sexta-feira, 23 de março de 2007

JESUS ENTROU EM CONTRADIÇÃO EM JOÃO 3.13?

Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


O texto que segue é a resposta dada a uma consulta enviada por uma amiga minha. A mesma participa de uma comunidade no orkut e foi questionada por um ateu da seguinte maneira: “A Bíblia é cheia de contradições e erros. O próprio Jesus cometeu um erro em João 3.13: ‘Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem [que está no céu]’. Ele errou aqui porque em 2 Reis 2.11,12 está escrito: ‘Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando suas vestes, rasgou-a em duas partes’. Como Jesus disse que ninguém subiu ao céu, se o Antigo Testamento diz que Elias subiu? Como a Bíblia afirma algo que ela mesma trata de negar?”

Eis a resposta:

Primeiramente, penso que alguns esclarecimentos são pertinentes para uma melhor compreensão das duas passagens (2 Reis 2.11,12 e João 3.13):
Na tarefa de interpretar um texto bíblico devemos, em primeiro lugar, entender devidamente o contexto no qual esse texto está inserido. Isso, aliás, acontece com a interpretação de qualquer texto escrito. A necessidade disso reside no fato de que quando interpretamos um texto deslocado, sentidos espúrios podem vir à tona. É o caso do velho jargão: “Texto sem contexto é pretexto”. E digo mais: “Texto sem contexto é pretexto para heresia”, como nesse caso;
Também devemos identificar o que exatamente cada autor intentou passar com seus escritos. É bem verdade que, um texto pode dizer bem mais do que o que está expresso em primeiro plano pelos signos lingüísticos. Mas, o autor deve ter a liberdade de dizer exatamente o que pretendeu, e não o que queremos que ele tenha dito;
Essa confusão é recente entre a fala de Jesus e o arrebatamento de Elias, visto que sempre se questionou a relação de Elias com o profeta João Batista. É a primeira vez que me deparo com essa associação. Para se ter uma idéia disso, nenhum comentarista trabalha essa associação, sinal de que nunca, ninguém entendeu essas palavras como contradição. Só podia ser coisa de ateu mesmo.

Agora, passemos aos dois textos:
2 REIS 2.11,12: “Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando suas vestes, rasgou-a em duas partes”. Primeiramente, deve ser esclarecido que a problemática não está nesse texto. Por isso, não me deterei muito nele. Essa passagem fala do arrebatamento do profeta Elias, que em toda a sua vida foi fiel a Deus e zeloso no ministério profético. O caso com Elias não foi o primeiro ocorrido. O que aconteceu com Elias foi praticamente o mesmo que aconteceu com Enoque, um dos descendentes de Adão no livro de Gênesis 5.24: “Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si”. Pode-se perceber, então, que de fato, pessoas subiram para o céu. Sendo assim, como podemos entender as palavras de Jesus Cristo quando afirma que ninguém subiu ao céu?
JOÃO 3.13: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu”. Tomando por base o contexto imediatamente anterior no qual esse versículo está inserido, algumas coisas podem ser percebidas: 1) o capítulo 3 de João apresenta um diálogo de Jesus Cristo com um mestre do sinédrio judaico, chamado Nicodemos; 2) Nicodemos interpela a Jesus no sentido de que ele, verdadeiramente, é um “Mestre vindo da parte de Deus”, por causa dos sinais que Jesus operava (v. 2); 3) Jesus responde confrontando a Nicodemos com o ensinamento do Novo Nascimento, ou Regeneração: “se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (v. 3), isto é, o reino de Deus se apresenta de maneira espiritual, de modo que, o homem natural não pode ver esse reino; 4) a conversa continua girando em torno do Novo Nascimento, com alguns questionamentos de Nicodemos (vv. 4, 9) e as respostas de Jesus Cristo (vv. 5-8, 10-21). O fato, é que Nicodemos vê a Jesus apenas como um mestre terreno e Jesus Cristo está defendendo sua divindade, tratando de coisas celestiais, como o próprio afirma no versículo 12. De forma mais clara, o assunto é a Regeneração. O argumento de Cristo gira em torno do fato de que a Regeneração é obra de Deus somente, através do Espírito Santo: “Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (vv. 8,9). Então, no versículo 13 Jesus faz a afirmação de que “ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do homem [que está no céu]”. Entendamos algumas coisas sobre a Regeneração: 1) é obra de Deus somente, ou seja, o homem não tem participação alguma na Regeneração; 2) é parte da obra de salvação que Deus realiza em prol dos seus eleitos; 3) a salvação foi planejada por Deus na eternidade; 4) toda a Trindade estava envolvida no decreto acerca da salvação dos escolhidos de Deus; 5) quando Cristo fez a afirmação do versículo 13, ele, na verdade, estava dizendo que ele estava pessoalmente no trono de Deus quando “as coisas celestiais” foram decididas.

CONCLUSÃO
Para que alguém tenha perfeito entendimento de como se processa o Novo Nascimento é necessário que tal pessoa tenha participado do Conselho Eterno, onde a salvação, juntamente com a Regeneração foi planejada. Porém, ninguém subiu ao céu. Conseqüentemente, o decreto divino concernente à redenção do povo de Deus está completamente fora do conhecimento humano, até que o mesmo lhe seja revelado. Será que realmente não havia ninguém com o Pai quando o plano foi traçado, plano este centralizado no decreto do envio do Filho ao mundo, para carregar a maldição do pecado e libertar o ser humano? Sim, havia alguém com o Pai. Este era aquele que de lá desceu, ou seja, o Filho do homem.
Esse é o sentido dessa passagem. Não há nenhuma contradição na Bíblia Sagrada. Os ateus podem até não aceitar a existência do Deus soberano, entretanto, eles não podem negar a historicidade de Jesus. E mais, a grande maioria de estudiosos ateístas admite que Jesus Cristo possuía uma sabedoria extraordinária. Sendo assim, possuidor de tão vasto conhecimento, Jesus certamente conhecia as Escrituras do Antigo Testamento; conhecia as histórias de Enoque e de Elias e, portanto, ele tinha perfeito conhecimento de que não estava contradizendo o Antigo Testamento. O episódio de Elias trata do seu arrebatamento apenas, já a passagem de João trata da Regeneração e da participação do Filho de Deus no plano eterno de salvação do povo de Deus.
A nossa tarefa é pregar a Palavra aos incrédulos e ateus. Agora, fazê-los crer é obra única e soberana de Deus. Entretanto, isso não diminui de maneira alguma a autoridade das Escrituras, como muito apropriadamente vaticinou Martinho Lutero: “A objetividade e certeza da Palavra permanece mesmo se não for acreditada”.[1] Creiamos na Bíblia, “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1.21).
[1] Martinho Lutero in James M. Boice (org.). Reforma Hoje: Uma Convocação Feita pelos Evangélicos Confessionais, (São Paulo: Cultura Cristã, 2000), 67.

PASTORES vs. OVELHAS: UM RELACIONAMENTO EM TENSÃO

UMA REFLEXÃO ACERCA DA DIGNIDADE MINISTERIAL EM SEUS MÚLTIPLOS ASPECTOS DIANTE DE UMA IGREJA AUTONOMISTA
Por
Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

• INTRODUÇÃO
Recentemente, foi lançado um filme intitulado O Todo-Poderoso , estrelado pelo ator e comediante Jim Carrey. No dvd, há um recurso que permite assistir aos bônus, que contêm cenas deletadas e estendidas. Numa dessas cenas Jim Carrey aparece ao lado de Morgan Freman, e os dois conversam acerca do fato de todas as orações terem sido atendidas com um “sim”, o que provocou uma verdadeira anarquia. Uma das orações foi feita por um garoto que pediu força física, pois estava cansado de apanhar e ser humilhado pelos outros colegas. O resultado foi que, assim que teve a sua oração atendida, o garoto que antes era humilhado passou a humilhar os outros. Então, Freman mostrou que existe uma grande tendência das pessoas não saberem o que é melhor pra elas, sendo esse o motivo, de que muitas orações não são atendidas da forma como são feitas.
Interessante é que, longe de ser apenas uma ficção, essa é a mais pura realidade, e pode ser aferida nos arraiais do povo de Deus com muita sensibilidade. Nem sempre as pessoas sabem o que é melhor para elas. É verdade que sabem o que querem, mas saber o que se quer e ter discernimento acerca do que se precisa são realidades completamente distintas. Creio que essa foi uma das razões pelas quais o Senhor Jesus Cristo presenteou a sua Igreja com oficiais vocacionados por ele, municiados com a Sagrada Palavra e imbuídos de proclamarem “todo o desígnio de Deus” (Atos 20.27).
O presente artigo é uma reflexão acerca dessa realidade, do papel do ministro como pregador e líder na comunidade local, bem como da obstinação demonstrada em muitas igrejas nos dias de hoje. Estruturalmente, discorreremos, primeiramente, acerca do ofício pastoral e seu trato para com o rebanho de Deus; em segundo lugar, sobre a recomendação bíblica no que concerne ao tratamento ideal que a comunidade local deve dispensar ao pastor; e, em terceiro lugar, do que acontece na realidade. Queira Deus nos conceder êxito nessa empreitada.
• O OFÍCIO PASTORAL
A primeira e essencial verdade que precisamos aprender a respeito do ofício pastoral é que, ele é um dom, uma dádiva ou um presente do Senhor Jesus Cristo para a sua Igreja. Este é o conceito que chega até à nossa mente quando lemos as palavras do apóstolo Paulo em Efésios 4: “Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens... E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (vv. 8,11). Não focalizaremos nossa atenção nos três primeiros ofícios citados, pois “apóstolos”, “profetas” e “evangelistas” foram ofícios temporários, que cessaram quando os dons que caracterizavam tais ofícios também cessaram.
Paulo, no primeiro momento fala a respeito dos dons que Cristo concedeu aos homens por ocasião de sua ascensão; já no segundo momento, ele mostra que dentre esses dons existiam aqueles carismas que caracterizam o ofício pastoral. Isso pode ser perfeitamente percebido, quando vemos as palavras utilizadas, deliberadamente pelo apóstolo: do,mata, que significa “dom” ou “presente” (v. 8), e e;dwken, que quer dizer “dar” ou “conceder”. Por isso, ele afirma que Cristo presenteou os pastores à Igreja. Tudo isso, visando a edificação da mesma (vv. 12-16).
Entendido isso, que o ofício pastoral é um presente de Cristo para a Igreja cristã, devemos prosseguir no nosso estudo proposto.
O ofício pastoral é um ofício permanente, ou seja, estarão presentes na Igreja até à Segunda Vinda de Cristo. E quando me refiro ao ofício pastoral, esta terminologia deve ser compreendida como que abarcando os ministros do governo e os ministros da Palavra. Isso se deve ao fato de que “os termos pastor, presbítero e bispo são empregados no Novo Testamento para designar o mesmo ofício geral de ministros do governo (ou presbíteros regentes), como se pode perceber, do uso intercambiável que deles é feito”. O texto ao qual alude o Rev. Paulo Anglada é Atos 20.17,28, onde a intercambialidade dos termos pode ser aferida: “De Mileto, mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja... Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue”. No grego os termos apresentam apenas nuanças diferentes do mesmo ofício. Por exemplo, o termo presbítero (presbu,teroj) designa um grupo de homens, como líderes espirituais de uma determinada congregação local, “considerando-os do ponto de vista da idade, da maturidade, e da sabedoria e honra que a posição requer” ; o termo pastor (poimh.n) denota a função dos ministros de pastorear, cuidar, alimentar as ovelhas de Cristo, visando o crescimento integral do rebanho (Efésios 4.12-16); já o terceiro termo, bispo, (evpi,skopoj) designa a mesma classe de oficiais, só que apontando para a função de supervisor espiritual do rebanho ou guardião espiritual.
Feitas as considerações terminológicas, percebemos, ainda que, de maneira sucinta, que as atribuições do pastor consistem em prover tudo o que for necessário para o bem-estar espiritual do rebanho: “eles tinham que abastecê-lo, governá-lo e protegê-lo, como sendo da própria família de Deus”. Eles devem alimentar (ensinando, doutrinando), dirigir, proteger e apascentar o rebanho espiritualmente. Isso não pode ser empreendido de maneira egoísta, como o apóstolo Pedro admoesta: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2,3). Antes, tal ofício deve ser desempenhado com um propósito altruístico (além de ser para a glória de Deus, em primeiro lugar): “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo...” (Ef 4.12ss). Isso significa dizer que, o pastor precisa deixar de lado seus projetos pessoais, suas ambições, seus sonhos para atender ao chamado do Supremo Pastor (1Pe 5.4). Ele precisa amar o seu rebanho. Isto é extremamente necessário, pois como afirma Ted Christman,
Se nós não amamos nosso rebanho, isto deve ser tomado como uma prova definitiva de que Deus, o Pai, não nos colocou como pastores do seu rebanho. E nem o Senhor Jesus Cristo nos designou como dádiva para igreja.

Além disso, outra implicação advinda da ausência de amor pelo rebanho é a incapacidade para a realização das responsabilidades pastorais de maneira apropriada. Positivamente, o pastor precisa amar o seu rebanho, para que ele seja energizado e motivado a “prosseguir com suas responsabilidades pastorais”.
Também é imprescindível que o pastor seja exemplo para as suas ovelhas, como afirma o autor aos Hebreus: “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram” (13.7). O pastor precisa ser o modelo de espiritualidade e de fé para as pessoas que fazem parte de sua congregação. Hoje as pessoas estão confusas diante do caos da sociedade moderna. Antigos limites foram retirados, a sociedade está submersa numa espiral descendente de corrupção. Diante disso, o pastor deve zelar por sua espiritualidade, com o propósito de mostrar às suas ovelhas o Autor e Consumador da fé.
Espera-se que isso gere resultados positivos por parte do rebanho.
• O RELACIONAMENTO IDEAL
Por ideal quero dizer a reciprocidade ou cumplicidade, que deveria haver no relacionamento entre o pastor e suas ovelhas. Acredito que o termo que encerraria melhor esse conceito seria sintonia. Isso porque, quando o ministro desempenha as funções pertencentes ao seu ofício com afinco, zelo, fervor, devoção e, acima de tudo, amor para com o Deus soberano que o vocacionou e para com as suas ovelhas, é de se esperar que, elas entendam isso e correspondam no trato com seu pastor.
De maneira mais clara, isso quer dizer que, se por um lado, o pastor tem a obrigação de cuidar espiritualmente do rebanho, por outro lado, o rebanho deve ter na mais alta conta o seu ministro. Em outras palavras, deve conceder a ele a mais alta dignidade, afinal de contas, o trabalho de um pastor é o mais importante e o que exige maior responsabilidade: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hebreus 13.17). O trabalho pastoral é o mais complicado e o que demanda maior responsabilidade pelo fato do pastor cuidar de almas. A própria figura ilustrativa tomada do Antigo Testamento retrata os aspectos do extremo cuidado que permeia o ofício pastoral. O pastor é responsável por almas que lhe foram entregues pelo Supremo Pastor, Cristo Jesus, e, no último dia, ele terá que prestar contas das almas que estiveram sob seus auspícios. Se tiver pastoreado fielmente terá a consciência tranqüila. Caso contrário, será atormentado logo de início por ela, e uma consciência atormentada, nas palavras de Richard Sibbes, é “um lampejo do inferno”.
Tendo isso em mente, fica claro que a dignidade do Sagrado Ministério deve ser reconhecida e valorizada. Essa é a opinião do inspirado apóstolo Paulo: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Timóteo 5.17). A palavra timh/j, traduzida por “honorários”, significa literalmente, “estipêndio”, “salário”, “honra”, “reverência” e “respeito”. Nesta passagem é bem possível que ela assuma essas duas nuanças (salário e honra) , dada a situação em que o ministro se dedica exclusivamente (se afadiga) ao ensino da Palavra e a grande responsabilidade do pastorado. O relacionamento ideal pastor/igreja é aquele que leva em consideração as recomendações escriturísticas no reconhecimento da excelência do ministério.
Além disso, o já citado texto de Hebreus apresenta outras obrigações dos cristãos de uma determinada igreja local para com o seu pastor: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros”. Podem ser percebidos aqui pelo menos três aspectos imprescindíveis ao relacionamento bíblico pastor/ovelha. São eles:
01. Obediência. “Obedecei aos vossos guias”. Trata-se de algo positivo por parte dos cristãos, que devem empreender esforços para cumprir tarefas delegadas por seus pastores. No contexto desse versículo, é possível que alguns crentes estivessem indispostos a obedecerem aos seus líderes. Eles precisavam de ajuda e encorajamento. A obediência, nesse caso, seria de grande valia.
02. Submissão. “Sede submissos para com eles”. Aqui está o aspecto negativo. Obediência e submissão são dois lados de uma mesma moeda. A submissão em questão, diz respeito à anuência exigida diante de decisões tomadas pelos pastores e líderes de uma congregação.
03. Alegria. “Para que façam isto com alegria e não gemendo”. Quando as ovelhas respondem a seus pastores em obediência e submissão, o trabalho destes fica muito mais agradável e alegre: “Quando os membros se recusam a obedecer e não respeitam seus líderes, o trabalho na igreja se torna um grande peso”.
É evidente que, o princípio regulador dos relacionamentos interpessoais da Igreja do Senhor é o amor. Após exorta os colossenses a respeito de seus relacionamentos (3.13), o apóstolo Paulo acrescenta: “acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (v. 14). Pensando nisso, é necessário recordar que, foi dito anteriormente que é de suma importância que o pastor ame o seu rebanho. O ideal seria que ao perceberem e compreenderem o amor que seu pastor tem, as ovelhas respondessem com o mesmo sentimento para com ele. Essa é a idéia do puritano Richard Baxter: “Quando o rebanho vir que vocês o amam verdadeiramente, ouvirá o que dizem – dará o que lhe pedirem – e os seguirá com a maior presteza. E quando, por amor, for aberta uma ferida, será aceita mais prontamente do que quando se diz uma palavra grosseira, proferida com ressentimento ou ira”.
Em suma, o ideal seria que, quando fossem alimentadas por seu pastor, as ovelhas desejassem cada vez mais um alimento da melhor qualidade, e não se preocupassem com capim seco; quando se sentissem em perigo, buscassem a proteção e o cuidado de seu pastor; quando estivessem atônitas, sem saber pra onde ir, que pedissem orientação, como os coríntios fizeram com o apóstolo Paulo (1Coríntios 7.1; 8.4).
Entretanto, os tempos são outros.
• O RELACIONAMENTO REAL
Por aquilo que a experiência atesta, sabemos que na grande maioria das vezes o real é diametralmente oposto ao ideal. Trata-se de uma verdadeira ambivalência. O assunto tratado aqui se encaixa perfeitamente nessa constatação, ou seja, o relacionamento entre pastores e ovelhas enfrenta uma grande tensão hodiernamente.
Não nego que existam rebanhos que, verdadeiramente, honrem seus pastores, tenham por eles o mais sincero afeto e reconheçam a dignidade do Sagrado Ofício. Não obstante, majoritariamente, o que ocorre nos arraiais do povo de Deus é uma verdadeira e completa obstinação à liderança desempenhada pelos pastores.
Também não nego que existam pastores que, reconhecidamente, mereçam a alcunha de “pseudopastores” ou para fazer jus à terminologia bíblica, são verdadeiros mercenários e lobos, que procuram unicamente se aproveitar das pobres ovelhas. Mercenários que, de acordo com Rubem Alves, sofrem com a Síndrome do Galo, por acharem que o sol nasce unicamente por causa do seu canto. Nas palavras do Pr. Osmar Ludovico:
Pastores choram pelas suas ovelhas, lobos fazem suas ovelhas chorar. Pastores têm autoridade espiritual, lobos são autoritários e dominadores... Pastores são ensináveis, lobos são donos da verdade... Pastores são servos humildes, lobos são chefes orgulhosos... Pastores apontam para Cristo, lobos apontam para si mesmos e para a instituição... Pastores usam as Escrituras como texto, lobos usam as Escrituras como pretexto... Pastores ajudam as ovelhas a se tornarem adultas, lobos perpetuam a infantilização das ovelhas... Pastores ajudam as ovelhas a seguir livremente a Cristo, lobos geram ovelhas dependentes e seguidoras deles.

O meu objetivo é discorrer exatamente a respeito de uma terceira situação: pastores fiéis no desempenho do seu serviço, que procuram se apresentar a Deus aprovados como obreiros, que manejam bem a Sagrada Palavra, que têm cuidado de si mesmos e da doutrina, que pregam a Palavra a todo instante, que corrigem, que exortam, que procuram formar Cristo nos corações de suas ovelhas e, não obstante, são desonrados por seus rebanhos.
Não se trata de uma realidade distante. Nas cinco regiões de nosso país, isso pode ser percebido com muita sensibilidade. São conhecidos episódios em que conchavos são armados por igrejas autonomistas, na tentativa de derrubar aqueles que foram entregues às igrejas locais como verdadeiras dádivas de Cristo. Exemplos práticos podem ser aqui apresentados:
01. Um pastor que passa pelo menos quatro anos num seminário, a fim de se preparar teológica e espiritualmente para o ministério, que renuncia ao convívio familiar, que suporta a saudade e, depois, já no pastorado se afadiga no estudo da Palavra, não tendo hora pra ir dormir, pois precisa preparar o alimento para dar às suas ovelhas, que esmurra seu corpo à quase exaustão, mas que é criticado por muitas de suas ovelhas que acham que pastor não faz nada;
02. Um pastor que, amorosamente, trata de um pecado cometido por uma de suas ovelhas, com o propósito de restaurá-la e livrá-la do seu pecado, que se esforça para mostrar que a disciplina é uma prova vívida do amor de Deus por ela, mas que é difamado por outras ovelhas que queriam ver o mal na vida da disciplinada;
03. Domingo após domingo, um pastor proporciona alimento de boa qualidade, para que suas ovelhas cresçam e se fortaleçam (Efésios 4.12), que tem por objetivo, no que diz respeito à adoração congregacional, instruí-las a respeito do culto que agrada a Deus como sendo regulado pelas Sagradas Escrituras, para que se tornem, cada vez mais, melhores adoradoras (João 4.24), mas que é alvejado por comentários torpes, pois muitas vezes as suas ovelhas não suportam a sã doutrina (2Timóteo 4.3), querendo apenas inovações.
Creio que muitos outros exemplos poderiam ser citados, contudo, os supramencionados são sintomáticos de uma cristandade que está distante, muito distante do padrão apresentado na Bíblia. Nesse sentido, lembro das palavras de James Packer ao estabelecer uma comparação entre a cristandade atual e os nossos pais puritanos: “os Puritanos exemplificavam a maturidade; nós não. Somos anões espirituais. Os Puritanos, em contraste... eram gigantes”.
Recentemente, me engajei num debate informal com uma de minhas ovelhas sobre teologia do culto. A certa altura, quando expus que a idéia de solos musicais entre outras coisas não tem suporte bíblico e, por isso, não tem lugar no culto de adoração ao Senhor, minha ovelha argumentou: “para mim isso não é o bastante, o padrão pra mim é que, desde que algo não que fira a minha espiritualidade, pode fazer parte do culto”. Então, eu questionei o que ele quis dizer com “minha espiritualidade”, e a resposta que tive identificava espiritualidade com misticismo. Aí está um típico exemplo da confusão predominante no evangelicalismo brasileiro. Muitas pessoas acham que existe um nível de espiritualidade melhor do que aquele identificado pelas Escrituras. Nesse caso, as observações do Rev. R. J. Rushdoony são muito pertinentes:
Não há nenhum mérito como tal em ser espiritual. O diabo, afinal de contas, é inteiramente espiritual, mas isso não o torna piedoso. Repetidamente, o mandamento dado na Escritura é: “Portanto, santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 20.7). Ser santo, ou ser santificado, e ser espiritual não são necessariamente a mesma coisa. As Escrituras deixam claro que santidade significa obediência de coração à lei-palavra de Deus.

A alegada espiritualidade é, na verdade, um desprezo às solenes afirmações, prescrições, estatutos e mandamentos das Escrituras. E quando se tem uma visão míope a respeito da Palavra de Deus, não se pode esperar que se tenha em alta conta os valores nela apresentados, e o pastorado é um clássico exemplo disso.
Este é o relacionamento real entre pastores e ovelhas autonomistas. Não há obediência, submissão e, principalmente, amor. O que tem imperado é a obstinação, a rebeldia e o apego ao pecado.
• CONCLUSÃO
Daquilo que foi apresentado aqui, fica evidente, que há uma grande distância entre a realidade e a ideologia. O relacionamento real entre pastores e ovelhas está longe de refletir o relacionamento ideal. Algo precisa ser feito, pois existe um grande risco de que toda a massa seja levedada por esse fermento demoníaco e satânico. E acredito, firmemente, que o passo essencial é o arrependimento pela situação instaurada no meio do povo de Deus e a obediência irrestrita aos mandamentos da Bíblia Sagrada.
Por parte dos pastores, é imprescindível que eles procurem atender à exortação apostólica: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2,3).
Já no que diz respeito às ovelhas, é necessário que elas lembrem e ponham em prática a parte que lhes compete: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Timóteo 5.17); e “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros” (Hebreus 13.17).
Que Deus tenha misericórdia de nós e nos faça melhores ovelhas de Seu rebanho.
SOLI DEO GLORIA!
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