS
O primeiro grande problema apresentado no livro é a feminização de duas das três Pessoas da Trindade. Como pode ser observado na citação feita logo no início, Deus, o Pai, é apresentado como “uma negra enorme e sorridente”, chamada de Elousia. Já Deus, o Espírito santo, é descrito como “uma mulher pequena, claramente asiática”, chamada de Sarayu.[3] Deus, o Filho, Jesus, é o único que escapa da feminização. No entanto, ele é descrito como um homem “do Oriente Médio e se vestia como um operário, com cinto de ferramentas e luvas. Estava de pé, tranquilamente encostado no portal e com os braços cruzados, usando jeans cobertos de serragem e uma camisa xadrez com mangas enroladas acima dos cotovelos, revelando antebraços musculosos”.[4]
O inusitado é que Elousia, o Pai, diz a Mack o seguinte: “Mackenzie, eu não sou masculino nem feminina, ainda que os dois gêneros derivem da minha natureza. Se eu escolho aparecer para você como homem ou mulher, é porque o amo”.[5] O ponto é que na Bíblia não há nenhuma indicação de que Deus intente realizar esse tipo de coisa, visto que, primeiramente, ele é espírito, não podendo ser concebido a partir de concepções que envolvam qualquer tipo de “aparição” à parte de sua revelação na bendita pessoa do Senhor Jesus Cristo. Na encarnação, Deus se revelou em Jesus Cristo, de maneira que este é a revelação perfeita, a expressão exata do seu Ser (Hebreus 1.3). Além disso, ao longo de toda a Escritura, Deus sempre faz referência a si utilizando termos masculinos. Somente alguém que renega o conceito de inspiração das Escrituras é capaz de sugerir algo que não encontre precedente na revelação canônica de Deus. William Young vai além dos limites bíblicos, e até onde sei, isso é heresia!
A apresentação de Deus Pai e do Espírito Santo como duas mulheres se constitui numa quebra flagrante e gritante do Segundo Mandamento (Êxodo 20.4-6), cujo princípio proíbe a construção de qualquer imagem, inclusive mental, para representar qualquer uma das Pessoas da Trindade. Na exposição que faz sobre os pecados proibidos no Segundo Mandamento (Pergunta 109), o Catecismo Maior de Westminster diz o seguinte:

Os pecados proibidos no segundo mandamento são: o estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus; fazer qualquer imagem de Deus, de todas ou de qualquer das três Pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente em qualquer forma de imagem ou semelhança de alguma criatura...[6]

Onde William Young fez, primeiramente, as imagens do Pai e do Espírito Santo como duas mulheres? A resposta é: em sua mente! Creio que seja pertinente citar o comentário que o Dr. Johannes Geerhardus Vos faz acerca da resposta do Catecismo:

Porque Deus é puro espírito, sem forma corpórea, e qualquer imagem ou representação que o homem possa fazer dEle dá somente uma falsa idéia da Sua natureza. Assim como nos intima o Catecismo, isso é verdadeiro não importando se a imagem ou representação de Deus tenha sido produzida externamente, ou se é apenas interna à mente de alguém. Em ambos os casos a tentativa de visualizar Deus é pecaminosa e só pode falsificar ou distorcer a revelação dEle apresentada na Bíblia.[7]

Alguém ainda pode argumentar, afirmando que, “se Deus quiser, ele pode aparecer pra alguém como uma mulher. Além disso, a figura feminina desperta maior encanto e fascina mais do que a figura masculina”.[8] Várias objeções podem ser apresentadas a esta afirmação, no entanto, apresentarei apenas três: Primeiramente, Deus já quis se revelar em forma humana. E, de fato, ele já se revelou em Jesus Cristo, portanto, qual a necessidade de uma nova “aparição” em forma humana? Em segundo lugar, será que a figura feminina é capaz de despertar maior encanto e fascínio do que a pessoa mansa e humilde do Senhor Jesus Cristo? Por que o Pai não pensou nisso? E em, terceiro lugar, esta afirmação se constitui num pressuposto assumido, porém, não provado. Na verdade, é impossível prová-lo!

2.2. CRISTOLOGIA HERÉTICA
Os conceitos apresentados a respeito da pessoa de Jesus Cristo também são completamente deturpados. O ponto mais grave é a confusão a respeito das duas naturezas de Cristo. Transcrevo abaixo parte de um diálogo entre Mack e Deus, o Pai, a respeito de Jesus:

- Mackenzie, eu posso voar, mas os humanos, não. Jesus é totalmente humano. Apesar de ele ser também totalmente Deus, nunca aproveitou sua natureza divina para fazer nada. Apenas viveu seu relacionamento comigo do modo como eu desejo que cada ser humano viva. Ele foi simplesmente o primeiro a levar isso até as últimas instâncias: o primeiro a colocar minha vida dentro dele, o primeiro a acreditar no meu amor e na minha bondade, sem considerar aparências ou consequências.
- E quando ele curava os cegos?
- Fez isso como um ser humano dependente e limitado que confia na minha vida e no meu poder de trabalhar com ele e através dele. Jesus, como ser humano, não tinha poder para curar ninguém.
[9]

Nesse ponto, caro leitor, peço que você pare e leia novamente o diálogo supramencionado. De acordo com William Young, Jesus, como ser humano não tinha poder para curar ninguém. É impossível conciliar esta afirmação com a seguinte afirmação do próprio Jesus: “Mas Jesus disse: Quem me tocou? Como todos negassem, Pedro com seus companheiros disse: Mestre, as multidões te apertam e te oprimem e dizes: Quem me tocou? Contudo, Jesus insistiu: Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder (Lucas 8.45, 46). No episódio em questão, Jesus não deixou de ser humano. É possível que algum ignorante, afeiçoado às heresias, argumente a partir de Lucas 5.17: “Ora, aconteceu que, num daqueles dias, estava ele ensinando, e achavam-se ali assentados fariseus e mestres da Lei, vindos de todas as aldeias da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém. E o poder do Senhor estava com ele para curar. É possível que o ignorante pense: “te peguei!”. Será mesmo? Pois bem, peço a ele que leia o que diz Lucas 4.14: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Aqui, Jesus realizava sua obra pelo poder do Espírito Santo. Mas, existe alguma passagem que indique que Jesus tinha poder? Existe alguma passagem que não indique que ele realizava seus feitos pelo poder do Pai ou do Espírito? Sim, há! Lucas 9.1 faz a seguinte afirmação: “Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas”. Por possuir poder foi que Jesus concedeu poder e autoridade aos doze.
Young ignora três coisas: 1) as três Pessoas da Trindade compartilham dos mesmos atributos, incluindo o poder; 2) Jesus, quando encarnou não perdeu nenhum dos atributos essenciais da Divindade, visto que isso é impossível; e 3) a encarnação não eclipsou nenhum dos atributos de Jesus. É verdade que a sua natureza humana limitou alguns de seus atributos. Ainda assim, isso é completamente diferente de se afirmar que Jesus não tinha poder para curar ninguém.
Ao longo de todo o livro, a impressão que o autor deixa é que Jesus ainda se encontra limitado por sua natureza humana, desempenhando o papel de um admirador embasbacado de sua própria criação, datada de uma época distante, quando ele era o Verbo.[10]

2.3. NEGAÇÃO DO CONCEITO BÍBLICO DE AUTORIDADE
Outro grave problema exposto em A Cabana é a negação do conceito bíblico de autoridade, como sendo uma instituição divina. William Young expressa por meio de uma ficção sua convicção de que o conceito de autoridade é algo estranho a Deus, tratando-se, na verdade, de uma mera convenção humana. Mais uma vez, transcrevo parte de um diálogo:

- Os humanos estão tão perdidos e estragados que para vocês é quase incompreensível que as pessoas possam trabalhar ou viver juntas sem que alguém esteja no comando.
- Mas qualquer instituição humana, desde as políticas até as empresariais, até mesmo o casamento, é governada por esse tipo de pensamento. É a trama do nosso tecido social – declarou Mack.
- Que desperdício! – disse Papai, pegando o prato vazio e indo para a cozinha.
- Esse é um dos motivos pelos quais é tão difícil para vocês experimentar o verdadeiro relacionamento – acrescentou Jesus. – Assim que montam uma hierarquia, vocês precisam de regras para protegê-la e administrá-la, e então precisam de leis e da aplicação das leis, e acabam criando algum tipo de cadeia de comando que destrói o relacionamento, em vez de promovê-lo. Raramente vocês vivem o relacionamento fora do poder. A hierarquia impõe leis e regras e vocês acabam perdendo a maravilha do relacionamento que nós pretendemos para vocês.
[11]

Que conceito pernicioso! Contraria passagens bíblicas como Romanos 13.1-7, que afirma que as autoridades foram constituídas por Deus, e Efésios 5.21-6.9, que apresenta o mandamento apostólico inspirado acerca da autoridade e submissão que devem existir nos relacionamentos interpessoais. Um pouco mais adiante, o livro exala um forte odor marxista, quando William Young escreve: “A autoridade, como vocês geralmente pensam nela, é meramente a desculpa que o forte usa para fazer com que os outros se sujeitem ao que ele quer”.[12]
É preciso que se enfatize que o princípio de autoridade não é uma mera convenção humana, que tenha como objetivos a opressão e a servidão. A Bíblia, a Palavra de Deus, afirma categoricamente que, Deus instituiu o princípio de autoridade e constituiu magistrados para governarem a sociedade. Ademais, Deus instituiu a autoridade ao constituir Adão como vice-regente da criação, para governá-la como representante do Criador. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio...” (Gênesis 1.26). No que concerne aos relacionamentos, o princípio de autoridade também foi instituído por Deus desde cedo, quando ao criar Eva, Deus declarou que ela seria uma “auxiliadora idônea” (Gênesis 2.18), e quando, após a Queda, Deus proferiu as seguintes palavras a Eva: “... o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gênesis 3.16).

2.4. SOTERIOLOGIA PLURALISTA
Outra doutrina nociva ensinada no livro é uma espécie de soteriologia pluralista, ou seja, William Young ensina que não apenas a Igreja cristã é a beneficiária dos méritos da morte de Jesus Cristo. De acordo com ele, Jesus salva o indivíduo sem, necessariamente, trazê-lo para o seio da Igreja. Mais uma vez, é pertinente citar suas próprias palavras. A citação é longa, porém, necessária para se entender o contexto:

- Mack, eu as amo. E você comete um erro julgando-as. Devemos encontrar modos de amar e servir os que estão dentro do sistema, não acha? Lembre-se, as pessoas que me conhecem são aquelas que estão livres para viver e amar sem qualquer compromisso.
- É isso que significa ser cristão? – Achou-se meio idiota ao dizer isso, mas era como se estivesse tentando resumir tudo na cabeça.
- Quem disse alguma coisa sobre ser cristão? Eu não sou cristão.
A idéia pareceu estranha e inesperada para Mack e ele não pôde evitar uma risada.
- Não, acho que não é.
Chegaram à porta da carpintaria. De novo Jesus parou.
- Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa. Tenho seguidores que foram assassinos e muitos que eram hipócritas. Há banqueiros, jogadores, americanos e iraquianos, judeus e palestinos. Não tenho desejo de torná-los cristãos, mas quero me juntar a eles em seu processo para se transformarem em filhos e filhas do Papai, em irmãos e irmãs, em meus amados.
[13]

Depois de ler estas palavras, algumas perguntas gritam para ser feitas: Os que amam a Jesus Cristo estão em todos os sistemas? Existem budistas que amam a Jesus? Mórmons? Jesus não possui o desejo de trazer os seus para fazerem parte do seu Corpo Místico? É possível que alguém seja salvo por Jesus Cristo e viva sem fazer parte da sua Igreja? Qual o conceito de Igreja esposado por William Young?
Infelizmente, percebe-se nas palavras do autor de A Cabana um desprezo por aquela que nas Escrituras é chamada de “a noiva, a esposa do Cordeiro” (Apocalipse 21.9). Além disso, mesmo negando, William Young acaba ensinando que “todas as estradas levam” a Deus.[14] O conceito de que, fora da Igreja não há salvação é menosprezado e negado pelo autor desta obra infame.[15]
Muitas outras heresias poderiam ser apontadas, como por exemplo, o conceito libertário da vontade, segundo o qual, os homens são completamente livres para amar ou deixar de amar a Jesus. Em toda a obra, o autor afirma que seguir a Cristo, amá-lo e obedecê-lo é pura e simplesmente, uma questão da vontade. Com isso, ele se posiciona ao lado de heresias como o pelagianismo, o semipelagianismo e o arminianismo. Na página 205 há algo muito sutil que passa despercebido por muitos. Na verdade, alguns leitores chegam ao ponto de achar meigo e doce. Num determinado momento, Jesus vem até onde Mack e Papai estão, e dá um beijo nos lábios deste. O ponto é que tal beijo acontece apenas depois que Deus, o Pai deixa a forma feminina e assume a forma masculina. É tão sutil o que aparece nas páginas que muitos incautos lêem e não percebem o que está sendo sugerido.

III – CONCLUSÃO
Os conceitos heterodoxos e perniciosos apresentados por William P. Young, no seu livro A Cabana, são muitos. Foram apresentados aqui apenas alguns. A conclusão à qual se pode chegar é que se trata de uma obra extremamente perigosa, que tende a formar a opinião das pessoas de maneira errada, completamente diferente daquilo que é apresentado pelas Sagradas Escrituras. Trata-se de um livro extremamente perigoso e nocivo, que está sendo amplamente consumido pelas pessoas, inclusive por evangélicos. É impressionante como na cidade onde moro (Marabá-PA), o livro pode ser encontrado até mesmo nas livrarias evangélicas. As pessoas lêem o livro, mas não conseguem discernir o que possuem em mãos. Muitas chegam a dizer que foram extremamente abençoadas ao lerem A Cabana. Sinceramente, não sei como alguém pode ser abençoado no erro e no engano.
O pior é perceber que o livro é endossado por líderes evangélicos e pastores. Na contra-capa há uma afirmação assustadora do cantor gospel canadense Michael W. Smith: “Esta história deve ser lida como se fosse uma oração – a melhor forma de oração, cheia de ternura, amor, transparência e surpresas. Se você tiver que escolher apenas um livro de ficção para ler este ano, leia A Cabana”. Isso induz muitos analfabetos funcionais ao erro. Também encontramos pastores que recomendam o livro de forma entusiasmada. Minha tristeza ao constatar tais fatos é enorme, pois percebo o quanto os ditos evangélicos se distanciaram das Sagradas Escrituras e abraçaram outras coisas em nada abençoadoras.
As pessoas lêem o livro, mas não procuram conhecer mais a respeito do autor, de suas convicções, não lêem imbuídas de um espírito crítico. Para que todos tenham uma idéia, o livro de William P. Young foi rejeitado nos Estados Unidos por todas as editoras cristãs e seculares. As editoras seculares o rejeitaram porque falava muito em Jesus. Já as cristãs por considerarem-no herético. Para que o livro pudesse ser publicado, Young, juntamente com alguns amigos teve que fundar sua própria editora. Aqui no Brasil, o livro foi publicado pela mesma editora de O Código da Vinci e de outras obras nada ortodoxas. Isso já deveria servir como uma espécie de alerta, mas não serve. As pessoas imaginam que porque um livro fala em Deus e em Jesus Cristo, necessariamente, trata-se de algo saudável. Alan Kardec também fala em Deus e em Jesus! Não estranharei se daqui a alguns anos líderes e pastores endossarem efusivamente os escritos espíritas às suas ovelhas.
Por essas e outras é que afirmo que o discernimento foi assassinado em uma Cabana!
Kyrie Eleison!

[1] William P. Young, A Cabana, (Rio de Janeiro: Sextante, 2008), 73.
[2] Ibid, 19.
[3] Ibid, 74.
[4] Ibid, 75.
[5] Ibid, 83.
[6] CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), 143-144.
[7] Johannes Geerhardus Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado, (São Paulo: Os Puritanos, 2007), 344.
[8] Afirmação feita por um ardoroso defensor da abominação em questão.
[9] William P. Young, A Cabana, 90.
[10] Ibid, 100.
[11] Ibid, 112.
[12] Ibid.
[13] Ibid, 168-169.
[14] Ibid, 169.
[15] É importante que o leitor compreenda que, ao fazer esta citação não estou defendendo o conceito católico romano de que, fora da Igreja Católica Apostólica Romana não há salvação. O ponto enfatizado é que, aqueles que forem salvos por Jesus Cristo, inevitavelmente serão trazidos para juntos da sua noiva, o seu Corpo Místico, a Igreja.

sábado, 11 de julho de 2009

SOBRE JOÃO CALVINO


Ainda em alusão aos 500 anos do Reformador de Genebra, transcrevo abaixo alguns testemunhos de estudiosos conhecedores da História. Primeiramente, elencarei estudiosos brasileiros e, posteriormente, estudiosos estrangeiros:

DR. ALDERI SOUZA DE MATOS: “Calvino é considerado não só o pensador mais articulado e fecundo entre os reformadores protestantes, mas uma das mentes formadoras do mundo moderno”.[1]

DR. HERMISTEN MAIA PEREIRA DA COSTA: “Calvino, com sua vida e ensinamentos, contribuiu para forjar um tipo novo de homem: o reformado, que vive, no tempo, a plenitude do seu tempo para a glória de Deus! Portanto, ‘o verdadeiro discípulo de Calvino só tem um caminho a seguir: não obedecer ao próprio Calvino, mas Àquele que era o mestre de Calvino’”.[2]

REV. WILSON SANTANA SILVA: “Segundo um pensador francês, Calvino deve ser considerado o ‘pai de uma civilização’. Ao longo dos séculos o calvinismo tem despertado muitas consciências e influenciado nações inteiras. São notórias as mudanças que ele provocou na Suíça, Holanda e Escócia, entre outras nações”.[3]

REV. RICARDO QUADROS GOUVÊA: “Dizer que Calvino foi um grande teólogo soa como um eufemismo tímido e impróprio. É bastante provável que Calvino tenha sido o maior e principal teólogo cristão de todos os tempos. Tivesse toda a obra dele se perdido, e nos restassem apenas as suas cartas, ainda assim ele teria de ser considerado um grande teólogo. Não é exagero afirmar que a história da teologia pode ser dividida em: ‘pré-calvinista’ e ‘pós-calvinista’”.[4]

DR. ARMANDO ARAÚJO SILVESTRE: “Calvino foi também um homem com um pé no século XV e outro no século XVII. Sua qualidade linguística clássica, sua vontade de chegar à essência num sentido pré-cartesiano. Um picardo, homem do norte da França, nunca um legítimo genebrês ou renascentista no sentido pagão e mediterrâneo do termo. Seguiu o modelo de Sêneca, não o de Epicuro. Um corpo enfermo dentro de sua total austeridade de um admirador das estrelas, da majestade admirável de Deus... Viveu com autenticidade e morreu sem pompas, e o mundo todo ainda fala dele, 500 anos depois”.[5]

REV. WILSON DE CASTRO FERREIRA: “João Calvino era, indubitavelmente, um homem de excepcionais dons de inteligência e caráter, que nem mesmo alguns dos seus mais tenazes inimigos ousam negar. No entanto, a sua constituição física, já de si mesma frágil, foi dominada por enfermidades tantas e tão inquietantes, capazes de tirar a calma, o equilíbrio e a vontade de viver e trabalhar mesmo ao mais paciente dos mortais. Por outro lado, possuía a humildade necessária para lamentar diante de Deus e perante os amigos mais íntimos seus resvalos e fraquezas. A respeito dele poderíamos dizer, parodiando o apóstolo São Paulo: ‘Onde abundou a fraqueza, superabundou a graça’. Daí o nome que lhe foi dado por outras razões, mas que tão providencialmente se lhe assenta João, que quer dizer, a graça de Deus. Um homem sim, chamado João, exemplificação autêntica da superabundante graça que supre as faltas da nossa fraqueza humana”.[6]

REV. EDUARDO GALASSO FARIA: “Da obra realizada por este servo de Deus cresceu uma árvore que se tornou frondosa, tendo frutificado nos mais diferentes lugares e épocas desde então. Vista à distância, esta caminhada histórica aponta para a existência de uma espiritualidade cristã vigorosa que, como dom precioso é acima de tudo e em primeiro lugar, motivo de gratidão”.[7]

RONALD WALLACE: “Ele vivia de acordo com sua oração para que Deus o capacitasse a viver de maneira coerente com seu ensino. Sua vida era transparente diante das outras pessoas. Ele escreveu ao seu confesso pior inimigo na cidade, desafiando-o a examinar toda sua vida e sua obra e afirmando que esse exame minucioso não iria garantir nada senão mais uma prova de sua integridade: ‘Você mesmo sabe... que sou uma pessoa para quem a lei de meu Mestre Celestial é tão querida que a causa de nenhum homem sobre a face da terra irá induzir-me a deixar de manter isso com uma consciência pura’”.[8]

STEVEN J. LAWSON: “Com exceção dos homens usados por Deus para escrever a Bíblia, Calvino é ainda hoje o mais influente ministro da Palavra de Deus que o mundo já viu. Nenhum homem antes ou depois dele foi tão prolífico e tão profundo no lidar com as Escrituras. O discernimento exegético de Calvino trata da maior parte do Antigo Testamento e de todo o Novo Testamento, com exceção de Apocalipse. Para a maioria das pessoas, ele permanece como o maior comentador bíblico de todos os tempos. Em seu leito de morte, quando recapitulou suas muitas conquistas, Calvino mencionou seus sermões em vez de falar dos seus vastos escritos. Para Calvino, pregar era a tarefa mais importante”.[9]

THEODORE BEZA: “Por ter sido um espectador de sua conduta durante dezesseis anos, tenho dado fiéis informações sobre sua vida e morte, e posso declarar que nele todos os homens podem ver o mais belo exemplo de caráter cristão, um exemplo que é tão fácil de caluniar quanto difícil de imitar”.[10]

BENJAMIM B. WARFIELD: “Eis o segredo da grandeza de Calvino e a fonte de sua força revelada a nós. Homem algum jamais teve um senso mais profundo de Deus do que ele. Homem algum jamais se rendeu totalmente à direção divina como ele o fez”.[11]

JACOBUS ARMINIUS: “João Calvino está um nível acima de qualquer comparação, no que diz respeito à interpretação da Escritura. Os seus comentários precisam ser muito mais valorizados do que qualquer dos escritos que recebemos dos pais da igreja”.[12]

RICHARD BAXTER: “Não conheço outro homem, desde os dias dos apóstolos, que eu valorize e honre mais do que João Calvino. Eu me aproximo e tenho grande estima de seu juízo sobre todas as questões e sobre seus detalhes”.[13]

ANDRÉ BIÉLER: “No decurso dos vinte séculos da história cristã, houve poucos homens eminentes que suscitaram tão abundante literatura e tão ardentes polêmicas quanto o reformador João Calvino. Sua atuação e seu pensamento têm sido analisados e criticados sob quase todos os ângulos e em todas as línguas; e a influência deste homem de qualidades tão variadas tem sido tão poderosa e tão penetrante, em tantas esferas, que ele continuará ainda por muito tempo a exercer seu impacto e a despertar o interesse de uns e a hostilidade de outros”.[14]

LORD BOLINGBROKE[15]: “Pegou-me lendo João Calvino. Era realmente um homem de grandes qualidades, profundo bom senso, e vasta erudição. Trata com grande maestria as doutrinas da graça... Essas doutrinas certamente são as doutrinas da Bíblia; e se eu acreditasse na Bíblia, teria de acreditar nelas. E deixe-me dizer-lhe, com seriedade, que o maior milagre no mundo é a subsistência do cristianismo e sua continuada preservação, embora a pregação dele se ache entregue aos cuidados de miseráveis patifes como você”.[16]

Acredito que basta. Quer conhecer mais sobre João Calvino? Pois bem, procure ler Calvino. Não se contente em formar uma opinião a seu respeito apenas por meio do que outros falam. Garanto que você encontrará pessoas que o elogiam e também encontrará pessoas que, aparentemente, vivem num vácuo existencial e histórico, que por pura ignorância e preconceito, dizem asneiras a respeito do Reformador de Genebra. Por isso, leia as obras de João Calvino!


[1] Alderi Souza de Matos, Fundamentos da Teologia Histórica, (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), 161.

[2] Hermisten Maia Pereira da Costa, Calvino de A a Z, (São Paulo: Vida, 2006), 51.

[3] Ibid, 9.

[4] Da Apresentação de: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, (São Paulo: Fonte Editorial, 2008), 9.

[5] Armando Araújo Silvestre, Calvino: O Potencial Revolucionário de um Pensamento, (São Paulo: Vida, 2009), 146.

[6] Wilson de Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, (Campinas: Luz para o Caminho, 1984), 29.

[7] Da Introdução de: João Calvino, Textos Escolhidos, (São Paulo: Pendão Real, 2008), 5.

[8] Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), 241.

[9] Steven J. Lawson, A Arte Expositiva de João Calvino, (São José dos Campos: Fiel, 2008), 17.

[10] Theodore Beza, The Life of John Calvin, (Edinburgh: Back Home Industries, 1996), 117.

[11] Citado em Steven J. Lawson, A Arte Expositiva de João Calvino, 45.

[12] Citado por F. Solano Portela no Prefácio de: João Calvino, 2 Coríntios, (São José dos Campos: Fiel, 2008), 11.

[13] Ibid, 12.

[14] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990), 27.

[15] Lord Bolingbroke é descrito por Augustus M. Toplady como “o célebre incrédulo”. O contexto de suas palavras foi quando um clérigo, amigo do Lorde lhe fez uma visita.

[16] Citado em J. P. Willes, Ensino Sobre o Cristianismo, (São Paulo: PES, 2002), 312.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A PROPÓSITO DO QUINCENTENÁRIO DE JOÃO CALVINO



“Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere”.[1]

O dia de hoje (10 de julho de 2009) marca o aniversário de 500 anos do nascimento do reformador francês Jean Cauvin, ou como é popularmente conhecido no Brasil e nos demais países lusófonos, João Calvino. Trata-se de uma data importante para o protestantismo mundial, especialmente, para os protestantes da tradição reformada ou calvinista. Exatamente há 500 anos (10 de julho de 1509) nasceu na cidade francesa de Noyon, região da Picardia, aquele que, anos mais tarde, seria alcunhado com justiça de “A Mente da Reforma” ou “O Exegeta da Reforma”.[2] Isso devido ao fato de que, no que concerne à Reforma Protestante, podemos afirmar que, enquanto Lutero foi o desbravador e iniciador, João Calvino foi o sistematizador e grande organizador do movimento.

Não tenho o propósito de escrever um post que se constitua numa obra-prima sobre Calvino. Até porque, mesmo que tal fosse o meu intento, deparar-me-ia com dois enormes problemas: 1) a impossibilidade, pois um blog é um espaço por demais pífio e diminuto; e 2) a incapacidade, pois o gênio de Calvino é incompreendido até mesmo pelos seus mais ilustres biógrafos. No entanto, quero aqui apenas apresentar minha gratidão a Deus pela figura histórica e notável do Reformador de Genebra.

Calvino aparece elencado na História do Cristianismo como um dos grandes teólogos que já existiram. De acordo com a minha leitura da história (há quem discorde, e para isso tem total liberdade!), ele aparece como o terceiro maior teólogo que o Cristianismo já produziu, ficando atrás do apóstolo Paulo e de Agostinho de Hipona. Como tal, Calvino foi um gigante, e como afirma o Prof. Armando Araújo Silvestre, “os gigantes do passado tornaram-se paradigmas para o presente o futuro”.[3] Todavia, creio que a importância de João Calvino como paradigma para o protestantismo brasileiro ainda não foi devidamente compreendida. Para a grande maioria dos evangélicos brasileiros Calvino ainda permanece nas sombras, como uma figura desconhecida.

Particularmente, como presbiteriano que sou, sinto-me triste por perceber como mesmo em nosso meio jaz uma verdadeira ignorância quanto ao nosso passado. Mais triste ainda é perceber no meio presbiteriano alguns traços de descaso e desrespeito para com o legado deixado por Calvino. Mais uma vez, valho-me das palavras do Prof. Armando para expressar minha tristeza:

A triste constatação de que nem mesmo os que se dizem fiéis calvinistas conhecem algo de substancial desse reformador universal chega a estarrecer. Há mesmo alguns que se dizem guardiães da herança deixada por Calvino, mas que não conseguem passar de meras citações a favor ou contra, com acusações pesadas ou defesas apaixonadas. Leitura e compreensão para acusar ou defender? Quase nada. Conhecimento? Praticamente nulo.[4]

É no mínimo curioso que Jabocus Arminius, considerado como o grande antagonista de Calvino, tenha demonstrado duas coisas que muitos dos seus pretensos “herdeiros” não demonstram: respeito e consideração. Segundo Arminius, “João Calvino está um nível acima de qualquer comparação, no que diz respeito à interpretação da Escritura. Os seus comentários precisam ser muito mais valorizados do que qualquer dos escritos que recebemos dos pais da igreja”.[5]

É preciso enfatizar que, Calvino não inventou nada, nenhuma doutrina, nenhuma prática. Ele simplesmente identificou, de forma hábil, o que já se encontrava registrado de forma inspirada nas Sagradas Escrituras. Ele não inventou a doutrina da predestinação, como alguns sugerem. Apenas expôs o que a Bíblia traz em seu escopo sobre este assunto. Ele também não inventou o assassinato por motivações religiosas, como alguns o acusam como principal responsável pela morte do médico espanhol Miguel Serveto (1553). Com tanta informação disponível sobre este incidente, é de admirar que ainda hoje existam indivíduos que o difamem por causa disso. Tais apedeutas ignóbeis e obtusos desconhecem que Serveto já havia sido condenado pela Igreja Católica Romana e era caçado pela Inquisição, tendo fugido da cidade francesa de Vienne. É importante que se diga, que Calvino, apesar de não ter sido responsável pela morte de Serveto, consentiu com a sua morte. O problema é que os opositores de Calvino o apresentam como um desalmado violento e excessivamente cruel. Ele pode ser acusado de intolerância, não de crueldade. Eis suas palavras sobre o assunto numa carta a Guilherme Farel: “Espero que Serveto seja condenado à morte, mas desejo que seja poupado da atrocidade da pena”.[6] Pena que o Pequeno Conselho (Petit Conseil) de Genebra não tenha dado ouvidos a Calvino. Sem querer me estender muito nesse assunto, penso que será elucidativo lembrar que, de acordo com Alister McGrath, os habitantes de Genebra eram divididos em três grupos distintos: 1) os citoyens ou cidadãos, grupo composto por aqueles que nasceram e foram batizados em Genebra e eram filhos de outros citoyens; 2) os bourgeois ou burgueses, grupos composto por pessoas abastadas que tinham condições de adquirir ou negociar o título de bourgeois; e 3) os habitants ou habitantes, que não se enquadravam nessas duas categorias, porém, eram estrangeiros que residiam legalmente na cidade, com nenhum direito a voto, de portar armas ou de assumir qualquer posto público na cidade. Calvino não era suíço, era francês, portanto, um estrangeiro. No caso de Serveto, “como um mero habitant, ele era rigorosamente excluído da administração da justiça civil e criminal”.[7] Coloco a próxima frase em letras garrafais na tentativa de ajudar os analfabetos funcionais de plantão a compreenderem a História: QUEM CONDENOU E EXECUTOU SERVETO FOI O PEQUENO CONSELHO DE GENEBRA, DO QUAL CALVINO NÃO FAZIA PARTE!

É preciso dizer também que, Calvino não é o pai do capitalismo selvagem, como frequentemente é afirmado. Em parte, isso é devido à interpretação confusa que Max Weber faz da ética calvinista sobre o trabalho, e, em parte, isso também é uma consequência de inúmeras interpretações bestiais da obra de Weber. Calvino não trouxe o capitalismo para Genebra. Pelo contrário, quando chegou a Genebra, Calvino já encontrou uma cidade aquecida pelo comércio e com toda a estrutura ideal para o desenvolvimento do sistema capitalista. A gênese do capitalismo genebrino remonta a meados do século XV, portanto, é anterior a Calvino.

João Calvino foi, na realidade, unus de plebe (um do povo comum).[8] Ele foi um homem devoto a Deus; um homem que apresentou seu coração “pronto e sincero” ao Senhor. Ele foi grandemente usado por Deus para organizar o movimento da Reforma Protestante e transformar toda uma cidade. Em Genebra, sua influência foi exercida primariamente por sua dedicação à pregação. Seu único desejo era servir ao Senhor, como ele mesmo afirmou: “Basta-me viver e morrer por Cristo, o qual é lucro para todos os seus seguidores, tanto na vida como na morte”.[9] Logicamente, ele não foi perfeito. Ele também teve de lutar com os seus próprios pecados, os quais lhe eram tão evidentes. No entanto, como um vaso nas mãos do oleiro, foi usado para levar a fiel pregação da Palavra a um povo faminto e carente. A influência de João Calvino ainda hoje pode ser sentida na teologia, educação, política e economia.

A importância de João Calvino para nós reside no fato de que, ele nos deu um notável exemplo do que é viver para a glória de Deus somente. Diferentemente do que acontece na grande maioria das igrejas evangélicas do nosso tempo, não encontramos no pensamento e na vida de Calvino nenhuma tentativa de fazer algo dissociado da vontade de Deus revelada nas Sagradas Escrituras. Somos herdeiros de uma tradição riquíssima, amplamente fundamentada na Palavra. Precisamos valorizar (que ninguém entenda isso como idolatrar!) mais o legado deixado a nós por este servo de Deus.

Pessoalmente, sinto-me duplamente abençoado por Deus: por pertencer ao ramo do Cristianismo Protestante conhecido como Calvinismo, e também por ter tido a graça de nascer no mesmo dia em que nasceu João Calvino, 10 de julho. Parabéns pra mim duas vezes!

SOLI DEO GLORIA!

[1] “A ti, ó Deus, ofereço o meu coração, pronto e sincero”.

[2] Hermisten Maia Pereira da Costa, Raízes da Teologia Contemporânea, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 136.

[3] Armando Araújo Silvestre, Calvino: O Potencial Revolucionário de um Pensamento, (São Paulo: Vida, 2009), 19.

[4] Ibid.

[5] Citado por Solano Portela Neto no prefácio do comentário de 2 Coríntios, (São José dos Campos: Fiel, 2008), 11.

[6] Eduardo Galasso Faria (org.), João Calvino: Textos Escolhidos, (São Paulo: Pendão Real, 2008), 224.

[7] Alister McGrath, A Vida de João Calvino, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 138.

[8] João Calvino, Cartas de João Calvino, (São Paulo: Cultura Cristã, 2009), 13.

[9] Ibid, 23.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

NÃO SE ESQUEÇA DA RESSURREIÇÃO



John MacArthur

Em 1874, um ministro batista chamado Robert Lowry redigiu um dos mais comoventes hinos e que muito exaltou a ressurreição de Jesus Cristo – “Fundo, no túmulo, Ele deitou”. Note como estes versos contrastam a impotência da morte e do sofrimento com o poder da ressurreição de Cristo:

Fundo, no túmulo, Ele deitou, Jesus, meu Salvador;
À véspera do dia seguinte, Jesus, meu Senhor!
Em vão observam o leito de Jesus, meu Salvador;
Em vão, eles selam o morto, Jesus, meu Senhor!
A morte não pode deter sua presa, Jesus, meu Salvador;
Ele rompeu as barreiras, Jesus, meu Senhor!

A morte, o mais terrível inimigo do homem, não tem poder para reinar sobre o Senhor da vida. Essa verdade tem significado para você e para mim, aqui e agora, no vigésimo primeiro século. Você pode ver isto na parte mais emocionante e comovente do hino de Lowry, o refrão que pontua cada estrofe.

Do túmulo, Ele ergueu-se,
Com um poderoso triunfo sobre seus inimigos,
Ele ergueu-se, como um conquistador,
Vencendo o domínio da escuridão
Ele vive para sempre, com seus santos a reinar.
Ele levantou-se! Ele levantou-se!
Aleluia! Cristo ressuscitou!

Você vê nestas linhas o que a ressurreição de Jesus significa para você? Se você é um cristão, pode se regozijar no fato de que Cristo levantou-se dos mortos como um conquistador, um campeão que vive para sempre, para reinar “com seus santos”. Isso se refere à promessa baseada em nosso batismo na morte e ressurreição em Cristo – é a nossa esperança e a razão e base de tudo o que cremos.

Mas, e se não houve a ressurreição? E, se a ressurreição de Jesus Cristo é apenas um mito do primeiro século a ser ignorado ou marginalizado como uma questão secundária? As implicações dessa abordagem são devastadoras para o cristianismo.

Chamo sua atenção ao que Paulo escreveu em 1 Coríntios 15.16-19, de modo que você possa ver o que acontece quando esquece a ressurreição.

Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.

Sem dúvida, se Jesus ainda está no túmulo, se Ele é perpetuamente o sofredor e nunca, o conquistador, então você e eu estamos desesperadamente perdidos. E, embora esse não seja o caso, quero focalizar no hipotético “e, se” que Paulo presume temporariamente, em 1 Coríntios 15. “E, se a ressurreição fosse um mito? E, se Jesus Cristo ainda estivesse morto e no túmulo?”

Em primeiro lugar, vocês ainda estariam em seus pecados, sob a tirania da morte, juntamente com o mais vil e incrédulo pagão. Se Jesus não ressuscitou dos mortos, então, o pecado ganhou a vitória sobre Ele e continua a ser vitorioso sobre você também. Se Jesus permaneceu no túmulo, então, quando você morrer haverá de permanecer morto. Além do mais, visto que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23), se você tivesse de permanecer morto, a morte e a punição eterna seriam o seu futuro.

A razão de confiarmos em Cristo é para perdão de pecados. Porque é do pecado que precisamos ser salvos. “Cristo morreu pelos nossos pecados” e “foi sepultado, e... ressuscitou ao terceiro dia” (1 Co 15.3-4). Se Cristo não ressuscitou, sua morte foi em vão, sua fé nEle seria sem sentido, e seus pecados ainda seriam contados contra você e não haveria nenhuma esperança de vida espiritual.

Segundo, se não há ressurreição, então, “ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram” (v. 18). Isso significa que todo santo do Antigo Testamento, e todo santo desde que Paulo escreveu estaria sofrendo em tormento neste exato momento. Isso incluiria o próprio Paulo, os outros apóstolos, Agostinho, Lutero, Calvino, Wesley, Moody, e os santos de fé e oração que você conheceu – todo e qualquer crente, em todas as eras, também estaria no inferno. Sua fé teria sido em vão, seus pecados não teriam sido perdoados, e seu destino seria a condenação.

À luz das outras consequências, a última é bem óbvia: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Sem a ressurreição de Cristo, a salvação e as bênçãos que ela traz, o cristianismo seria sem sentido e lamentável. Sem a ressurreição não teríamos o Salvador, o perdão e o evangelho, jamais teríamos a fé significativa, nem a vida, e nunca poderíamos ter esperança por alguma dessas coisas.

Esperar em Cristo somente nesta vida seria ensinar, pregar, sofrer, sacrificar-se, e trabalhar inteiramente por nada. Se Cristo ainda está morto, então Ele somente não tem habilidade de salvar você no futuro, mas Ele também não pode lhe ajudar agora. Se Ele não estivesse vivo, onde estaria sua fonte de paz, alegria ou satisfação hoje? A vida cristã seria uma galhofa, uma farsa, uma piada cruel e trágica. Os cristãos sofreriam e até morreriam porque a fé seria apenas tão cega e patética quanto a daqueles “crentes” que seguiram Jim Jones e o Templo do Povo, David Koresh e as Raízes Davídicas, e Marshall Applewhite e a seita do Portão do Céu.

Se o cristão não tem um Salvador, senão Cristo; um Redentor, senão Cristo; e um Senhor, senão Cristo; e, se Cristo não é ressurreto, Ele não está vivo; nesse caso, a nossa vida cristã é sem vida. Nós nada teríamos para justificar nossa fé, nosso estudo bíblico, nossa pregação ou testemunho, nossa adoração e serviço de culto a Ele, e nada para justificar nossa esperança nesta vida ou na próxima. Nós nada mereceríamos, senão a compaixão reservada para os tolos.

Mas, Deus sim ressuscitou “dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4.24-25). Porque Cristo vive, nós também viveremos (Jo 14.19). “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.30-31).

Não somos dignos de pena, pois Paulo imediatamente encerra a terrível seção “e, se”, dizendo: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1 Co 15.20). Como Paulo disse, no final de sua vida, “sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito [i.e. sua vida] até aquele Dia” (2 Tm 1.12).

Aqueles que não esperam somente em Cristo para salvação são verdadeiros tolos; eles são os que precisam ouvir seu testemunho compassivo sobre o triunfo da ressurreição de Cristo. Então, não esqueça a ressurreição; regozije-se nela e glorie-se nela, pois Ele ressuscitou de fato.

Extraído da Revista Fé para Hoje, nº 34 – Jun/2009, 30-32.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

RUI BARBOSA E O LADRÃO[1]


Abrindo um parêntese nas elucubrações teológicas...


Ontem (05/07/2009), por ocasião do final do Culto Público na Igreja Presbiteriana Filadélfia, igreja da qual sou pastor, duas ovelhas minhas muito queridas (Ana Paula e Salma) interpelaram-me a respeito do significado de uma palavra existente no final do post anterior[2]. Elas brincaram, afirmando que para ler o meu blog é necessário ter um dicionário em mãos. Tudo isso por causa da palavra “sequazes”, que, na verdade, significa “seguidores” e é uma tradução livre do inglês “followers”, presente na edição em inglês de O Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã.

Depois de rirmos com o comentário, e já em minha casa, senti o desejo de escrever algo que, de fato, exigisse a presença de um dicionário em mãos. Queria ver a reação delas depois. Lembrei de uma piada que li na ótima Revista Língua, periódico que analisa questões pertinentes à língua portuguesa. Tal piada tem como personagem principal o jurista brasileiro Rui Barbosa e brinca com os excessos da linguagem culta na fala cotidiana. Transcrevo-a a seguir, visando proporcionar deleite às minhas duas queridas “ovelhinhas” e aos demais leitores do blog:

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal.
Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao atentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fofórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, diz:
- Dotô, resuminu, eu levu ou deixu’s pato?

Pois bem, Salma e Ana Paula, enjoy it! Não fiquem neurastênicas!
Amo vocês em Cristo!

P.S.: NÃO ESQUEÇAM O DICIONÁRIO!


[1] Extraído da Revista Língua, edição nº 43, de Maio de 2009.

[2] “Em Terra de Sapos, de Cócoras com eles”.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...