sexta-feira, 23 de março de 2007

JESUS ENTROU EM CONTRADIÇÃO EM JOÃO 3.13?

Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


O texto que segue é a resposta dada a uma consulta enviada por uma amiga minha. A mesma participa de uma comunidade no orkut e foi questionada por um ateu da seguinte maneira: “A Bíblia é cheia de contradições e erros. O próprio Jesus cometeu um erro em João 3.13: ‘Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem [que está no céu]’. Ele errou aqui porque em 2 Reis 2.11,12 está escrito: ‘Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando suas vestes, rasgou-a em duas partes’. Como Jesus disse que ninguém subiu ao céu, se o Antigo Testamento diz que Elias subiu? Como a Bíblia afirma algo que ela mesma trata de negar?”

Eis a resposta:

Primeiramente, penso que alguns esclarecimentos são pertinentes para uma melhor compreensão das duas passagens (2 Reis 2.11,12 e João 3.13):
Na tarefa de interpretar um texto bíblico devemos, em primeiro lugar, entender devidamente o contexto no qual esse texto está inserido. Isso, aliás, acontece com a interpretação de qualquer texto escrito. A necessidade disso reside no fato de que quando interpretamos um texto deslocado, sentidos espúrios podem vir à tona. É o caso do velho jargão: “Texto sem contexto é pretexto”. E digo mais: “Texto sem contexto é pretexto para heresia”, como nesse caso;
Também devemos identificar o que exatamente cada autor intentou passar com seus escritos. É bem verdade que, um texto pode dizer bem mais do que o que está expresso em primeiro plano pelos signos lingüísticos. Mas, o autor deve ter a liberdade de dizer exatamente o que pretendeu, e não o que queremos que ele tenha dito;
Essa confusão é recente entre a fala de Jesus e o arrebatamento de Elias, visto que sempre se questionou a relação de Elias com o profeta João Batista. É a primeira vez que me deparo com essa associação. Para se ter uma idéia disso, nenhum comentarista trabalha essa associação, sinal de que nunca, ninguém entendeu essas palavras como contradição. Só podia ser coisa de ateu mesmo.

Agora, passemos aos dois textos:
2 REIS 2.11,12: “Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando suas vestes, rasgou-a em duas partes”. Primeiramente, deve ser esclarecido que a problemática não está nesse texto. Por isso, não me deterei muito nele. Essa passagem fala do arrebatamento do profeta Elias, que em toda a sua vida foi fiel a Deus e zeloso no ministério profético. O caso com Elias não foi o primeiro ocorrido. O que aconteceu com Elias foi praticamente o mesmo que aconteceu com Enoque, um dos descendentes de Adão no livro de Gênesis 5.24: “Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si”. Pode-se perceber, então, que de fato, pessoas subiram para o céu. Sendo assim, como podemos entender as palavras de Jesus Cristo quando afirma que ninguém subiu ao céu?
JOÃO 3.13: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu”. Tomando por base o contexto imediatamente anterior no qual esse versículo está inserido, algumas coisas podem ser percebidas: 1) o capítulo 3 de João apresenta um diálogo de Jesus Cristo com um mestre do sinédrio judaico, chamado Nicodemos; 2) Nicodemos interpela a Jesus no sentido de que ele, verdadeiramente, é um “Mestre vindo da parte de Deus”, por causa dos sinais que Jesus operava (v. 2); 3) Jesus responde confrontando a Nicodemos com o ensinamento do Novo Nascimento, ou Regeneração: “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (v. 3), isto é, o reino de Deus se apresenta de maneira espiritual, de modo que, o homem natural não pode ver esse reino; 4) a conversa continua girando em torno do Novo Nascimento, com alguns questionamentos de Nicodemos (vv. 4, 9) e as respostas de Jesus Cristo (vv. 5-8, 10-21). O fato, é que Nicodemos vê a Jesus apenas como um mestre terreno e Jesus Cristo está defendendo sua divindade, tratando de coisas celestiais, como o próprio afirma no versículo 12. De forma mais clara, o assunto é a Regeneração. O argumento de Cristo gira em torno do fato de que a Regeneração é obra de Deus somente, através do Espírito Santo: “Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (vv. 8,9). Então, no versículo 13 Jesus faz a afirmação de que “ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem [que está no céu]”. Entendamos algumas coisas sobre a Regeneração: 1) é obra de Deus somente, ou seja, o homem não tem participação alguma na Regeneração; 2) é parte da obra de salvação que Deus realiza em prol dos seus eleitos; 3) a salvação foi planejada por Deus na eternidade; 4) toda a Trindade estava envolvida no decreto acerca da salvação dos escolhidos de Deus; 5) quando Cristo fez a afirmação do versículo 13, ele, na verdade, estava dizendo que ele estava pessoalmente no trono de Deus quando “as coisas celestiais” foram decididas.

CONCLUSÃO
Para que alguém tenha perfeito entendimento de como se processa o Novo Nascimento é necessário que tal pessoa tenha participado do Conselho Eterno, onde a salvação, juntamente com a Regeneração foi planejada. Porém, ninguém subiu ao céu. Conseqüentemente, o decreto divino concernente à redenção do povo de Deus está completamente fora do conhecimento humano, até que o mesmo lhe seja revelado. Será que realmente não havia ninguém com o Pai quando o plano foi traçado, plano este centralizado no decreto do envio do Filho ao mundo, para carregar a maldição do pecado e libertar o ser humano? Sim, havia alguém com o Pai. Este era aquele que de lá desceu, ou seja, o Filho do homem.
Esse é o sentido dessa passagem. Não há nenhuma contradição na Bíblia Sagrada. Os ateus podem até não aceitar a existência do Deus soberano, entretanto, eles não podem negar a historicidade de Jesus. E mais, a grande maioria de estudiosos ateístas admite que Jesus Cristo possuía uma sabedoria extraordinária. Sendo assim, possuidor de tão vasto conhecimento, Jesus certamente conhecia as Escrituras do Antigo Testamento; conhecia as histórias de Enoque e de Elias e, portanto, ele tinha perfeito conhecimento de que não estava contradizendo o Antigo Testamento. O episódio de Elias trata do seu arrebatamento apenas, já a passagem de João trata da Regeneração e da participação do Filho de Deus no plano eterno de salvação do povo de Deus.
A nossa tarefa é pregar a Palavra aos incrédulos e ateus. Agora, fazê-los crer é obra única e soberana de Deus. Entretanto, isso não diminui de maneira alguma a autoridade das Escrituras, como muito apropriadamente vaticinou Martinho Lutero: “A objetividade e certeza da Palavra permanece mesmo se não for acreditada”.[1] Creiamos na Bíblia, “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1.21).
[1] Martinho Lutero in James M. Boice (org.). Reforma Hoje: Uma Convocação Feita pelos Evangélicos Confessionais, (São Paulo: Cultura Cristã, 2000), 67.

3 comentários:

mauricio disse...

E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. (II Reis: 2 - 11)

“Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu”. (João: 3 – 13)

"Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus;"

"ENTÃO o reino dos céus..." (Mateus 25 : 1)

"E, logo que saiu da água, viu os céus abertos, ..." (Marcos 1 : 10)

"Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, ..." (Marcos 11 : 26)

"E as estrelas cairão do céu, e as forças que estão nos céus serão abaladas." (Marcos 13 : 25)

"E o sétimo anjo derramou a sua taça no ar, e saiu grande voz do templo do céu, do trono, dizendo: Está feito." (Apocalipse 16 : 17)

"O céu é o meu trono, ..." (Atos 7 : 49)

Ora, os versículos afirmam que O CÉU é o trono de Deus, mais que também existe OS CEUS. No plural, ou seja, ninguém subiu ao céu onde Deus está, mais isso não impede de ter subido a um outro céu, na qual diz: OS CÉUS. Que existem três céus...o que a gente vê...o que um dia a gente vai ficar...e o que Deus fica, a sala do trono “céu”, onde há os 4 seres viventes, e os 24 anciãos, apesar que Deus é onipresente em sua ciência, mais sua essência é no trono."E, o que jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que está assentado nele." (Mt 23 : 22).

prcleilson disse...

Excelente sua explicação. Hermeneuticamente baseada. Posso usá-la numa refutação q estou fazendo pra uma ateia???

Alan Rennê disse...

Meu irmão fique à vontade. Pode usar sim. Um grande abraço!

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