quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A IGREJA VERSUS O MUNDO

John MacArthur

Por que os evangélicos tentam cortejar desesperadamente o favor do mundo? As igrejas planejam seus cultos com o objetivo de agradar as pessoas que não freqüentam qualquer igreja. Artistas cristãs imitam todas os estilos efêmeros do mundo tanto na música como no entretenimento. Os pregadores estão horrorizados com o fato de que a ofensa do evangelho pode colocar alguém contra eles, por isso omitem deliberadamente partes da mensagem que o mundo não aprovara.
O evangelicalismo parece ter sido seqüestrado por legiões de porta-vozes carnais que estão fazendo o melhor que podem para convencer o mundo de que a igreja pode ser tão inclusiva, pluralista, mente aberta como as pessoas mais mundanas.
A busca pela aprovação do mundo é o mesmo que prostituição espiritual. De fato, essa foi exatamente a figura que o apóstolo Tiago usou para descrevê-la. Ele escreveu: "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tiago 4.4).
Sempre existiu e existirá uma incompatibilidade fundamental entre a igreja e o mundo. O pensamento cristão não se harmoniza com todas as filosofias do mundo. A fé genuína em Cristo envolve uma negação de todos os valores mundanos. A verdade bíblica contradiz todas as religiões do mundo. O cristianismo é, por essa razão, oposto a quase tudo que este mundo admira.
Jesus disse aos seus discípulos: "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia" (João 15.18-19).
Observe que nosso Senhor considerou uma realidade absoluta o fato de que o mundo desprezaria a igreja. Em vez de ensinar seus discípulos a tentarem conquistar o favor do mundo, por reformularem o evangelho, para que este se adequasse às preferências do mundo, Jesus advertiu expressamente que a busca pelos louvores do mundo é uma característica dos falsos profetas: "Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porque assim procederam seus pais com os falsos profetas" (Lucas 6.26).
Depois, ele esclareceu: "O mundo... me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más" (João 7.7). Em outras palavras, o desprezo do mundo para com o cristianismo origina-se de motivos morais, e não intelectuais: "O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras" (João 3.19-20). Essa é a razão por que, não importando quão profundamente diversa seja a opinião do mundo, a verdade cristã nunca será popular no mundo.
No entanto, em quase toda a era da história da igreja, tem havido pessoas na igreja que estão convencidas de que a melhor maneira de ganhar o mundo para Cristo é satisfazer os gostos do mundo. Essa maneira de agir sempre trouxe detrimento à mensagem do evangelho. As únicas épocas em que a igreja causou impacto significante no mundo foram aquelas em que o povo de Deus permaneceu firme, recusou comprometer-se e proclamou com ousadia a verdade, apesar da hostilidade do mundo. Quando os cristãos se esquivaram da tarefa de confrontar as ilusões mundanas populares com as verdades bíblicas impopulares, a igreja perdeu a sua influência e mesclou-se impotentemente com o mundo. Tanto a Escritura como a história atestam esse fato.
E a mensagem cristã não pode simplesmente ser mudada para se conformar com as vicissitudes das opiniões do mundo. A verdade bíblica é fixa e constante, não sujeita a mudança ou adaptação. Por outro lado, a opinião do mundo está em fluxo constante. As tendências e as filosofias que dominam o mundo mudam radicalmente, com regularidade, de geração a geração. A única coisa que permanece constante é o ódio do mundo para com Cristo e o seu evangelho.
Com toda a probabilidade, o mundo não adotará por muito tempo qualquer ideologia em voga neste ano. Se o padrão da história serve como indicador, quando os nossos netos se tornarem adultos, a opinião do mundo será dominada por um sistema completamente novo de crença e todo um novo sistema de valores. A geração de amanhã renunciará todas as modas e filosofias passageiras de hoje. Todavia, uma coisa se manterá inalterada: até que o Senhor volte e estabeleça seu reino na terra, qualquer ideologia que ganha popularidade no mundo será hostil à verdade bíblica, como o foram as suas antecessoras.
Traduzido por: Wellington Ferreira
Copyright: John MacArthur Jr.
Editora FIEL 2009
Traduzido do original em inglês: The Church versus the World. Com a permissão do ministério Grace to You.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A MORTE DO DISCERNIMENTO EM UMA CABANA


Considerações sobre uma Heresia Celebrada e Amada por muitos, inclusive Evangélicos

“Enquanto tentava estabelecer algum equilíbrio interno, a raiva voltou a emergir. Energizado pela ira, Mack foi até a porta. Decidiu bater com força para ver o que acontecia, mas, no momento em que levantou o punho, a porta se escancarou e diante dele apareceu uma negra enorme e sorridente. Mack pulou para trás por instinto, mas foi lento demais. Com uma velocidade surpreendente para o seu tamanho, a mulher atravessou a distância entre os dois e o engolfou nos braços, levantando-o do chão e girando-o como se ele fosse uma criança pequena. E o tempo todo gritava o seu nome, Mackenzie Allen Phillips, com o ardor de alguém que reencontrasse um parente amado há muito perdido. Por fim, colocou-o de volta no chão e, com as mãos nos ombros dele, empurrou-o para trás, como se quisesse vê-lo bem”.[1]

I – SOBRE O LIVRO
O parágrafo acima é um trecho de um livro que alcançou o 1º lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times. Além disso, tem se mantido durante quarenta e três semanas seguidas na lista dos 10 mais vendidos da Revista Veja. Atualmente, figura como o 2º colocado. Trata-se do livro A Cabana, escrito por William P. Young, formado em Religião, nos Estados Unidos.
O que esse livro tem em seu escopo, que fez com que alcançasse grande sucesso, vendendo milhões de exemplares? O segredo reside no tratamento dado ao assunto que é comum a todos os seres humanos: o sofrimento. Ele conta a história de um homem de 56 anos, Mackenzie Allen Phillips, pai de cinco filhos e casado com Nannete A. Samuelson. Num determinado final de semana, Mack leva toda a família para um acampamento no Parque Estadual do Lago Wallowa, no estado americano do Oregon. Logo no dia seguinte, quando preparava café da manhã para os seus filhos, dois deles, Josh e Kate, pediram-lhe para dar um último passeio na canoa de um casal amigo. Com a permissão do pai, ambos empreenderam tal passeio. Porém, os dois se desequilibraram e viraram a canoa, o que fez com que Mack mergulhasse imediatamente para salvar Josh, que ficara preso embaixo da canoa. Nesse ínterim, sua filha mais nova, a pequena Missy foi sequestrada por um estranho. Uma longa e desgastante busca foi feita na tentativa de encontrar Missy. Seguindo algumas pistas, como relatos de que ela tinha sido vista numa picape verde, Mack e a equipe de busca chegaram a uma cabana em ruínas, onde encontraram o vestido da criança rasgado e encharcado de sangue.
A partir daí, Mack passou a enfrentar um sofrimento terrível (denominado no livro como Grande Tristeza) por conta do sumiço e subsequente assassinato de sua filhinha. Um emaranhado de sentimentos passou a acossá-lo, inclusive a revolta por Deus ter permitido tal brutalidade, e a culpa por ter se descuidado. Além disso, Mack sofria muito ao perceber como sua filha Kate estava cada vez mais distante e isolada. Ele queria ajudá-la, mas não sabia como.
A Grande Tristeza o acompanhou por alguns anos até que, durante uma tempestade, ao verificar a caixa de correio, Mack se deparou com um bilhete datilografado, com os seguintes dizeres: “Mackenzie, já faz um tempo. Senti sua falta. Estarei na cabana no fim de semana que vem, se você quiser me encontrar. Papai”.[2] Ao verificar a caixa de correio, Mack se deparou com um bilhete datilografado por Deus, convidando-o a ir até à cabana onde sua filhinha fora assassinada, para ali receber a cura para o seu sofrimento. Depois de relutar muito, Mack foi até lá, e ao chegar, deparou-se com a Trindade. O restante da narrativa mostra o desenrolar dos acontecimentos durante o final de semana em que Mack desfrutou da companhia das três Pessoas da Trindade e foi transformado em um novo homem.
Os objetivos de William Young ao escrever essa obra foram nobres e elogiáveis: 1) apresentar o conceito de que o sofrimento humano possui sentido; 2) ensinar que Deus usa o nosso sofrimento e a nossa dor com vistas a um propósito maior. O grande problema é que o autor, na tentativa de cumprir seus objetivos, lança mão de conceitos heterodoxos, heréticos, blasfemos e antibíblicos. O que segue é uma análise, ainda que perfunctória, à luz da teologia bíblico-reformada do conteúdo perigoso apresentado pelo livro A Cabana, que tem prestado um verdadeiro desserviço ao Cristianismo. Minha preocupação ao escrever esta resenha não é destruir o deleite das pessoas. Antes, parto de uma preocupação pastoral, visto que esse livro tem sido lido por pessoas da igreja onde sirvo, e endossado por líderes descomprometidos com uma saudável teologia bíblica. Não tenho como objetivo ensinar prisão mental e espiritual. Muito menos ensinar uma forma de obscurantismo tridentino, confeccionando um novo Index de livros proibidos. Minha intenção é ajudar as pessoas a discernirem o que está por trás do best-seller A Cabana.

II – CONCEITOS HERÉTICOS
2.1. FEMINIZAÇÃO DE DEUS
O primeiro grande problema apresentado no livro é a feminização de duas das três Pessoas da Trindade. Como pode ser observado na citação feita logo no início, Deus, o Pai, é apresentado como “uma negra enorme e sorridente”, chamada de Elousia. Já Deus, o Espírito santo, é descrito como “uma mulher pequena, claramente asiática”, chamada de Sarayu.[3] Deus, o Filho, Jesus, é o único que escapa da feminização. No entanto, ele é descrito como um homem “do Oriente Médio e se vestia como um operário, com cinto de ferramentas e luvas. Estava de pé, tranquilamente encostado no portal e com os braços cruzados, usando jeans cobertos de serragem e uma camisa xadrez com mangas enroladas acima dos cotovelos, revelando antebraços musculosos”.[4]
O inusitado é que Elousia, o Pai, diz a Mack o seguinte: “Mackenzie, eu não sou masculino nem feminina, ainda que os dois gêneros derivem da minha natureza. Se eu escolho aparecer para você como homem ou mulher, é porque o amo”.[5] O ponto é que na Bíblia não há nenhuma indicação de que Deus intente realizar esse tipo de coisa, visto que, primeiramente, ele é espírito, não podendo ser concebido a partir de concepções que envolvam qualquer tipo de “aparição” à parte de sua revelação na bendita pessoa do Senhor Jesus Cristo. Na encarnação, Deus se revelou em Jesus Cristo, de maneira que este é a revelação perfeita, a expressão exata do seu Ser (Hebreus 1.3). Além disso, ao longo de toda a Escritura, Deus sempre faz referência a si utilizando termos masculinos. Somente alguém que renega o conceito de inspiração das Escrituras é capaz de sugerir algo que não encontre precedente na revelação canônica de Deus. William Young vai além dos limites bíblicos, e até onde sei, isso é heresia!
A apresentação de Deus Pai e do Espírito Santo como duas mulheres se constitui numa quebra flagrante e gritante do Segundo Mandamento (Êxodo 20.4-6), cujo princípio proíbe a construção de qualquer imagem, inclusive mental, para representar qualquer uma das Pessoas da Trindade. Na exposição que faz sobre os pecados proibidos no Segundo Mandamento (Pergunta 109), o Catecismo Maior de Westminster diz o seguinte:

Os pecados proibidos no segundo mandamento são: o estabelecer, aconselhar, mandar, usar e aprovar de qualquer maneira qualquer culto religioso não instituído por Deus; fazer qualquer imagem de Deus, de todas ou de qualquer das três Pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente em qualquer forma de imagem ou semelhança de alguma criatura...[6]

Onde William Young fez, primeiramente, as imagens do Pai e do Espírito Santo como duas mulheres? A resposta é: em sua mente! Creio que seja pertinente citar o comentário que o Dr. Johannes Geerhardus Vos faz acerca da resposta do Catecismo:

Porque Deus é puro espírito, sem forma corpórea, e qualquer imagem ou representação que o homem possa fazer dEle dá somente uma falsa idéia da Sua natureza. Assim como nos intima o Catecismo, isso é verdadeiro não importando se a imagem ou representação de Deus tenha sido produzida externamente, ou se é apenas interna à mente de alguém. Em ambos os casos a tentativa de visualizar Deus é pecaminosa e só pode falsificar ou distorcer a revelação dEle apresentada na Bíblia.[7]

Alguém ainda pode argumentar, afirmando que, “se Deus quiser, ele pode aparecer pra alguém como uma mulher. Além disso, a figura feminina desperta maior encanto e fascina mais do que a figura masculina”.[8] Várias objeções podem ser apresentadas a esta afirmação, no entanto, apresentarei apenas três: Primeiramente, Deus já quis se revelar em forma humana. E, de fato, ele já se revelou em Jesus Cristo, portanto, qual a necessidade de uma nova “aparição” em forma humana? Em segundo lugar, será que a figura feminina é capaz de despertar maior encanto e fascínio do que a pessoa mansa e humilde do Senhor Jesus Cristo? Por que o Pai não pensou nisso? E em, terceiro lugar, esta afirmação se constitui num pressuposto assumido, porém, não provado. Na verdade, é impossível prová-lo!

2.2. CRISTOLOGIA HERÉTICA
Os conceitos apresentados a respeito da pessoa de Jesus Cristo também são completamente deturpados. O ponto mais grave é a confusão a respeito das duas naturezas de Cristo. Transcrevo abaixo parte de um diálogo entre Mack e Deus, o Pai, a respeito de Jesus:

- Mackenzie, eu posso voar, mas os humanos, não. Jesus é totalmente humano. Apesar de ele ser também totalmente Deus, nunca aproveitou sua natureza divina para fazer nada. Apenas viveu seu relacionamento comigo do modo como eu desejo que cada ser humano viva. Ele foi simplesmente o primeiro a levar isso até as últimas instâncias: o primeiro a colocar minha vida dentro dele, o primeiro a acreditar no meu amor e na minha bondade, sem considerar aparências ou consequências.
- E quando ele curava os cegos?
- Fez isso como um ser humano dependente e limitado que confia na minha vida e no meu poder de trabalhar com ele e através dele. Jesus, como ser humano, não tinha poder para curar ninguém.
[9]

Nesse ponto, caro leitor, peço que você pare e leia novamente o diálogo supramencionado. De acordo com William Young, Jesus, como ser humano não tinha poder para curar ninguém. É impossível conciliar esta afirmação com a seguinte afirmação do próprio Jesus: “Mas Jesus disse: Quem me tocou? Como todos negassem, Pedro com seus companheiros disse: Mestre, as multidões te apertam e te oprimem e dizes: Quem me tocou? Contudo, Jesus insistiu: Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder (Lucas 8.45, 46). No episódio em questão, Jesus não deixou de ser humano. É possível que algum ignorante, afeiçoado às heresias, argumente a partir de Lucas 5.17: “Ora, aconteceu que, num daqueles dias, estava ele ensinando, e achavam-se ali assentados fariseus e mestres da Lei, vindos de todas as aldeias da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém. E o poder do Senhor estava com ele para curar. É possível que o ignorante pense: “te peguei!”. Será mesmo? Pois bem, peço a ele que leia o que diz Lucas 4.14: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Aqui, Jesus realizava sua obra pelo poder do Espírito Santo. Mas, existe alguma passagem que indique que Jesus tinha poder? Existe alguma passagem que não indique que ele realizava seus feitos pelo poder do Pai ou do Espírito? Sim, há! Lucas 9.1 faz a seguinte afirmação: “Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas”. Por possuir poder foi que Jesus concedeu poder e autoridade aos doze.
Young ignora três coisas: 1) as três Pessoas da Trindade compartilham dos mesmos atributos, incluindo o poder; 2) Jesus, quando encarnou não perdeu nenhum dos atributos essenciais da Divindade, visto que isso é impossível; e 3) a encarnação não eclipsou nenhum dos atributos de Jesus. É verdade que a sua natureza humana limitou alguns de seus atributos. Ainda assim, isso é completamente diferente de se afirmar que Jesus não tinha poder para curar ninguém.
Ao longo de todo o livro, a impressão que o autor deixa é que Jesus ainda se encontra limitado por sua natureza humana, desempenhando o papel de um admirador embasbacado de sua própria criação, datada de uma época distante, quando ele era o Verbo.[10]

2.3. NEGAÇÃO DO CONCEITO BÍBLICO DE AUTORIDADE
Outro grave problema exposto em A Cabana é a negação do conceito bíblico de autoridade, como sendo uma instituição divina. William Young expressa por meio de uma ficção sua convicção de que o conceito de autoridade é algo estranho a Deus, tratando-se, na verdade, de uma mera convenção humana. Mais uma vez, transcrevo parte de um diálogo:

- Os humanos estão tão perdidos e estragados que para vocês é quase incompreensível que as pessoas possam trabalhar ou viver juntas sem que alguém esteja no comando.
- Mas qualquer instituição humana, desde as políticas até as empresariais, até mesmo o casamento, é governada por esse tipo de pensamento. É a trama do nosso tecido social – declarou Mack.
- Que desperdício! – disse Papai, pegando o prato vazio e indo para a cozinha.
- Esse é um dos motivos pelos quais é tão difícil para vocês experimentar o verdadeiro relacionamento – acrescentou Jesus. – Assim que montam uma hierarquia, vocês precisam de regras para protegê-la e administrá-la, e então precisam de leis e da aplicação das leis, e acabam criando algum tipo de cadeia de comando que destrói o relacionamento, em vez de promovê-lo. Raramente vocês vivem o relacionamento fora do poder. A hierarquia impõe leis e regras e vocês acabam perdendo a maravilha do relacionamento que nós pretendemos para vocês.
[11]

Que conceito pernicioso! Contraria passagens bíblicas como Romanos 13.1-7, que afirma que as autoridades foram constituídas por Deus, e Efésios 5.21-6.9, que apresenta o mandamento apostólico inspirado acerca da autoridade e submissão que devem existir nos relacionamentos interpessoais. Um pouco mais adiante, o livro exala um forte odor marxista, quando William Young escreve: “A autoridade, como vocês geralmente pensam nela, é meramente a desculpa que o forte usa para fazer com que os outros se sujeitem ao que ele quer”.[12]
É preciso que se enfatize que o princípio de autoridade não é uma mera convenção humana, que tenha como objetivos a opressão e a servidão. A Bíblia, a Palavra de Deus, afirma categoricamente que, Deus instituiu o princípio de autoridade e constituiu magistrados para governarem a sociedade. Ademais, Deus instituiu a autoridade ao constituir Adão como vice-regente da criação, para governá-la como representante do Criador. Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio...” (Gênesis 1.26). No que concerne aos relacionamentos, o princípio de autoridade também foi instituído por Deus desde cedo, quando ao criar Eva, Deus declarou que ela seria uma “auxiliadora idônea” (Gênesis 2.18), e quando, após a Queda, Deus proferiu as seguintes palavras a Eva: “... o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gênesis 3.16).

2.4. SOTERIOLOGIA PLURALISTA
Outra doutrina nociva ensinada no livro é uma espécie de soteriologia pluralista, ou seja, William Young ensina que não apenas a Igreja cristã é a beneficiária dos méritos da morte de Jesus Cristo. De acordo com ele, Jesus salva o indivíduo sem, necessariamente, trazê-lo para o seio da Igreja. Mais uma vez, é pertinente citar suas próprias palavras. A citação é longa, porém, necessária para se entender o contexto:

- Mack, eu as amo. E você comete um erro julgando-as. Devemos encontrar modos de amar e servir os que estão dentro do sistema, não acha? Lembre-se, as pessoas que me conhecem são aquelas que estão livres para viver e amar sem qualquer compromisso.
- É isso que significa ser cristão? – Achou-se meio idiota ao dizer isso, mas era como se estivesse tentando resumir tudo na cabeça.
- Quem disse alguma coisa sobre ser cristão? Eu não sou cristão.
A idéia pareceu estranha e inesperada para Mack e ele não pôde evitar uma risada.
- Não, acho que não é.
Chegaram à porta da carpintaria. De novo Jesus parou.
- Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa. Tenho seguidores que foram assassinos e muitos que eram hipócritas. Há banqueiros, jogadores, americanos e iraquianos, judeus e palestinos. Não tenho desejo de torná-los cristãos, mas quero me juntar a eles em seu processo para se transformarem em filhos e filhas do Papai, em irmãos e irmãs, em meus amados.
[13]

Depois de ler estas palavras, algumas perguntas gritam para ser feitas: Os que amam a Jesus Cristo estão em todos os sistemas? Existem budistas que amam a Jesus? Mórmons? Jesus não possui o desejo de trazer os seus para fazerem parte do seu Corpo Místico? É possível que alguém seja salvo por Jesus Cristo e viva sem fazer parte da sua Igreja? Qual o conceito de Igreja esposado por William Young?
Infelizmente, percebe-se nas palavras do autor de A Cabana um desprezo por aquela que nas Escrituras é chamada de “a noiva, a esposa do Cordeiro” (Apocalipse 21.9). Além disso, mesmo negando, William Young acaba ensinando que “todas as estradas levam” a Deus.[14] O conceito de que, fora da Igreja não há salvação é menosprezado e negado pelo autor desta obra infame.[15]
Muitas outras heresias poderiam ser apontadas, como por exemplo, o conceito libertário da vontade, segundo o qual, os homens são completamente livres para amar ou deixar de amar a Jesus. Em toda a obra, o autor afirma que seguir a Cristo, amá-lo e obedecê-lo é pura e simplesmente, uma questão da vontade. Com isso, ele se posiciona ao lado de heresias como o pelagianismo, o semipelagianismo e o arminianismo. Na página 205 há algo muito sutil que passa despercebido por muitos. Na verdade, alguns leitores chegam ao ponto de achar meigo e doce. Num determinado momento, Jesus vem até onde Mack e Papai estão, e dá um beijo nos lábios deste. O ponto é que tal beijo acontece apenas depois que Deus, o Pai deixa a forma feminina e assume a forma masculina. É tão sutil o que aparece nas páginas que muitos incautos lêem e não percebem o que está sendo sugerido.

III – CONCLUSÃO
Os conceitos heterodoxos e perniciosos apresentados por William P. Young, no seu livro A Cabana, são muitos. Foram apresentados aqui apenas alguns. A conclusão à qual se pode chegar é que se trata de uma obra extremamente perigosa, que tende a formar a opinião das pessoas de maneira errada, completamente diferente daquilo que é apresentado pelas Sagradas Escrituras. Trata-se de um livro extremamente perigoso e nocivo, que está sendo amplamente consumido pelas pessoas, inclusive por evangélicos. É impressionante como na cidade onde moro (Marabá-PA), o livro pode ser encontrado até mesmo nas livrarias evangélicas. As pessoas lêem o livro, mas não conseguem discernir o que possuem em mãos. Muitas chegam a dizer que foram extremamente abençoadas ao lerem A Cabana. Sinceramente, não sei como alguém pode ser abençoado no erro e no engano.
O pior é perceber que o livro é endossado por líderes evangélicos e pastores. Na contra-capa há uma afirmação assustadora do cantor gospel canadense Michael W. Smith: “Esta história deve ser lida como se fosse uma oração – a melhor forma de oração, cheia de ternura, amor, transparência e surpresas. Se você tiver que escolher apenas um livro de ficção para ler este ano, leia A Cabana”. Isso induz muitos analfabetos funcionais ao erro. Também encontramos pastores que recomendam o livro de forma entusiasmada. Minha tristeza ao constatar tais fatos é enorme, pois percebo o quanto os ditos evangélicos se distanciaram das Sagradas Escrituras e abraçaram outras coisas em nada abençoadoras.
As pessoas lêem o livro, mas não procuram conhecer mais a respeito do autor, de suas convicções, não lêem imbuídas de um espírito crítico. Para que todos tenham uma idéia, o livro de William P. Young foi rejeitado nos Estados Unidos por todas as editoras cristãs e seculares. As editoras seculares o rejeitaram porque falava muito em Jesus. Já as cristãs por considerarem-no herético. Para que o livro pudesse ser publicado, Young, juntamente com alguns amigos teve que fundar sua própria editora. Aqui no Brasil, o livro foi publicado pela mesma editora de O Código da Vinci e de outras obras nada ortodoxas. Isso já deveria servir como uma espécie de alerta, mas não serve. As pessoas imaginam que porque um livro fala em Deus e em Jesus Cristo, necessariamente, trata-se de algo saudável. Alan Kardec também fala em Deus e em Jesus! Não estranharei se daqui a alguns anos líderes e pastores endossarem efusivamente os escritos espíritas às suas ovelhas.
Por essas e outras é que afirmo que o discernimento foi assassinado em uma Cabana!
Kyrie Eleison!

[1] William P. Young, A Cabana, (Rio de Janeiro: Sextante, 2008), 73.
[2] Ibid, 19.
[3] Ibid, 74.
[4] Ibid, 75.
[5] Ibid, 83.
[6] CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), 143-144.
[7] Johannes Geerhardus Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado, (São Paulo: Os Puritanos, 2007), 344.
[8] Afirmação feita por um ardoroso defensor da abominação em questão.
[9] William P. Young, A Cabana, 90.
[10] Ibid, 100.
[11] Ibid, 112.
[12] Ibid.
[13] Ibid, 168-169.
[14] Ibid, 169.
[15] É importante que o leitor compreenda que, ao fazer esta citação não estou defendendo o conceito católico romano de que, fora da Igreja Católica Apostólica Romana não há salvação. O ponto enfatizado é que, aqueles que forem salvos por Jesus Cristo, inevitavelmente serão trazidos para juntos da sua noiva, o seu Corpo Místico, a Igreja.

sábado, 11 de julho de 2009

SOBRE JOÃO CALVINO


Ainda em alusão aos 500 anos do Reformador de Genebra, transcrevo abaixo alguns testemunhos de estudiosos conhecedores da História. Primeiramente, elencarei estudiosos brasileiros e, posteriormente, estudiosos estrangeiros:

DR. ALDERI SOUZA DE MATOS: “Calvino é considerado não só o pensador mais articulado e fecundo entre os reformadores protestantes, mas uma das mentes formadoras do mundo moderno”.[1]

DR. HERMISTEN MAIA PEREIRA DA COSTA: “Calvino, com sua vida e ensinamentos, contribuiu para forjar um tipo novo de homem: o reformado, que vive, no tempo, a plenitude do seu tempo para a glória de Deus! Portanto, ‘o verdadeiro discípulo de Calvino só tem um caminho a seguir: não obedecer ao próprio Calvino, mas Àquele que era o mestre de Calvino’”.[2]

REV. WILSON SANTANA SILVA: “Segundo um pensador francês, Calvino deve ser considerado o ‘pai de uma civilização’. Ao longo dos séculos o calvinismo tem despertado muitas consciências e influenciado nações inteiras. São notórias as mudanças que ele provocou na Suíça, Holanda e Escócia, entre outras nações”.[3]

REV. RICARDO QUADROS GOUVÊA: “Dizer que Calvino foi um grande teólogo soa como um eufemismo tímido e impróprio. É bastante provável que Calvino tenha sido o maior e principal teólogo cristão de todos os tempos. Tivesse toda a obra dele se perdido, e nos restassem apenas as suas cartas, ainda assim ele teria de ser considerado um grande teólogo. Não é exagero afirmar que a história da teologia pode ser dividida em: ‘pré-calvinista’ e ‘pós-calvinista’”.[4]

DR. ARMANDO ARAÚJO SILVESTRE: “Calvino foi também um homem com um pé no século XV e outro no século XVII. Sua qualidade linguística clássica, sua vontade de chegar à essência num sentido pré-cartesiano. Um picardo, homem do norte da França, nunca um legítimo genebrês ou renascentista no sentido pagão e mediterrâneo do termo. Seguiu o modelo de Sêneca, não o de Epicuro. Um corpo enfermo dentro de sua total austeridade de um admirador das estrelas, da majestade admirável de Deus... Viveu com autenticidade e morreu sem pompas, e o mundo todo ainda fala dele, 500 anos depois”.[5]

REV. WILSON DE CASTRO FERREIRA: “João Calvino era, indubitavelmente, um homem de excepcionais dons de inteligência e caráter, que nem mesmo alguns dos seus mais tenazes inimigos ousam negar. No entanto, a sua constituição física, já de si mesma frágil, foi dominada por enfermidades tantas e tão inquietantes, capazes de tirar a calma, o equilíbrio e a vontade de viver e trabalhar mesmo ao mais paciente dos mortais. Por outro lado, possuía a humildade necessária para lamentar diante de Deus e perante os amigos mais íntimos seus resvalos e fraquezas. A respeito dele poderíamos dizer, parodiando o apóstolo São Paulo: ‘Onde abundou a fraqueza, superabundou a graça’. Daí o nome que lhe foi dado por outras razões, mas que tão providencialmente se lhe assenta João, que quer dizer, a graça de Deus. Um homem sim, chamado João, exemplificação autêntica da superabundante graça que supre as faltas da nossa fraqueza humana”.[6]

REV. EDUARDO GALASSO FARIA: “Da obra realizada por este servo de Deus cresceu uma árvore que se tornou frondosa, tendo frutificado nos mais diferentes lugares e épocas desde então. Vista à distância, esta caminhada histórica aponta para a existência de uma espiritualidade cristã vigorosa que, como dom precioso é acima de tudo e em primeiro lugar, motivo de gratidão”.[7]

RONALD WALLACE: “Ele vivia de acordo com sua oração para que Deus o capacitasse a viver de maneira coerente com seu ensino. Sua vida era transparente diante das outras pessoas. Ele escreveu ao seu confesso pior inimigo na cidade, desafiando-o a examinar toda sua vida e sua obra e afirmando que esse exame minucioso não iria garantir nada senão mais uma prova de sua integridade: ‘Você mesmo sabe... que sou uma pessoa para quem a lei de meu Mestre Celestial é tão querida que a causa de nenhum homem sobre a face da terra irá induzir-me a deixar de manter isso com uma consciência pura’”.[8]

STEVEN J. LAWSON: “Com exceção dos homens usados por Deus para escrever a Bíblia, Calvino é ainda hoje o mais influente ministro da Palavra de Deus que o mundo já viu. Nenhum homem antes ou depois dele foi tão prolífico e tão profundo no lidar com as Escrituras. O discernimento exegético de Calvino trata da maior parte do Antigo Testamento e de todo o Novo Testamento, com exceção de Apocalipse. Para a maioria das pessoas, ele permanece como o maior comentador bíblico de todos os tempos. Em seu leito de morte, quando recapitulou suas muitas conquistas, Calvino mencionou seus sermões em vez de falar dos seus vastos escritos. Para Calvino, pregar era a tarefa mais importante”.[9]

THEODORE BEZA: “Por ter sido um espectador de sua conduta durante dezesseis anos, tenho dado fiéis informações sobre sua vida e morte, e posso declarar que nele todos os homens podem ver o mais belo exemplo de caráter cristão, um exemplo que é tão fácil de caluniar quanto difícil de imitar”.[10]

BENJAMIM B. WARFIELD: “Eis o segredo da grandeza de Calvino e a fonte de sua força revelada a nós. Homem algum jamais teve um senso mais profundo de Deus do que ele. Homem algum jamais se rendeu totalmente à direção divina como ele o fez”.[11]

JACOBUS ARMINIUS: “João Calvino está um nível acima de qualquer comparação, no que diz respeito à interpretação da Escritura. Os seus comentários precisam ser muito mais valorizados do que qualquer dos escritos que recebemos dos pais da igreja”.[12]

RICHARD BAXTER: “Não conheço outro homem, desde os dias dos apóstolos, que eu valorize e honre mais do que João Calvino. Eu me aproximo e tenho grande estima de seu juízo sobre todas as questões e sobre seus detalhes”.[13]

ANDRÉ BIÉLER: “No decurso dos vinte séculos da história cristã, houve poucos homens eminentes que suscitaram tão abundante literatura e tão ardentes polêmicas quanto o reformador João Calvino. Sua atuação e seu pensamento têm sido analisados e criticados sob quase todos os ângulos e em todas as línguas; e a influência deste homem de qualidades tão variadas tem sido tão poderosa e tão penetrante, em tantas esferas, que ele continuará ainda por muito tempo a exercer seu impacto e a despertar o interesse de uns e a hostilidade de outros”.[14]

LORD BOLINGBROKE[15]: “Pegou-me lendo João Calvino. Era realmente um homem de grandes qualidades, profundo bom senso, e vasta erudição. Trata com grande maestria as doutrinas da graça... Essas doutrinas certamente são as doutrinas da Bíblia; e se eu acreditasse na Bíblia, teria de acreditar nelas. E deixe-me dizer-lhe, com seriedade, que o maior milagre no mundo é a subsistência do cristianismo e sua continuada preservação, embora a pregação dele se ache entregue aos cuidados de miseráveis patifes como você”.[16]

Acredito que basta. Quer conhecer mais sobre João Calvino? Pois bem, procure ler Calvino. Não se contente em formar uma opinião a seu respeito apenas por meio do que outros falam. Garanto que você encontrará pessoas que o elogiam e também encontrará pessoas que, aparentemente, vivem num vácuo existencial e histórico, que por pura ignorância e preconceito, dizem asneiras a respeito do Reformador de Genebra. Por isso, leia as obras de João Calvino!


[1] Alderi Souza de Matos, Fundamentos da Teologia Histórica, (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), 161.

[2] Hermisten Maia Pereira da Costa, Calvino de A a Z, (São Paulo: Vida, 2006), 51.

[3] Ibid, 9.

[4] Da Apresentação de: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, (São Paulo: Fonte Editorial, 2008), 9.

[5] Armando Araújo Silvestre, Calvino: O Potencial Revolucionário de um Pensamento, (São Paulo: Vida, 2009), 146.

[6] Wilson de Castro Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, (Campinas: Luz para o Caminho, 1984), 29.

[7] Da Introdução de: João Calvino, Textos Escolhidos, (São Paulo: Pendão Real, 2008), 5.

[8] Ronald Wallace, Calvino, Genebra e a Reforma, (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), 241.

[9] Steven J. Lawson, A Arte Expositiva de João Calvino, (São José dos Campos: Fiel, 2008), 17.

[10] Theodore Beza, The Life of John Calvin, (Edinburgh: Back Home Industries, 1996), 117.

[11] Citado em Steven J. Lawson, A Arte Expositiva de João Calvino, 45.

[12] Citado por F. Solano Portela no Prefácio de: João Calvino, 2 Coríntios, (São José dos Campos: Fiel, 2008), 11.

[13] Ibid, 12.

[14] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990), 27.

[15] Lord Bolingbroke é descrito por Augustus M. Toplady como “o célebre incrédulo”. O contexto de suas palavras foi quando um clérigo, amigo do Lorde lhe fez uma visita.

[16] Citado em J. P. Willes, Ensino Sobre o Cristianismo, (São Paulo: PES, 2002), 312.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A PROPÓSITO DO QUINCENTENÁRIO DE JOÃO CALVINO



“Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere”.[1]

O dia de hoje (10 de julho de 2009) marca o aniversário de 500 anos do nascimento do reformador francês Jean Cauvin, ou como é popularmente conhecido no Brasil e nos demais países lusófonos, João Calvino. Trata-se de uma data importante para o protestantismo mundial, especialmente, para os protestantes da tradição reformada ou calvinista. Exatamente há 500 anos (10 de julho de 1509) nasceu na cidade francesa de Noyon, região da Picardia, aquele que, anos mais tarde, seria alcunhado com justiça de “A Mente da Reforma” ou “O Exegeta da Reforma”.[2] Isso devido ao fato de que, no que concerne à Reforma Protestante, podemos afirmar que, enquanto Lutero foi o desbravador e iniciador, João Calvino foi o sistematizador e grande organizador do movimento.

Não tenho o propósito de escrever um post que se constitua numa obra-prima sobre Calvino. Até porque, mesmo que tal fosse o meu intento, deparar-me-ia com dois enormes problemas: 1) a impossibilidade, pois um blog é um espaço por demais pífio e diminuto; e 2) a incapacidade, pois o gênio de Calvino é incompreendido até mesmo pelos seus mais ilustres biógrafos. No entanto, quero aqui apenas apresentar minha gratidão a Deus pela figura histórica e notável do Reformador de Genebra.

Calvino aparece elencado na História do Cristianismo como um dos grandes teólogos que já existiram. De acordo com a minha leitura da história (há quem discorde, e para isso tem total liberdade!), ele aparece como o terceiro maior teólogo que o Cristianismo já produziu, ficando atrás do apóstolo Paulo e de Agostinho de Hipona. Como tal, Calvino foi um gigante, e como afirma o Prof. Armando Araújo Silvestre, “os gigantes do passado tornaram-se paradigmas para o presente o futuro”.[3] Todavia, creio que a importância de João Calvino como paradigma para o protestantismo brasileiro ainda não foi devidamente compreendida. Para a grande maioria dos evangélicos brasileiros Calvino ainda permanece nas sombras, como uma figura desconhecida.

Particularmente, como presbiteriano que sou, sinto-me triste por perceber como mesmo em nosso meio jaz uma verdadeira ignorância quanto ao nosso passado. Mais triste ainda é perceber no meio presbiteriano alguns traços de descaso e desrespeito para com o legado deixado por Calvino. Mais uma vez, valho-me das palavras do Prof. Armando para expressar minha tristeza:

A triste constatação de que nem mesmo os que se dizem fiéis calvinistas conhecem algo de substancial desse reformador universal chega a estarrecer. Há mesmo alguns que se dizem guardiães da herança deixada por Calvino, mas que não conseguem passar de meras citações a favor ou contra, com acusações pesadas ou defesas apaixonadas. Leitura e compreensão para acusar ou defender? Quase nada. Conhecimento? Praticamente nulo.[4]

É no mínimo curioso que Jabocus Arminius, considerado como o grande antagonista de Calvino, tenha demonstrado duas coisas que muitos dos seus pretensos “herdeiros” não demonstram: respeito e consideração. Segundo Arminius, “João Calvino está um nível acima de qualquer comparação, no que diz respeito à interpretação da Escritura. Os seus comentários precisam ser muito mais valorizados do que qualquer dos escritos que recebemos dos pais da igreja”.[5]

É preciso enfatizar que, Calvino não inventou nada, nenhuma doutrina, nenhuma prática. Ele simplesmente identificou, de forma hábil, o que já se encontrava registrado de forma inspirada nas Sagradas Escrituras. Ele não inventou a doutrina da predestinação, como alguns sugerem. Apenas expôs o que a Bíblia traz em seu escopo sobre este assunto. Ele também não inventou o assassinato por motivações religiosas, como alguns o acusam como principal responsável pela morte do médico espanhol Miguel Serveto (1553). Com tanta informação disponível sobre este incidente, é de admirar que ainda hoje existam indivíduos que o difamem por causa disso. Tais apedeutas ignóbeis e obtusos desconhecem que Serveto já havia sido condenado pela Igreja Católica Romana e era caçado pela Inquisição, tendo fugido da cidade francesa de Vienne. É importante que se diga, que Calvino, apesar de não ter sido responsável pela morte de Serveto, consentiu com a sua morte. O problema é que os opositores de Calvino o apresentam como um desalmado violento e excessivamente cruel. Ele pode ser acusado de intolerância, não de crueldade. Eis suas palavras sobre o assunto numa carta a Guilherme Farel: “Espero que Serveto seja condenado à morte, mas desejo que seja poupado da atrocidade da pena”.[6] Pena que o Pequeno Conselho (Petit Conseil) de Genebra não tenha dado ouvidos a Calvino. Sem querer me estender muito nesse assunto, penso que será elucidativo lembrar que, de acordo com Alister McGrath, os habitantes de Genebra eram divididos em três grupos distintos: 1) os citoyens ou cidadãos, grupo composto por aqueles que nasceram e foram batizados em Genebra e eram filhos de outros citoyens; 2) os bourgeois ou burgueses, grupos composto por pessoas abastadas que tinham condições de adquirir ou negociar o título de bourgeois; e 3) os habitants ou habitantes, que não se enquadravam nessas duas categorias, porém, eram estrangeiros que residiam legalmente na cidade, com nenhum direito a voto, de portar armas ou de assumir qualquer posto público na cidade. Calvino não era suíço, era francês, portanto, um estrangeiro. No caso de Serveto, “como um mero habitant, ele era rigorosamente excluído da administração da justiça civil e criminal”.[7] Coloco a próxima frase em letras garrafais na tentativa de ajudar os analfabetos funcionais de plantão a compreenderem a História: QUEM CONDENOU E EXECUTOU SERVETO FOI O PEQUENO CONSELHO DE GENEBRA, DO QUAL CALVINO NÃO FAZIA PARTE!

É preciso dizer também que, Calvino não é o pai do capitalismo selvagem, como frequentemente é afirmado. Em parte, isso é devido à interpretação confusa que Max Weber faz da ética calvinista sobre o trabalho, e, em parte, isso também é uma consequência de inúmeras interpretações bestiais da obra de Weber. Calvino não trouxe o capitalismo para Genebra. Pelo contrário, quando chegou a Genebra, Calvino já encontrou uma cidade aquecida pelo comércio e com toda a estrutura ideal para o desenvolvimento do sistema capitalista. A gênese do capitalismo genebrino remonta a meados do século XV, portanto, é anterior a Calvino.

João Calvino foi, na realidade, unus de plebe (um do povo comum).[8] Ele foi um homem devoto a Deus; um homem que apresentou seu coração “pronto e sincero” ao Senhor. Ele foi grandemente usado por Deus para organizar o movimento da Reforma Protestante e transformar toda uma cidade. Em Genebra, sua influência foi exercida primariamente por sua dedicação à pregação. Seu único desejo era servir ao Senhor, como ele mesmo afirmou: “Basta-me viver e morrer por Cristo, o qual é lucro para todos os seus seguidores, tanto na vida como na morte”.[9] Logicamente, ele não foi perfeito. Ele também teve de lutar com os seus próprios pecados, os quais lhe eram tão evidentes. No entanto, como um vaso nas mãos do oleiro, foi usado para levar a fiel pregação da Palavra a um povo faminto e carente. A influência de João Calvino ainda hoje pode ser sentida na teologia, educação, política e economia.

A importância de João Calvino para nós reside no fato de que, ele nos deu um notável exemplo do que é viver para a glória de Deus somente. Diferentemente do que acontece na grande maioria das igrejas evangélicas do nosso tempo, não encontramos no pensamento e na vida de Calvino nenhuma tentativa de fazer algo dissociado da vontade de Deus revelada nas Sagradas Escrituras. Somos herdeiros de uma tradição riquíssima, amplamente fundamentada na Palavra. Precisamos valorizar (que ninguém entenda isso como idolatrar!) mais o legado deixado a nós por este servo de Deus.

Pessoalmente, sinto-me duplamente abençoado por Deus: por pertencer ao ramo do Cristianismo Protestante conhecido como Calvinismo, e também por ter tido a graça de nascer no mesmo dia em que nasceu João Calvino, 10 de julho. Parabéns pra mim duas vezes!

SOLI DEO GLORIA!

[1] “A ti, ó Deus, ofereço o meu coração, pronto e sincero”.

[2] Hermisten Maia Pereira da Costa, Raízes da Teologia Contemporânea, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 136.

[3] Armando Araújo Silvestre, Calvino: O Potencial Revolucionário de um Pensamento, (São Paulo: Vida, 2009), 19.

[4] Ibid.

[5] Citado por Solano Portela Neto no prefácio do comentário de 2 Coríntios, (São José dos Campos: Fiel, 2008), 11.

[6] Eduardo Galasso Faria (org.), João Calvino: Textos Escolhidos, (São Paulo: Pendão Real, 2008), 224.

[7] Alister McGrath, A Vida de João Calvino, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 138.

[8] João Calvino, Cartas de João Calvino, (São Paulo: Cultura Cristã, 2009), 13.

[9] Ibid, 23.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

NÃO SE ESQUEÇA DA RESSURREIÇÃO



John MacArthur

Em 1874, um ministro batista chamado Robert Lowry redigiu um dos mais comoventes hinos e que muito exaltou a ressurreição de Jesus Cristo – “Fundo, no túmulo, Ele deitou”. Note como estes versos contrastam a impotência da morte e do sofrimento com o poder da ressurreição de Cristo:

Fundo, no túmulo, Ele deitou, Jesus, meu Salvador;
À véspera do dia seguinte, Jesus, meu Senhor!
Em vão observam o leito de Jesus, meu Salvador;
Em vão, eles selam o morto, Jesus, meu Senhor!
A morte não pode deter sua presa, Jesus, meu Salvador;
Ele rompeu as barreiras, Jesus, meu Senhor!

A morte, o mais terrível inimigo do homem, não tem poder para reinar sobre o Senhor da vida. Essa verdade tem significado para você e para mim, aqui e agora, no vigésimo primeiro século. Você pode ver isto na parte mais emocionante e comovente do hino de Lowry, o refrão que pontua cada estrofe.

Do túmulo, Ele ergueu-se,
Com um poderoso triunfo sobre seus inimigos,
Ele ergueu-se, como um conquistador,
Vencendo o domínio da escuridão
Ele vive para sempre, com seus santos a reinar.
Ele levantou-se! Ele levantou-se!
Aleluia! Cristo ressuscitou!

Você vê nestas linhas o que a ressurreição de Jesus significa para você? Se você é um cristão, pode se regozijar no fato de que Cristo levantou-se dos mortos como um conquistador, um campeão que vive para sempre, para reinar “com seus santos”. Isso se refere à promessa baseada em nosso batismo na morte e ressurreição em Cristo – é a nossa esperança e a razão e base de tudo o que cremos.

Mas, e se não houve a ressurreição? E, se a ressurreição de Jesus Cristo é apenas um mito do primeiro século a ser ignorado ou marginalizado como uma questão secundária? As implicações dessa abordagem são devastadoras para o cristianismo.

Chamo sua atenção ao que Paulo escreveu em 1 Coríntios 15.16-19, de modo que você possa ver o que acontece quando esquece a ressurreição.

Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.

Sem dúvida, se Jesus ainda está no túmulo, se Ele é perpetuamente o sofredor e nunca, o conquistador, então você e eu estamos desesperadamente perdidos. E, embora esse não seja o caso, quero focalizar no hipotético “e, se” que Paulo presume temporariamente, em 1 Coríntios 15. “E, se a ressurreição fosse um mito? E, se Jesus Cristo ainda estivesse morto e no túmulo?”

Em primeiro lugar, vocês ainda estariam em seus pecados, sob a tirania da morte, juntamente com o mais vil e incrédulo pagão. Se Jesus não ressuscitou dos mortos, então, o pecado ganhou a vitória sobre Ele e continua a ser vitorioso sobre você também. Se Jesus permaneceu no túmulo, então, quando você morrer haverá de permanecer morto. Além do mais, visto que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23), se você tivesse de permanecer morto, a morte e a punição eterna seriam o seu futuro.

A razão de confiarmos em Cristo é para perdão de pecados. Porque é do pecado que precisamos ser salvos. “Cristo morreu pelos nossos pecados” e “foi sepultado, e... ressuscitou ao terceiro dia” (1 Co 15.3-4). Se Cristo não ressuscitou, sua morte foi em vão, sua fé nEle seria sem sentido, e seus pecados ainda seriam contados contra você e não haveria nenhuma esperança de vida espiritual.

Segundo, se não há ressurreição, então, “ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram” (v. 18). Isso significa que todo santo do Antigo Testamento, e todo santo desde que Paulo escreveu estaria sofrendo em tormento neste exato momento. Isso incluiria o próprio Paulo, os outros apóstolos, Agostinho, Lutero, Calvino, Wesley, Moody, e os santos de fé e oração que você conheceu – todo e qualquer crente, em todas as eras, também estaria no inferno. Sua fé teria sido em vão, seus pecados não teriam sido perdoados, e seu destino seria a condenação.

À luz das outras consequências, a última é bem óbvia: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Sem a ressurreição de Cristo, a salvação e as bênçãos que ela traz, o cristianismo seria sem sentido e lamentável. Sem a ressurreição não teríamos o Salvador, o perdão e o evangelho, jamais teríamos a fé significativa, nem a vida, e nunca poderíamos ter esperança por alguma dessas coisas.

Esperar em Cristo somente nesta vida seria ensinar, pregar, sofrer, sacrificar-se, e trabalhar inteiramente por nada. Se Cristo ainda está morto, então Ele somente não tem habilidade de salvar você no futuro, mas Ele também não pode lhe ajudar agora. Se Ele não estivesse vivo, onde estaria sua fonte de paz, alegria ou satisfação hoje? A vida cristã seria uma galhofa, uma farsa, uma piada cruel e trágica. Os cristãos sofreriam e até morreriam porque a fé seria apenas tão cega e patética quanto a daqueles “crentes” que seguiram Jim Jones e o Templo do Povo, David Koresh e as Raízes Davídicas, e Marshall Applewhite e a seita do Portão do Céu.

Se o cristão não tem um Salvador, senão Cristo; um Redentor, senão Cristo; e um Senhor, senão Cristo; e, se Cristo não é ressurreto, Ele não está vivo; nesse caso, a nossa vida cristã é sem vida. Nós nada teríamos para justificar nossa fé, nosso estudo bíblico, nossa pregação ou testemunho, nossa adoração e serviço de culto a Ele, e nada para justificar nossa esperança nesta vida ou na próxima. Nós nada mereceríamos, senão a compaixão reservada para os tolos.

Mas, Deus sim ressuscitou “dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4.24-25). Porque Cristo vive, nós também viveremos (Jo 14.19). “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.30-31).

Não somos dignos de pena, pois Paulo imediatamente encerra a terrível seção “e, se”, dizendo: “Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem” (1 Co 15.20). Como Paulo disse, no final de sua vida, “sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito [i.e. sua vida] até aquele Dia” (2 Tm 1.12).

Aqueles que não esperam somente em Cristo para salvação são verdadeiros tolos; eles são os que precisam ouvir seu testemunho compassivo sobre o triunfo da ressurreição de Cristo. Então, não esqueça a ressurreição; regozije-se nela e glorie-se nela, pois Ele ressuscitou de fato.

Extraído da Revista Fé para Hoje, nº 34 – Jun/2009, 30-32.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

RUI BARBOSA E O LADRÃO[1]


Abrindo um parêntese nas elucubrações teológicas...


Ontem (05/07/2009), por ocasião do final do Culto Público na Igreja Presbiteriana Filadélfia, igreja da qual sou pastor, duas ovelhas minhas muito queridas (Ana Paula e Salma) interpelaram-me a respeito do significado de uma palavra existente no final do post anterior[2]. Elas brincaram, afirmando que para ler o meu blog é necessário ter um dicionário em mãos. Tudo isso por causa da palavra “sequazes”, que, na verdade, significa “seguidores” e é uma tradução livre do inglês “followers”, presente na edição em inglês de O Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã.

Depois de rirmos com o comentário, e já em minha casa, senti o desejo de escrever algo que, de fato, exigisse a presença de um dicionário em mãos. Queria ver a reação delas depois. Lembrei de uma piada que li na ótima Revista Língua, periódico que analisa questões pertinentes à língua portuguesa. Tal piada tem como personagem principal o jurista brasileiro Rui Barbosa e brinca com os excessos da linguagem culta na fala cotidiana. Transcrevo-a a seguir, visando proporcionar deleite às minhas duas queridas “ovelhinhas” e aos demais leitores do blog:

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal.
Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao atentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fofórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, diz:
- Dotô, resuminu, eu levu ou deixu’s pato?

Pois bem, Salma e Ana Paula, enjoy it! Não fiquem neurastênicas!
Amo vocês em Cristo!

P.S.: NÃO ESQUEÇAM O DICIONÁRIO!


[1] Extraído da Revista Língua, edição nº 43, de Maio de 2009.

[2] “Em Terra de Sapos, de Cócoras com eles”.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

ANÁLISE DE "FAZ UM MILAGRE EM MIM" (Régis Danese)


Como Zaqueu eu quero subir
O mais alto que eu puder
Para te ver, olhar para Ti
E chamar sua atenção para mim
Eu preciso de Ti, Senhor
Eu preciso de Ti, ó Pai!
Sou pequeno demais
Me dá tua paz
Faço tudo pra Ti servir.

Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas
E me ensina a ter santidade
Quero amar somente a Ti
Porque o Senhor é o meu bem maior
Faz um milagre em mim.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A LETRA
No primeiro verso o autor faz uso de uma Símile. Ele estabelece uma comparação implícita com uma personagem da Revelação bíblica no Novo Testamento: Zaqueu.

O desenrolar da letra faz referência a momentos da vida de Zaqueu, quando ele ainda estava morto em seus delitos e pecados (Como Zaqueu eu quero subir o mais alto que eu puder). Quando o Zaqueu da Bíblia subiu na árvore ele ainda não temia a Cristo. Então, a música faz uma associação com eventos da vida de um homem quando ele ainda vivia em impiedade. Quem canta, no caso, é um ímpio, visto que a letra é construída em 1ª pessoa.

O quarto verso diz: “e chamar sua atenção para mim”. Essa não era a intenção de Zaqueu. A intenção dele era apenas “ver quem era Jesus” (Lucas 19.3, 4). Ele não procurava chamar a atenção de Jesus. Pensar assim seria acreditar na heresia da “Graça Preveniente”, segundo a qual, o indivíduo recebe uma preparação que o capacita a “buscar e a aceitar Jesus”.

O mais sério está no Refrão: “Entra na minha casa/Entra na minha vida...”. Estes versos são completamente arminianos. Além disso, são completamente diferentes da narrativa bíblica. Em Lucas 19.1-10, Zaqueu não convidou Jesus para entrar em sua casa. Pelo contrário, a iniciativa partiu única e exclusivamente de Jesus: “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa” (v. 5). Só após a palavra de Jesus foi que Zaqueu desceu.

Por último, como foi afirmado no início, quem está cantando é um ímpio, um Zaqueu pré-salvação. Não existe possibilidade de um ímpio se dirigir dessa forma a Deus antes do Espírito Santo regenerar o seu coração. Na verdade, o ímpio não sente o mínimo desejo de fazer isso.

Devemos prestar atenção nas letras das músicas que cantamos e desejamos introduzir no culto ao Senhor. As letras devem ser reguladas pela Bíblia, e havendo qualquer discordância, devem ser rejeitadas.

sábado, 16 de maio de 2009

CLÁUDIO CARVALHAES E A FEMINIZAÇÃO DE DEUS




Por Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


INTRODUÇÃO
Sempre que acesso o portal da editora Vida Nova costumo ler alguns artigos que são publicados ali. Vários articulistas conhecidos, eloquentes, eruditos e piedosos aparecem elencados no site, como por exemplo, Augustus Nicodemus Lopes, Gabriele Greggersen, Russel Shedd, Lourenço Stelio Rega e Claúdio Carvalhaes. Temas interessantes e também relevantes são abordados... ops... Claúdio “o quê”? Claúdio Carvalhaes? Mas, quem é Cláudio Carvalhaes? Pois bem, trata-se de um teólogo e pastor ordenado pela Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.[1] Dentre as suas credenciais acadêmicas podem ser destacadas: 1) Especialização em Ecumenismo no Conselho Mundial de Igrejas de Genebra na Suíça; 2) Mestrado pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, entidade ligada à Universidade Metodista de São Bernardo do Campo; e 3) Doutorando em Teologia pelo Union Theological Seminary e em Artes pela Universidade de Columbia. Credenciais acadêmicas abundantes, porém, há algo no pensamento de Carvalhaes que me deixa profundamente inquieto.
Quero destacar dois artigos de sua lavra: Somos todos machistas – A Teologia e o lugar da mulher, e É Deus nossa Mãe? – A Teologia e o lugar da mulher. Nestes dois escritos, Carvalhaes pleiteia uma maior inclusão da mulher na vida eclesiástica, ao ponto de afirmar que sonha “com o dia em que as mulheres liderarão nossas igrejas – não somente como aquelas mulheres desconhecidas que mantêm nossas igrejas vivas, mas que não podem assumir o poder. Não! Quero vê-las dirigindo os conselhos das igrejas, liderando igrejas nacionais e liderando nossa nação, nos ajudando a pensar de outra maneira”.[2] Até que isso não me assusta muito, pois tenho convivido bem de perto com essa realidade. Também existem pastores na minha denominação que pleiteiam algo parecido, cegando os olhos e tapando os ouvidos para o que diz a resposta da Pergunta 158 do Catecismo Maior de Westminster: “A Palavra de Deus deve ser pregada somente por aqueles que têm dons suficientes, e são devidamente aprovados e chamados para o ministério”.[3] O irônico é que me deparei com um “Cláudio Carvalhaes” que repete, impulsionado por uma logorréia, que é defensor dos Símbolos de Fé da Igreja Presbiteriana do Brasil e ao mesmo tempo é “doidinho” pra ver uma mulher assumindo o seu púlpito (vai entender!). Mas, voltemos ao Carvalhaes arquetípico.

EISEGESE – FALSA EXEGESE
Insólitas e abomináveis foram suas declarações num outro artigo, a respeito do tratamento dispensado a Deus como uma “figura masculina”. Cláudio Carvalhaes se mostrou revoltado com a forma como tratamos Deus. De acordo com ele, “o tratamos sempre como a figura parental do Pai, e nunca como Mãe”.[4] O artigo, em sua inteireza, é um amontoado de bobagens sem fundamentos, todavia, transcrevo em sua totalidade um dos parágrafos:

É fato que a linguagem bíblica está permeada pela linguagem masculina, e isso se manifesta nas igrejas, ao reproduzirmos essa linguagem sem nenhum cuidado ou precaução nos sermões, louvores e estudos bíblicos. Deus é sempre “Ele”, “Senhor”, “Rei”, “Principe”, “Homem de guerra”, “Pai da Eternidade”. Neste sentido, a linguagem feminina nunca é usada, e a mulher não existe enquanto gênero teológico-literário-lingüístico. A mulher está sempre subentendida, incluída como mensagem secundária, adicionada, escondida, incluída em menções nunca feitas.[5]

Bem, até onde sei nossos cultos devem ser bíblicos. Até onde sei, os louvores devem ser bíblicos. É do meu conhecimento que os sermões e estudos bíblicos devem ser bíblicos (perdoem-me a tautologia, mas ela foi necessária!). Portanto, ele deve fazer uso de material extra-bíblico para lograr êxito na tarefa de trazer à existência a mulher “enquanto gênero teológico-literário-linguístico”.
Ele afirma que não damos atenção às imagens femininas que a Bíblia atribui a Deus, como por exemplo: “a palavra em hebraico no Antigo Testamento para Espírito é feminina; e Jesus queria que Deus fosse uma galinha para acolher seu povo”. Essa foi pesada! Não dá para não comentar nada aqui! Primeiro, a palavra em hebraico no Antigo Testamento para “Espírito” não é feminina! O termo hebraico em questão é rûach, e tal termo, morfologicamente, admite ambos os gêneros (masculino e feminino).[6] Os especialistas na língua hebraica não categorizam o termo como sendo feminino em absoluto. Por exemplo, J. Barton Payne, falecido professor de Antigo Testamento no Covenant Theological Seminary, deixa aberta a porta para o entendimento de que rûach é um substantivo comum de dois gêneros. Eis suas palavras: “Esse substantivo ocorre 387 vezes no AT, sendo geralmente de gênero feminino”.[7] O advérbio “geralmente” dá a idéia de um conceito que convém à maior parte de ocorrências de determinado termo. Ainda assim, não fecha a questão em absoluto. De igual modo, o Dr. Page H. Kelley, ex-professor de Hebraico no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro, afirma que, “os substantivos que terminam em qamets-he(sic) normalmente são femininos”.[8] Creio que a base da argumentação de Carvalhaes seja a terminação qamets-he, que geralmente identifica o feminino. Seria interessante se Carvalhaes aprendesse que nem todos os substantivos femininos, necessariamente, terminam com qamets-he. Exemplos: mãe (’êm) e filha (bat). Portanto, Cláudio Carvalhaes se mostra tendencioso em fazer uma afirmação falaciosa. Em segundo lugar, será que Jesus estava, realmente, estava expressando um desejo seu, no sentido de que Deus fosse uma galinha? Não! Jesus não queria que Deus fosse uma galinha! Eis as passagens que trazem esse episódio: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não quisestes” (Mateus 23.37); “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta o seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Lucas 13.34). É consenso geral entre os estudiosos que Jesus fez uso de uma figura de linguagem denominada símile, que, nas palavras de Walter C. Kaiser, Jr., nada mais é do que, “uma comparação expressa ou formal entre duas coisas ou duas ações em que uma é dita ser ‘como’, ou ‘semelhante a’ outra”.[9] Ainda de acordo com Walter Kaiser, a função do símile é “ilustrar o sentido do autor”.[10] O comentário do Dr. William Hendriksen sobre essa passagem confirma minha afirmação:
O símile que Jesus usa é inesquecível. De súbito surge um gavião caçador, suas asas estreitadas para o mergulho, seus olhos centrados na granja, suas ominosas garras prontas para agarrar um pintainho. Ou, mudando de figura, uma tempestade se aproxima. Os relâmpagos que faíscam se tornam mais freqüentes, o ribombar dos trovões aumenta seu volume e cargas elétricas aumentam cada vez mais. As gotas de chuva se desenvolvem num aguaceiro, o aguaceiro numa tempestade. Em ambos os casos, o que sucede é que com um ansioso e imperativo cacarejo a galinha chama seus pintainhos, os oculta debaixo de suas asas protetoras, e tão rápido quanto pode ela busca um lugar onde possa proteger-se.[11]

Pra piorar a situação do colega Carvalhaes, percebe-se que ele faz uso da hermenêutica desconstrucionista, ao atribuir ao texto um sentido estranho ao mesmo. Jesus não queria que Deus fosse uma galinha. Ele nem mesmo faz uma referência a Deus nas passagens. Ele está falando acerca dele mesmo. Realmente, Jesus expressa um desejo nas passagens, porém, bem diferente daquele explicitado por Carvalhaes. Na passagem, Jesus lamenta porque quis reunir o povo de Jerusalém sob seus cuidados, mas foi rejeitado. O desejo era cuidar e pastorear, não ser uma galinha. O testemunho dos Sinóticos é de grande ajuda contra Carvalhaes. Suas afirmações se aproximam perigosamente de blasfêmia!

HERESIA – HETERODOXIA
No mesmo artigo, Carvalhaes propõe uma asneira:
Permita-me fazer uma proposta: sem negar a validade e a beleza de se chamar Deus de Pai, proponho que façamos um boicote temporário ao uso de Deus como Pai, Senhor e Homem. Que tal começarmos a orar a Deus como “Mãe nossa, que está nos céus”? Isso pode nos ajudar em nosso relacionamento com Deus, pois, para muitos, a figura paterna compromete uma relação mais próxima com Deus em virtude de histórias pessoais carregadas de dor e dificuldades com a figura paterna.[12]

Dado o princípio da explicitação do implícito, pode-se perceber que, de acordo com Cláudio Carvalhaes, a forma da oração ensinada por Jesus Cristo em Mateus 6.9-13 é incapaz de expressar perfeitamente o nosso relacionamento com Deus. Na verdade, para colocar os devidos “pingos nos is”, ele está querendo dizer que Jesus estava equivocado! Orar a Deus como Pai tem lá a sua validade e beleza. Porém, se começássemos a nos dirigir a Deus como “Mãe nossa”, experimentaríamos uma otimização da nossa comunhão com a Divindade. Nesse ponto suas afirmações são irresponsáveis e heréticas! A grande pergunta é: de onde ele tirou esse pensamento? Quais foram as suas influências? Sim, pois esse pensamento não é original. Dificilmente alguém o é nos dias de hoje. Um dos meus professores na Universidade Presbiteriana Mackenzie chegou a dizer o seguinte: “Quando você pensar em escrever sobre determinado assunto e imaginar que será algo novo, não se iluda, pois muita gente já escreveu antes de você!” É exatamente isso que acontece com o proponente da heresia supramencionada.

SUAS INFLUÊNCIAS
O sr. Carvalhaes é fortemente influenciado pelo pensamento da Teologia Feminista Radical, também conhecido como “emancipação feminina”[13], que adquiriu um tom mais agressivo durante o século XX. Stanley Grenz e Roger Olson citam a descrição de como seria o culto de uma igreja feminista:
Um grupo de mulheres reúne-se na sala de estar de uma casa para adorar, orar e compartilhar suas histórias de opressão numa sociedade e em igrejas dominadas por homens. Elas oram para o Deus Pai e a Deusa Mãe e cantam hinos que não usam linguagem machista. Elas reúnem-se em volta de uma mesa com um sino, uma vela e uma Bíblia. A líder do culto lê passagens da Bíblia que oprimem mulheres e o grupo exclama em uníssono: “Fora, demônios, fora!” No encerramento desse ritual de “Exorcismo dos Textos Patriarcais”, uma mulher declara: “Esses textos e todos os textos opressivos já não têm mais poder sobre nossa vida. Não precisamos mais inventar desculpas para eles ou tentar interpretá-los como se fossem palavras da verdade, mas lançamos fora suas mensagens opressivas como expressões do mal e justificativa do mal”.[14]

Deve-se perceber as orações feitas à “Deusa Mãe” (qualquer semelhança não é mera consciência!).
Várias publicações têm fomentado esse ímpeto feminista na sociedade, de uma forma geral, e, particularmente, na igreja. Simone de Beauvoir escreveu uma obra intitulada The Second Sex [O Segundo Sexo] (1945) e desenvolveu as idéias da “emancipação feminina”. Em 1963, Betty Friedan publicou uma obra que até hoje é uma das mais vendidas nos Estados Unidos: The Feminist Mystique [A Mística Feminista]. Entre as autoras pós-cristãs que desenvolveram idéias feministas radicais destacam-se: Mary Daly, que escreveu obras como The Church and the Second Sex [A Igreja e o Segundo Sexo] (1968) e Beyond God the Father [Além de Deus o Pai] (1973); Elizabeth Schüssler Fiorenza, que publicou In Memory Her [Em Memória Dela] (1983); e Daphne Hampson, com Theology and Feminism [Teologia e Feminismo] (1990).
É perfeitamente possível que estas autoras estejam por trás das heresias escritas por Cláudio Carvalhaes. Compare o leitor as suas declarações com o que Mary Daly escreveu em Beyond God the Father:
Mary Daly, em Beyond God the Father (Além de Deus o Pai) reinterpreta a história de Eva como uma “queda para a liberdade” (p. 44), e o rancor de Daly contra tudo o que é masculino mostra-se em seu desejo de “castrar Deus” da sua masculinidade (p. 19) e em ridicularizar “a idolatria cristã de Jesus como Deus encarnado” (p. 69). Ela gostaria que todos nós voltássemos para a grande Deusa Mãe (p. 92) e reconhecêssemos que a causa do feminismo radical é a única que pode tornar o mundo livre e criar uma sociedade completamente igualitária ou igual.[15]

Outras autoras não tão agressivas e hostis como Mary Daly têm sugerido “o termo ‘Deus/a como uma designação correta para Deus, apesar da forma desajeitada do termo não contribuir para sua atratividade”.[16] Todavia, o que se pode perceber em praticamente todas as autoras feministas é o uso do método de correlação do teólogo liberal alemão Paul Tillich (1886-1965), “que afirma a necessidade de pensar qualquer realidade juntamente com outra realidade, na medida em que elas se encontram em relação de dependência recíproca”.[17] O método da correlação “consistia em analisar as questões existenciais humanas e propor respostas teológicas cristãs”.[18] Para Paul Tillich, o ponto de partida para se fazer teologia era a cultura, não as Sagradas Escrituras. Nesse afã, Tillich “buscava uma relação positiva – talvez até uma síntese – entre a filosofia secular moderna e a teologia cristã”.[19] Ao empregar tal método, a teologia feminista afirma que “a experiência das mulheres como ‘segundo sexo’, a metade oprimida da humanidade, deve desempenhar um papel determinante nas formulações teológicas”.[20] O mais interessante em relação ao assunto em pauta – as heresias de Cláudio Carvalhaes – é o fato deste ser um profundo admirador de Paul Tillich. Num outro artigo intitulado Toda Teologia é cultural – Um início de discussão, ele diz o seguinte:
Precisamos rever nossa teologia e ver que a agenda teológica, as formas de se adorar a Deus, os valores universais buscados nos evangelhos e mesmo as aspirações que os evangelhos nos trazem têm muito mais de norte-americano do que de universal – e menos ainda de brasileiro. Se quisermos fazer uma teologia brasileira, como é o nome desse site, precisamos romper com esse modelo europeu e norte-americano de fazer teologia, que não leva em conta os dramas locais da vida humana, as experiências únicas de comunidades, suas lutas e sonhos, e atentar criticamente para aquilo que nossa cultura nos direciona, incita e oferece. Precisamos de uma teologia cultural que atente para a nervura social brasileira com suas especifidades, suas contingências e seu rosto índio, negro e europeu, que vai se tornando um rosto tomado pela globalização em suas escolhas e delimitações.[21]

O pano de fundo “tillichano” do pensamento de Carvalhaes se faz mais evidente em outro artigo intitulado Paul Tillich e a Teologia da Cultura.
Tanto a teologia de Paul Tillich quanto a teologia feminista defendida ardorosamente por Cláudio Carvalhaes são muito frágeis. O sistema de pensamento teológico acaba sendo formatado para se adequar a concepções predeterminadas por outras fontes que não as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos. Nesse sentido, o articulista da Vida Nova acaba rejeitando a autoridade das Escrituras, admitindo apenas a autoridade da consciência feminista. O Dr. Alderi Souza de Matos resume bem os principais problemas da abordagem teológica do feminismo radical – e também de Cláudio Carvalhaes: “fazer da experiência de um grupo o princípio fundamental da verdade teológica, do que é ou não é normativo nas Escrituras, é um caminho aberto para o relativismo e para a dissolução da continuidade com o cristianismo bíblico histórico”.[22]

A QUESTÃO DO GÊNERO MASCULINO
Essa discussão sobre o machismo existente na linguagem bíblica também se faz presente nos estudos referentes à língua portuguesa. A revista Língua, na edição de nº 39 de janeiro de 2009, trouxe um artigo denominado A língua portuguesa é machista?, que aborda a problemática das acusações de machismo dirigidas contra a língua portuguesa. Apesar dos apontamentos dizerem respeito à nossa língua vernácula, creio que eles também são pertinentes para entendermos a linguagem escriturística. O autor do artigo, José Augusto Carvalho, afirma que “Deus é masculino não porque a língua é machista, mas porque Deus não tem o ‘do feminino’. O feminino é que tem a marca de gênero, em português. O masculino é, na verdade, a ausência de gênero. Por isso, pronomes como quem, aquilo, isto, nada, tudo, alguém, ninguém, etc. exigem concordância no masculino, que não é gênero. Aliás, o masculino deveria chamar-se neutro ou gênero não-marcado, por oposição ao feminino, que é gênero marcado”.[23] O acadêmico Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia, afirma que,
É pacífica, mesmo entre os que admitem o processo de flexão em barco ® barca e lobo ® loba, a informação de que a oposição masculino – feminino faz alusão a outros aspectos da realidade, diferentes da diversidade de sexo, e serve para distinguir os objetos substantivos por certas qualidades semânticas, pelas quais o masculino é uma forma geral, não-marcada semanticamente, enquanto o feminino expressa uma especialização qualquer.[24]

Ademais, se há algo comum a todas as línguas é a inconsistência do gênero gramatical. Bechara deixa claro que a distinção do gênero nos substantivos não possui “fundamentos racionais, exceto a tradição fixada pelo uso e pela norma”.[25] Podemos observar exemplos dessa inconsistência através da comparação da distribuição de gênero em duas ou mais línguas, e até mesmo no campo de ação de uma mesma língua histórica na sua diversidade temporal, regional, social e estilística. Eis alguns substantivos que evidenciam tal inconsistência: em português “sol” é masculino, mas para os alemães é feminino (die Sonne); “lua” é do gênero feminino, mas, novamente, para os alemães é o contrário, masculino (der Mond); “mulher” é feminino, porém, em alemão é neutro (das Weib); “sal” e “leite” são masculinos em português e femininos em espanhol (la sal e la leche).

CONCLUSÃO
A logorréia disparada por Cláudio Carvalhaes contra a linguagem masculina se revela falaciosa, herética, liberal e acadêmica frágil.
Primeiramente, trata-se de falácia porque ele faz uso de argumentos tendenciosos e inverossímeis a respeito de passagens bíblicas que, supostamente, atribuiriam feminilidade a Deus. Sua exegese do termo rûach pode classificada perfeitamente como falsidade ideológica[26]. Carvalhaes impõe sobre o termo hebraico suas concepções culturais, prática hermenêutica usada pela teologia feminista radical. Em segundo lugar, os argumentos de Cláudio Carvalhaes são heréticos porque ele dá a entender que Jesus possuía como grande auguro do seu coração que Deus fosse uma galinha para ajuntar os seus pintainhos. Além disso, ele faz uso da mesma linguagem de autoras pós-cristãs (devidamente classificadas como anticristãs e pagãs) ao propor que passemos a nos dirigir a Deus em oração como “Mãe nossa que está nos céus”. Em terceiro lugar, Carvalhaes pode e deve ser visto como um liberal dos mais perigosos, visto que minimiza o papel das Escrituras Sagradas na construção de um pensamento teológico sadio e relevante para a nossa sociedade. Como teólogo, Carvalhaes daria um excelente antropólogo. Finalmente, os argumentos apresentados por ele em seus vários artigos presentes no portal da editora Vida Nova são frágeis em termos acadêmicos. Mais parecem desejos anotados numa espécie de “Meu Diário” do que concepções eruditas e persuasivas. Suas palavras expressam seus sonhos. Pois bem, dada a validade eterna da Palavra de Deus – e de sua linguagem masculina – Carvalhaes continuará sonhando por um bom tempo!
Glória, honra e louvor sejam tributados à Trindade Santíssima!
SOLI DEO GLORIA!
[1] FONTE: http://www.vidanova.com.br/
[2] Cláudio Carvalhaes, Somos todos machistas – A Teologia e o lugar da mulher. Disponível no site http://www.vidanova.com.br/. Acessado em 23/10/2008.
[3] CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, (São Paulo: Cultura Cristã, 2005), 224.
[4] Cláudio Carvalhaes, É Deus nossa Mãe? – A Teologia e o lugar da mulher. Disponível no site http://www.vidanova.com.br/. Acessado em 23/10/2008.
[5] Ibid.
[6] rûah em BIBLEWORKS 7.0.
[7] J. Barton Payne em R. Laird Harris, Gleason L. Archer, Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 1407.
[8] Page H. Kelley, Hebraico Bíblico: Uma Gramática Introdutória, (São Leopoldo: Sinodal, 2003), 61.
[9] Walter C. Kaiser, Jr. e Moisés Silva, Introdução à Hermenêutica Bíblica, (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), 87.
[10] Ibid.
[11] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 2, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 475.
[12] Cláudio Carvalhaes, É Deus nossa Mãe? – A Teologia e o lugar da mulher.
[13] Alister E. McGrath, Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão, (São Paulo: Cultura Cristã, 2007), 261.
[14] Stanley J. Grenz e Roger E. Olson, A Teologia do Século 20: Deus e o Mundo numa Era de Transição, (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), 269.
[15] Brian Edwards (ed.), Homens, Mulheres e Autoridade: Servindo Juntos na Igreja, (São Paulo: PES, 2007), 62.
[16] Alister E. McGrath, Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão, 262.
[17] Battista Mondin, Os Grandes Teólogos do Século Vinte, (São Paulo: Teológica, 2003), 115.
[18] Alderi Souza de Matos, Fundamentos da Teologia Histórica, (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), 240.
[19] Stanley J. Grenz e Roger E. Olson, A Teologia do Século 20: Deus e o Mundo numa Era de Transição, 136.
[20] Ibid, 275.
[21] Cláudio Carvalhaes, Toda Teologia é cultural – Um início de discussão. Disponível no site http://www.vidanova.com.br/. Acessado em 23/10/2008.
[22] Alderi Souza de Matos, Fundamentos da Teologia Histórica, 259, 260.
[23] José Augusto Carvalho. A LÍNGUA PORTUGUESA É MACHISTA?. Língua, São Paulo, n. 39, p. 40, 2009.
[24] Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, (Rio de Janeiro: Lucerna, 2004), 132.
[25] Ibid, 133.
[26] O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa Versão Eletrônica assim define “Falsidade Ideológica: “Juridicamente, é o crime de omitir em documentos (materialmente verdadeiros) declarações que eles deviam constar, ou de neles inserir ou fazer inserir declaração falsa, ou diferente do que devia ser escrita, com o intuito de criar obrigação ou alterar a verdade acerca de fato juridicamente relevante; falsidade intelectual”.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...