terça-feira, 18 de junho de 2013

OS DEVERES DOS MEMBROS DA IGREJA PARA COM O SEU PASTOR #1

John Angell James
John Angell James[i]

É pela vontade e apontamento do Senhor Jesus Cristo, o glorioso Rei e Cabeça das Suas igrejas, que os seus membros devem se comportar em relação aos seus pastores como seus ministros, que vêm em nome dEle, carregam os mandamentos dEle e efetuam os negócios dEle; e que sejam tratados, em relação a qualquer coisa, de uma maneira que corresponda ao ofício que desempenham. Num sentido subordinado, eles são embaixadores de Cristo, e devem ser recebidos e estimados de uma maneira que corresponda à autoridade e glória do Soberano que os comissiona. Quem quer que os ofenda, insulte ou os negligencie, no exercício dos seus deveres oficiais, desobedece e despreza seu divino Mestre, que se ressente profundamente de todas as injúrias lançadas contra eles. Nenhum soberano terreno permite que seus mensageiros sejam rejeitados e insultados sem punição; muito menos o Senhor da igreja. Aqueles que entretêm baixos pensamentos a respeito do ofício pastoral negligenciam aridamente suas ministrações; quem fala com desdém dos seus ministros, quem excita um espírito de resistência aos seus conselhos, admoestações e reprovações, quem se esforça para diminuir aquela justa reverência, para que, por causa da sua obra, e em nome do seu Mestre, eles têm direito, certamente os despreza, e não apenas eles, mas a Ele que os enviou! E por tal conduta, eles certamente incorrerão no pesado desagrado de Cristo (Lucas 10.16; 1Tessalonicenses 5.13).

Mas, descendo aos particulares, os deveres dos membros da igreja para com seus pastores são:

1. Submissão à sua autoridade justa e bíblica.
É prontamente admitido que não bíblica e, portanto, dominação usurpada do ministério é a raiz de onde surgem o completo sistema da tirania papal; que, surgindo como uma árvore venenosa no jardim do Senhor, secou por sua sombra, e marcou por sua influência, quase todas as plantas e flores do Cristianismo genuíno. É questão de não arrependimento, portanto, nem de surpresa, se um ciúme incessante for mantido por aqueles que entendem os princípios da liberdade religiosa contra as usurpações da autoridade pastoral. Domínio sacerdotal, tal como aparece no Vaticano, é a mais detestável e a mais maldosa de todas as tiranias; mas quando ele aparece no pastor de uma igreja independente, ao mesmo tempo despojado de todos os elementos de poder e das armadilhas da majestade, o simples mimetismo de autoridade é mais ridículo do que alarmante, e não possui nenhuma semelhança com seu protótipo em Roma, a semelhança de como fez o pequeno, coaxante e saltador animal da lagoa com o boi do campo, cujo orgulho o fez inflar até que estourasse.

No entanto, ainda assim, existe uma autoridade pertencente ao pastor, pois ofício sem autoridade é um absurdo! “Lembrem-se daqueles que têm governo sobre vocês”, disse São Paulo aos Hebreus (13.7). “Obedeçam aos que governam sobre vocês e sejam-lhes submissos, pois eles cuidam das suas almas” (13.17). Àqueles “que se devotaram a si mesmo ao serviço dos santos, também se sujeitem a estes” (1Coríntios 16.15-16). Estas injunções são inspiradas, e requerem obediência e submissão das igrejas cristãs aos seus pastores. A autoridade dos pastores, entretanto, não é legislativa ou coerciva, mas simplesmente declarativa e executiva. Definir com precisão seus limites é tão difícil quanto marcar os limites das várias cores do arco-íris, ou os limites da luz e escuridão na hora do crepúsculo no hemisfério.

Este não é o único caso em que os limites da autoridade são deixados sem precisão definida pelas Escrituras. Os deveres da união conjugal são definidos da mesma maneira geral: o marido deve governar e a esposa deve se submeter. Mas ainda é difícil declarar onde, neste caso, autoridade e submissão terminam. Em cada um destes exemplos, a união é fundamentada sobre amor mútuo, confiança e estima e pode, portanto, ser racionalmente suposto que, sob estas circunstâncias, termos gerais são suficientes, e que não devem surgir lutas pelo poder. Se as pessoas veem a autoridade do seu pastor sendo empregada para o seu benefício, elas não se inclinarão a determinar por medições se ele ultrapassou os limites da sua autoridade. A própria circunstância da prerrogativa sendo assim definida deve, por um lado, fazer com que ele tema estendê-la, e de outro lado, torna a sua igreja cautelosa quanto a diminuí-la. É minha decidida convicção que, em algumas de nossas igrejas o pastor é reduzido muito abaixo do seu nível justo. Ele é considerado meramente como um simples irmão que discursa. Em algumas igrejas ele não possui nenhuma distinção oficial ou autoridade. Ele pode elogiar como um bajulador, ele pode pedir como um servo, ele pode galantear como um amante, mas não lhe é permitido comandar como uma autoridade. Sua opinião é recebida sem nenhum respeito, sua pessoa tratada sem nenhuma honra, e na presença de alguns dos seus tiranos leigos, se ele diz qualquer coisa, é semelhante aos antigos adivinhos, pois a ele é permitido apenas chiar e murmura com a boca no pó.

Aquelas pessoas que estão ansiosas para retirar dos seus pastores toda justa elevação, não podem esperar obter muita edificação a partir dos seus labores; pois instrução e conselho, como substâncias que caem na terra, impressionam a mente com uma força proporcional à altura da qual elas caem.
FONTE: John Angell James; Gardiner Spring. The Duties of Church Members To Their Pastors/A Plea To Pray for Pastors. Birmingham, AL: Solid Ground Christian Books, 2009. pp. 1-3.


[i] Pastor congregacional, nasceu em 1785 e morreu em 1859. Era um ministro inglês não-conformista.

terça-feira, 9 de abril de 2013

A ESTRATÉGIA DA MILITÂNCIA HOMOSSEXUAL

Não importa quão polido e educado você seja. Não importa quão cuidadosamente você escolha os termos da sua afirmação. No momento em que verbaliza sua posição contrária às reivindicações do movimento homossexual, instantaneamente você é acusado de incentivar o ódio contra os homossexuais. A afirmação "Sou contra a união civil e a concessão de direitos especiais aos homossexuais" frequentemente é entendida como "Odeio os homossexuais! Por mim todos morreriam e queimariam no mais profundo do inferno!"

Estou convicto de que não se trata de um simples ruído na comunicação. Não se trata de algo que prejudicou o correto entendimento do receptor. Creio que isso é feito de maneira proposital. Os militantes pró-homossexualismo propositadamente distorcem toda e qualquer manifestação contrária ao seu projeto, como parte de uma estratégia, visando angariar a simpatia do populacho.


Tudo isso faz parte de uma estratégia maquiavélica do movimento LGBT. O Dr. Albert Mohler discorre acerca do empreendimento homossexual. Após falar do Cristianismo como sendo o maior obstáculo diante do movimento, Al Mohler apresenta as táticas sugeridas por Marshall Kirk (pesquisador em neuropsiquiatria) e Hunter Madsen (consultor de relações públicas), que escreveram um livro intituladoAfter the Ball? How America Will Conquer Its Fear and Hatred of Gays in 90’s(Depois do Baile: Como a América Vencerá seu Medo e Ódio aos Gays nos anos 90):
Concebendo seu livro como “um manifesto gay para a década de 90”, os autores recomendam que os homossexuais se apresentem com outra postura, como cidadãos da cultura predominante que exigem tratamento igualitário, e não como uma minoria sexual promíscua que busca maior oportunidade e influência [...]
Retratar os homossexuais como vítimas era essencial à estratégia deles. Oferecendo diversos princípios para o avanço tático em sua causa, os autores apelaram aos homossexuais que se apresentassem como vítimas da sociedade, e não como revolucionários. Se os heterossexuais vissem os gays como sofredores oprimidos, seriam eventualmente “inclinados por reflexão a adotar o papel de protetores”. Essa estratégia, eles disseram, poderia levar a algo semelhante à “conversão” da mentalidade do povo sobre a questão da homossexualidade. “O propósito do retrato de vítima é fazer os heterossexuais se sentirem incomodados”, os autores explicaram. No devido tempo, os heterossexuais poderiam cansar de sentirem-se opressores e chegar a simpatizar com os gays, sentindo-se até compelidos a ajudá-los a reverter a injustiça que a sociedade lhes infligira [...]
As igrejas conservadoras [são] definidas pelos autores como “igrejas que odeiam os homossexuais”, são retratadas como “estagnadas e antiquadas, terrivelmente fora de harmonia com estes tempos e com as últimas descobertas da psicologia”. Outros princípios oferecidos pelos autores incluem o fazer os gays parecerem bons, por identificarem figuras históricas estratégicas como homossexuais secretos e, por outro lado, por fazer os “vitimadores” parecerem maus aos olhos da sociedade.[1]

Os homossexuais fazem amplo uso da tática aqui delineada (leia-se: DISSIMULAÇÃO!). O estereótipo homossexual vendido pela mídia é o de alguém oprimido, humilhado e marginalizado, cujos direitos mais básicos são negligenciados. Eles se apresentam como vítimas, sendo que, apresentam como sendo os piores algozes, os cristãos. Os pregadores cristãos são apresentados pelos encarregados de vender o “produto homossexual” como “histéricos e incultos, falando absurdos com ódio em um nível que chega a ser cômico e perturbador”.[2] Para reforçar o efeito catastrófico dessa tática, os militantes apresentam imagens comoventes de homossexuais, que parecem decentes, como inofensivos, amáveis e, consequentemente, oprimidos pelos pregadores histéricos. Alhures, Mohler diz o seguinte:
Os defensores do casamento homossexual estão fazendo pressão em favor de seu caso e, mesmo com barreiras políticas e legais administrativas, enquadraram a questão de modo que aqueles que se apegam a um conceito bíblico de casamento são colocados na defensiva, e os defensores das relações entre pessoas do mesmo sexo são retratadas como agentes da liberdade, do progresso e da inevitável evolução cultural.[3]

FONTES: [1] Albert Mohler, Jr. Desejo e Engano: O Verdadeiro Preço da Nova Tolerância Sexual. São José dos Campos: Fiel, 2009. p. 86, 87, 88. Ênfase acrescentada.

[2] Ibid. p. 89.

[3] Albert Mohler, Jr. O Casamento Homossexual como um Desafio para a Igreja: reflexões bíblicas e culturais. In: John Piper e Justin Taylor (Orgs.). Sexo e a Supremacia de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 133. Ênfase acrescentada.

sexta-feira, 15 de março de 2013

QUEM É A PEDRA?

Por D. A. Carson


QUEM É A PEDRA?

E SOBRE ESTA PEDRA... Agora, 'pedra' torna-se petra (feminino), e com base na distinção entre petros (acima) e petra (aqui), muitos tentam evitar identificar Pedro como a pedra sobre a qual Jesus edifica sua igreja. Alega-se que Pedro é uma mera 'pedra'; mas Jesus mesmo é a 'pedra', conforme Pedro mesmo atesta (1Pe 2.5-8; como, entre outros, Lenski, Gander, Walvoord). Outros adotam alguma outra distinção: e.g., 'sobre essa pedra da verdade revelada - a verdade que você acaba de confessar - edificarei minha igreja' (Allen). Contudo, se não fosse pela reação protestante contra os extremos de interpretação do catolicismo romano, seria duvidoso que muitos considerassem que 'pedra' fossem alguma outra coisa ou outra pessoa que não Pedro.

1. Embora seja verdade que, no grego antigo, petros e petra possam ter o sentido de 'pedra' e 'rocha', respectivamente, a distinção está grandemente limitada à poesia. Além disso, nesse caso, a base aramaica é inquestionável; e o mais provável é que kêpâ' tenha sido usado nas duas orações ('você é Kêpâ', e sobre esta kêpâ''), uma vez que a palavra foi usada para o nome e para 'pedra'. A Peshita (escrita em siríaco, língua cognata com o aramaico) não faz distinção entre as palavras nas duas orações. O grego faz a distinção entre petros e petra apenas porque tenta preservar o jogo de palavras, e, no grego, o feminino petra não pode servir muito bem como nome masculino.

2. A paronomásia de diversos tipos é muito comum na Bíblia e não deve ser diminuída (cf. Barry J. Beitzel, 'Exodus 3:14 and the Divine Name: A Case of Biblical Paronomasia' ['Êxodo 3.14 e o nome divino: um caso de paronomásia bíblica'], Trinity Journal [1980], p. 5-20; BDF, par. 488).

3. Se Mateus não quisesse dizer nada mais além de que Pedro era uma pedra em contraste com Jesus, a Rocha, a palavra mais comum a ser usada seria lithos ('pedra' de quase qualquer tamanho). Então, não haveria jogo de palavras - e esse é exatamente o ponto!

4. A objeção de que Pedro considera Jesus a rocha não tem fundamento porque as metáforas são normalmente usadas de formas variadas, até que se tornem estereotipadas e, às vezes, mesmo depois disso. Aqui, Jesus edifica sua igreja; em 1Coríntios 3.10, Paulo é um 'sábio construtor'. Em 1Coríntios 3.11, Jesus é a fundação da igreja; em Efésios 2.19,20, os apóstolos e os profetas são a fundação da igreja (cf. também Ap 21.14), e Jesus é a 'pedra angular'. Aqui, Pedro tem as chaves; em Apocalipse 1.18; 3.7, Jesus tem as chaves. Em João 9.5, Jesus é a 'luz do mundo'; em Mateus 5.14, seus discípulos são a luz do mundo. Nenhum desses pares de metáforas ameaça a singularidade de Jesus. Eles apenas mostram como as metáforas devem ser interpretadas principalmente em relação ao seu contexto imediato.

5. Nessa passagem, Jesus é o construtor da igreja e seria uma estranha mistura de metáforas incluir na mesma oração as que também o veem como a fundação da igreja.

Nada disso requer que as percepções conservadoras do catolicismo romano sejam endossadas (para exemplificar essas percepções, cf. Lagrange, Sabourin). O texto não diz nada a respeito da infalibilidade ou autoridade exclusiva dos sucessores de Pedro. Essas interpretações posteriores acarretam insuperáveis problemas exegéticos e históricos - e.g., depois da morte de Pedro seu 'sucessor' teria autoridade sobre o apóstolo sobrevivente, João. O que o Novo Testamento mostra é que Pedro foi o primeiro a fazer essa confissão formal e que a proeminência dele continua nos primeiros anos da igreja (At 1-12). Mas ele, junto com João, pode ser enviado pelos outros apóstolos (At 8.14), e ele tem de prestar contas de seus atos à igreja de Jerusalém (At 11.1-18) e é repreendido por Paulo (Gl 2.11-14). Em suma, ele é PRIMUS INTER PARES ('primeiro entre iguais'); e sobre a fundação desses homens (Ef 2.20), Jesus edifica sua igreja.

D. A. Carson. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. pp. 431-432.

QUEM É A PEDRA?

Por William Hendriksen


O significado é: VOCÊ É PEDRO, ISTO É, ROCHA, E SOBRE ESTA ROCHA, ISTO É, SOBRE VOCÊ PEDRO, EDIFICAREI MINHA IGREJA. 'E eu disse a você, você é Kepha, e sobre esta kepha edificarei minha igreja'. Jesus, pois, está prometendo a Pedro que ele está para edificar sua igreja sobre ele! Eu aceito este ponto de vista.


Havendo dito isso, é necessário qualificar essa interpretação da seguinte forma. Jesus promete edificar sua igreja:

a. Não sobre Cefas como ele era por natureza, mas sobre ele considerado como um produto da graça. Por natureza esse homem era, em certo sentido, débil, muito instável, como já se indicou. Pela graça se tornara a mais corajosa, entusiasta e eficaz testemunha da verdade que o Pai lhe revelara com respeito a Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo. Foi nesse sentido que Jesus usou Pedro para edificar - reunir e fortalecer - sua igreja.

b. Não sobre Cefas considerado completamente isolado, mas sobre Cefas como o 'primeiro entre iguais' (Mt 10.2), isto é, sobre 'Pedro assumindo sua posição com os onze' (At 2.14). A autoridade que em 16.19 é delegada a Pedro é em 18.18 delegada aos Doze (ver também Jo 20.23). De fato, no exercício dessa autoridade a congregação local não deve ser desconsiderada (18.17).

Quando o Senhor disse as palavras registradas aqui em 16.18,19, ele certamente não quis dizer que Pedro agora podia começar a 'dominar' sobre os demais discípulos. Os demais não o entendiam dessa forma (18.1; 20.20-24), e Jesus certamente rejeitou tal interpretação (20.25-28; cf. Lc 22.24-30). Se Pedro mesmo houvesse concebido sua autoridade ou a de outros como a de um ditador, como poderia haver escrito uma passagem tão bela como 1Pedro 5.3?

c. Não sobre Cefas como fundamento primordial. No sentido primário ou básico do termo, só há um único fundamento, e esse fundamento não é Pedro, e, sim, o próprio Jesus Cristo (1Co 3.11). Num sentido secundário, porém, é inteiramente legítimo falar dos apóstolo, inclusive Pedro, como o fundamento da igreja, porque esses homens sempre estavam desviando a atenção de si mesmos para Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador.

William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: Mateus. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. pp. 204-205.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

STEPHEN CHARNOCK SOBRE OS ATRIBUTOS DE DEUS

Joel R. Beeke e Mark Jones
O que Deus É (Quid Deus Sit?)[1]
O ser de Deus está necessariamente ligado aos conceitos de essência e existência. O primeiro é alvo de consideração na exposição de Charnock de João 4.24: “Deus é um Espírito”. “Ele não tem nada corpóreo, nenhuma mistura de matéria, nenhuma substância visível, nem forma física”.[2] Charnock observa que João 4.24 é o único lugar em toda a Bíblia onde Deus é explicitamente descrito como um Espírito, no mínimo nestas exatas palavras (totidem verbis). Se Deus existe, necessariamente Ele deve ser imaterial ou incorpóreo, visto que a matéria é imperfeita por natureza. Aqui Charnock, num estilo semelhante a muitos teólogos reformados ortodoxos, argumenta por meio da negação. Charnock afirma que Deus pode ser descrito de duas maneiras: por afirmação (Deus é bom) e por negação (Deus não tem corpo). “A primeira atribui a ele o que quer que seja excelente; a outra o separa de o que quer que seja imperfeito”.[3] Na visão de Charnock, o caminho da negação é o melhor modo para entender Deus; de fato, é o modo como comumente entendemos a Deus. Para descrever Deus, a palavra “mutável” se torna “imutável”, isto é, Deus não pode mudar.

Ao afirmar que Deus é um espírito, ao mesmo tempo se está afirmando o que Ele não é (isto é, Ele não tem corpo). Como oposto à existência material, o ser de Deus é não-composto. Além disso, porque Deus é um espírito, Charnock é capaz de mostrar como isso, necessariamente fala sobre os seus outros atributos. Por exemplo, sustentando a máxima reformada finitum non capax infiniti (o finito não pode conter o infinito), Charnock explica que se Deus não fosse um espírito, ele não poderia ser infinito; ou, positivamente, porque ele é um espírito, ele também é um ser independente que é ilimitado e imutável, e sua imutabilidade depende da sua simplicidade. O ponto que Charnock destaca nessa seção da sua exposição é que deve existir consistência entre a essência de Deus e seus atributos; de outra maneira, ele não pode ser Deus.[4] Ao começar com a espiritualidade de Deus, Charnock está em linha com a Confissão de Fé de Westminster, que faz da espiritualidade o primeiro dos atributos de Deus: “Há um único Deus vivo e verdadeiro, que é infinito em seu ser e perfeição, um espírito puríssimo, invisível, sem corpo” (2.1). Por estas razões, a defesa que Charnock faz de Deus como Espírito é um ponto de partida adequado para sua discussão dos atributos de Deus, a principal parte do seu discurso.

A Simplicidade de Deus
Esse título pode parecer estranho dado que o discurso de Charnock sobre os atributos de Deus não tem uma seção devotada explicitamente à simplicidade de Deus (simplicitas Dei). De fato, como Richard Muller observa, enquanto “o conceito de divina simplicidade era sustentado virtualmente por todos os teólogos ortodoxos dos séculos dezesseis e dezessete, ele não era invariavelmente discutido como um atributo separado em seus sistemas teológicos”.[5] Não existe dúvida, portanto, que Charnock afirme a simplicidade de Deus em muitos lugares. O conceito da divina simplicidade, que Deus é livre de toda composição, é afirmado por teólogos da Reforma e da Pós-Reforma.[6] Ele não é um ser composto como a soma das suas partes: “Deus é o mais simples ser; posto que é o primeiro em natureza, não tendo nada além de si, não podendo por qualquer meio ser pensado como sendo composto”.[7] Francis Turretin (1623-1687) explica a divina simplicidade ao refutar os socinianos, que rejeitaram esse conceito para poder rejeitar a doutrina da Trindade, e os remonstrantes, que negaram que a doutrina devesse ser afirmada como um artigo de fé visto que, como eles entendiam, as Escrituras silenciam sobre o assunto.[8] A simplicidade de Deus é um conceito elusivo, mas o modo de entender o que os teólogos reformados querem dizer por ele é por negação e afirmação. Negativamente, a simplicidade nega que exista alguma coisa e outra em Deus. Positivamente, a simplicidade afirma que o que quer que seja Deus é Deus. A simplicidade, então, é o atributo incomunicável de Deus “pelo qual a natureza divina é concebida por nós não apenas livre de toda composição e divisão, mas também como incapaz de composição e divisibilidade”.[9]

O entendimento de Charnock sobre a simplicidade de Deus reflete a posição básica da ortodoxia reformada. Em primeiro lugar, a simplicidade reflete a consistência dos atributos de Deus.[10] Mutabilidade é “absolutamente inconsistente com simplicidade”, pois se Deus “pudesse ser mudado por alguma coisa dentro de si mesmo, tudo em Deus não seria Deus”.[11] O poder de Deus também está ligado à sua simplicidade. Por mais simples que uma substância seja, mais poderosa ela é. Aqui, Charnock adiciona: “Onde existe a maior simplicidade existe a maior unidade; e onde existe a maior unidade existe o maior poder”.[12] Portanto, é incorreto argumentar que Deus é a soma de todos os atributos divinos. Em vez disso, os atributos são idênticos à essência de Deus. Charnock afirmou que a divina simplicidade é absolutamente essencial para o entendimento dos outros atributos divinos; de fato, todos os outros atributos divinos dependem deste conceito. Ao discutir os atributos divinos (por exemplo, sua imutabilidade e eternidade), o conceito de divina simplicidade é axiomático para o entendimento de Charnock da doutrina de Deus, como era para os teólogos escolásticos reformados.[13]

FONTE: Joel R. Beeke e Mark Jones. A Puritan Theology: Doctrine for Life. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2012. pp. 60-62.


[1] Veja o Breve Catecismo de Westminster, Pergunta 4.
[2] Charnock. Existence and Attributes. p. 107.
[3] Charnock. Existence and Attributes. p. 109.
[4] Charnock. Existence and Attributes. p. 111-113.
[5] Muller. Post-Reformation. 3:275.
[6] Para uma breve discussão desse conceito no pensamento de John Owe, veja Carl Trueman, John Owen: Reformed, Catholic, Renaissance Man. (Aldershot: Ashgate, 2007). pp. 38-39.
[7] Charnock. Existence and Attributes. p. 210.
[8] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. ed. James T. Dennison Jr., trans. George Musgrave Giger (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1992). 3.7.1.
[9] Turretin. Institutes. 3.7.3. Sobre atributos comunicáveis e incomunicáveis, veja Leigh. Treatise of Divinity. 2.22-23.
[10] Leigh também sustenta que porque Deus é o ser mais simples ele também deve ser incorpóreo. Treatise of Divinity. 2.24.
[11] Charnock. Existence and Attributes. p. 210.
[12] Charnock. Existence and Attributes. p. 415.
[13] A questão sobre se o conceito de divina simplicidade é consistente com a Trindade é respondida por te Velde: “Não é a existência de três Pessoas uma forma de composição? Os escritores ortodoxos reformados são unânimes em sua negação: as Pessoas não compõem, mas apenas distinguem (personae non componente, sed distinguunt). As três Pessoas não se relacionam umas com as outras como seres diferentes, mas como modos distintos de ser (modi subsistentiae) ou modificações”. Paths. p. 126.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

COMO ESCREVER UM ENSAIO TEOLÓGICO

John M. Frame
Por John M. Frame


O que se segue é meu método de pesquisa e escrita teológica. Há certamente muitos outros, e nem sonho em impor a minha abordagem a quem quer que seja. Contudo, você deve partir de algum ponto, com algum tipo de modelo em sua cabeça; e, depois de alguns anos de trabalho nesse campo, continuo achando que o seguinte plano tem algum mérito.

Todos os ensaios teológicos, mesmo os que são dedicados às ideias originais do autor, envolvem alguma pesquisa. (Esse é o caso mesmo quanto aos ensaios e outras apresentações não redigidos num estilo acadêmico tradicional.) No mínimo envolve pesquisa exegética e uma inteligente interação com textos bíblicos. De outro modo, à obra teológica dificilmente poderá arrogar-se alguma qualidade escriturística; e, se não for escriturística, simplesmente será sem valor. Adicionalmente, em geral deve haver alguma interação com outros teólogos ortodoxos, a fim de proteger-nos de alguma aberração individualista. Pode haver também alguma interação com alguma teologia não ortodoxa, e, na esfera secular, com a ciência, a política, a economia, a filosofia, as tendências culturais, e coisas semelhantes, em termos de contraste, crítica, e “ponto de contato”.

Além disso, todo ensaio deve conter alguma coisa do próprio teólogo. Raramente é suficiente apenas dizer ao leitor o que alguma outra pessoa diz (um “ensaio expositivo”, como eu lhe chamo). Nos trabalhos do nível de seminário também não é adequado firmar uma série de argumentos-“padrão” sobre um assunto – argumentos que têm sido utilizados repetidamente. Descrevo os trabalhos desse tipo como “linhas partidárias”. Essas muitas vezes são úteis; é bom você ter na ponta da língua os argumentos-padrão a favor do batismo infantil, por exemplo. Eu mesmo uso frequentemente esse tipo de argumento quando falo com inquiridores. Mas em geral os argumentos tipo linha partidária não são próprios para os ensaios teológicos. Exposições, sumários, pesquisas, linhas partidárias – todas essas coisas são, essencialmente, regurgitações de ideias obtidas de outras fontes. Envolvem pouco pensamento analítico ou crítico. Mas esse é precisamente o pensamento necessário, se é que se espera que o ensaio represente um avanço no conhecimento da igreja.

A integração entre a pesquisa e o pensamento criativo pessoal é, pois, a meta – ou melhor, é um importante meio pelo qual chegar à meta final da edificação. Para cumprir esse propósito, trabalho de acordo com os seguintes passos (mais ou menos):

1. Escolha um tópico com cuidado, um tópico que ajude as pessoas e que você possa manejar adequadamente dentro do tempo que lhe estiver disponível e dentro da extensão do documento que você pretende escrever (e na extensão da apresentação não escrita).

2. Procure entender as suas fontes. Deve-se fazer exegese completa dos textos da Escritura. Quanto às outras fontes, em geral faço esboços completos das mais importantes. Se estou fazendo resenha de um livro (ao menos em certa extensão), costumo esboçar o volume inteiro, procurando entender precisamente a estrutura dos argumentos, o que é dito e como é dito. As fontes menos importantes, isto é, as que são referidas só de passagem ou das quais só pequenas porções são de interesse, podem ser tratadas com intensidade proporcionalmente menor; mas o teólogo tem a responsabilidade de fazer uso correto mesmo de fontes incidentais.

3. Escreva o que você achar interessante. Depois de fazer esboços das minhas fontes, costumo tornar a lê-las (mais depressa na segunda vez, pois o esboço ajuda) para descobrir coisas que me interessam. Eu redijo (com página de referências) qualquer coisa que me pareça especialmente útil, qualquer coisa que seja especialmente ruim, qualquer coisa que causa confusão ou perplexidade, qualquer porção que possa acrescentar uma fatia ao meu escrito. Esse é o princípio da real atividade teológica (embora a criatividade de certo tipo não deva faltar inteiramente nem aos estágios 1 e 2).

4. Faça perguntas acerca das suas fontes. Qual é o propósito do autor? A que perguntas ele está tentando responder, e como as responde? Tente parafrasear a posição dele da melhor maneira que puder. A posição dele é clara? Analise toda e qualquer ambiguidade. Que é que ele está dizendo, se lhe dermos a melhor interpretação possível? E se lhe dermos a pior? E a mais provável? Se você topar com alguma coisa especialmente interessante, acrescente-a às notas mencionadas no passo 3.

5. Formule uma perspectiva crítica das suas fontes. Como você as avalia? Use os critérios 1 a 9 do Apêndice E [Avaliando Escritos Teológicos]. Sempre é preciso haver uma avaliação, positiva ou negativa; se você não souber o que é bom ou ruim numa fonte, não poderá fazer nenhum uso responsável dela. Claro está que, quanto a um texto da Escritura, a avaliação sempre deve ser positiva. Com relação a outros textos, geralmente há algum elemento de avaliação negativa.

6. Organize as suas notas de acordo com os tópicos de interesse. Geralmente eu revejo as minhas anotações e anoto tudo o que se relaciona com um tópico particular. O computador pode prestar boa assistência aqui.

7. Depois pergunte: Que é que eu quero dizer aos meus ouvintes com base em minha pesquisa? Determine um ou mais pontos que você acha que os seus leitores, ouvintes, entrevistadores (etc.) devem saber. Esse propósito deve determinar plenamente a estrutura da sua apresentação. Omita tudo o que lhe seja estranho. Você não precisa contar aos seus ouvintes tudo o que aprendeu. Aqui vão algumas coisas que você pode escolher para fazer nesse ponto: (a) Faça perguntas. Por vezes uma pergunta bem formulada pode ser edificante, mesmo que o teólogo não tenha resposta. É bom que saibamos algo que é misterioso, algo que está além da nossa compreensão. (b) Analise um texto ou um grupo de textos teológicos. Análise não é “exposição”, mas “explicação”. Ela descreve por que o texto está organizado ou fraseado de certa maneira – seu pano de fundo histórico, suas relações com outros textos, etc. (c) Compare ou contraste duas ou mais posições. Mostre as suas semelhanças e diferenças. (d) Desenvolva implicações e aplicações dos textos. (e) Suplemente os textos de algum modo. Acrescente ao seu ensino algo que você ache importante. (f) Ofereça crítica – avaliação positiva ou negativa. (g) Apresente uma combinação do que antes foi exarado. É evidente que o objetivo é ser claro justamente sobre o que você está fazendo.

8. Seja autocrítico. Antes de escrever e enquanto escreve o seu trabalho, antecipe objeções. Se você estiver criticando Barth, imagine Barth olhando por sobre o seu ombro, lendo o seu manuscrito, apresentando as suas reações. Esse ponto é crucial. Uma atitude verdadeiramente autocrítica pode livrar você da falta de clareza e de argumentos fracos. Também o livrará da arrogância e de um dogmatismo injustificável – defeito comum a toda teologia (liberal bem como conservadora). Não hesite em dizer “provavelmente”, ou até mesmo “não sei”, quando as circunstâncias o exigirem. A autocrítica também o tornará mais profundo. Sim, pois, frequentemente – talvez usualmente – são as objeções que nos forçam a repensar as nossas posições, a ir além das nossas ideias superficiais, a labutar com questões teológicas realmente profundas. Quando você antecipar objeções às suas réplicas a objeções às suas réplicas, e assim por diante, se verá arrastado irresistivelmente para a esfera das “questões difíceis”, para a esfera das profundezas teológicas.

Na autocrítica o uso da imaginação teológica é tremendamente importante. Faça constantemente perguntas como estas: (a) Posso tomar a ideia da minha fonte num sentido mais favorável? Num sentido menos favorável? (b) A minua ideia provê o único escape da dificuldade, ou há outros meios de escape? (c) Ao tentar escapar de um extremo ruim, corro o perigo de cair num mal diferente no outro lado? (d) Posso pensar nalguns exemplos contrários às minhas generalizações? (e) Devo esclarecer os meus conceitos, para evitar que sejam mal compreendidos? (f) Minhas conclusões vão ser controvertidas, e por isso exigem mais argumentos do que os que eu planejei?

9. Resolva quem serão os seus ouvintes. Crianças de certa idade? Descrentes? Cristãos novos na fé? Com bom nível educacional? Sem instrução? Treinados teologicamente? Eruditos profissionais? Americanos? De outras nações? Os ouvintes escolhidos terão grande efeito sobre o formato e o estilo da apresentação.

10. Tome sua decisão sobre o formato e o estilo. Aqui também a flexibilidade é importante. Considere diversas possibilidades: (a) ensaio de pesquisa acadêmica, (b) sermão, (c) forma de diálogo (forma valiosa por muitas razões, não sendo a menor delas que o diálogo estimula você a ser mais autocrítico), (d) peça teatral, (e) poesia, (f) fantasia, (g) alegoria), (h) meios mistos, (i) artigo popular. Existem muitas outras formas.

11. Produza a sua formulação – no papel ou no meio que preferir. Fazer um esboço antes é útil, mas geralmente me vejo alterando o esboço quando noto para onde o texto vai indo mais naturalmente. É mais útil reescrever a formulação. Um processador de palavras pode ser imensamente útil nesse ponto. Se você tem problemas com a estruturação de sentenças, com a organização de parágrafos, etc., muitas vezes é útil ler seu trabalho em voz alta, preferivelmente para outra pessoa.

A força de impacto não deve estar num sumário da sua pesquisa (isso seria um ensaio “expositivo”), mas em sua própria resposta criativa à sua pesquisa. Não gaste dez páginas para a exposição e só uma para a avaliação ou para a análise. Só inclua exposição suficiente para explicar e justificar as suas conclusões.

O trabalho todo deve ser fundamentado na oração. Temos visto a importância da ação soberana de Deus para o êxito da teologia e da apologética. Quem mais pode produzir conhecimento de Deus senão o próprio Deus?

FONTE: John M. Frame. A Doutrina do Conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. pp. 387-390.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

AVALIANDO ESCRITOS TEOLÓGICOS

John Frame
Por John Frame


Nos apêndices E, F e G pretendo reafirmar alguns dos princípios do livro que são particularmente relevantes para os “jovens teólogos”, seminaristas, que estão escrevendo os seus primeiros ensaios teológicos. Espero que eles também sejam úteis para alguns mais idosos! Embora muitos desses pontos tenham sido expostos no livro, espero colocá-los aqui numa forma talvez mais conveniente: listas de aferição pelas quais os estudantes podem comparar os seus escritos teológicos com os de outros.

A primeira lista de aferição é uma relação de maneiras pelas quais os artigos, as preleções e os livros podem ser avaliados.

1. Base Escriturística. As ideias são ensinos da Escritura? São ao menos coerentes com a Escritura? Naturalmente, esse é o principal critério.

2. Veracidade. Mesmo que uma ideia não se ache na Escritura, pode ser verdadeira – por exemplo, uma teoria a respeito da influência de Bultmann sobre Pannenberg.

3. Força lógica. A causa do autor é defendida adequadamente? Suas premissas são verdadeiras, seus argumentos são válidos?

4. Edificação (Ef 4.29). É espiritualmente proveitoso? Nocivo? É difícil dizer?

5. Vida cristã fiel. O texto exibe o fruto do Espírito, ou é blasfemo, indiscreto, descortês, etc.?

6. Importância. A ideia é importante? Trivial? Alguma coisa entre essas duas? Importante para alguns, mas não para outros?

7. Clareza. Os termos-chave são bem definidos, ao menos implicitamente? A estrutura formal é inteligível, bem pensada? As posições do autor são claras? Ele formula bem os pontos sobre os quais fala e distingue uns dos outros?

8. Profundidade. O texto lida com questões difíceis, ou só com questões fáceis? (Robert Dick Wilson, o grande especialista em Antigo Testamento, usava como lema: “Não fujo das questões difíceis” – um bom lema para ficar na memória dos teólogos). Vai ao âmago do assunto? Anota distinções e nuances sutis que outros escritores omitem? O texto demonstra discernimento extraordinário de alguma espécie?

9. Forma e estilo. São próprios para o assunto em foco? Mostram criatividade?

O ponto mais importante dessa lista é o primeiro, naturalmente. No ensino que ministro no seminário, me inclino a graduar os trabalhos dos alunos mais pela clareza, 7, pela força lógica, 3, e pela profundidade, 8, em razão da dificuldade de aplicar testes doutrinários e práticos num cenário acadêmico.

Os seguintes critérios não são sólidos, pelas razões discutidas no livro. Não faça uso destes na avaliação de obras teológicas.

10. Ênfase. Ver o Capítulo 6, A. Nessa espécie de crítica um teólogo ataca outro por ter uma “ênfase” imprópria. Mas isso que se chama ênfase normativa singular é coisa que não existe. Uma ênfase só se torna um problema quando leva a outros tipos de problema, os mencionados nos itens 1 a 9.

11. Comparabilidade. Ver o Capítulo 8, 1, (3)-(5). Aqui uma obra é criticada porque é parecida com outra obra considerada pobre. Contudo, essa semelhança nunca é base suficiente para crítica. Os pontos fortes e os pontos fracos devem ser avaliados individualmente.

12. Terminologia. Ver o Capítulo 6, C, (1) e o Capítulo 7, C e D (especialmente D, (5)). Criticar a terminologia de uma obra – suas metáforas, seus temas dominantes e suas definições – nunca é válido, a menos que a terminologia cause algum ou alguns dos problemas listados nos critérios 1 a 9. A terminologia propriamente dita nunca é o problema. Esse tipo de crítica cai sob a nossa condenação da crítica no “nível das palavras”, antes que no “nível das sentenças”.

FONTE: John M. Frame. A Doutrina do Conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. pp. 385-386.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

OS SETE HÁBITOS DE UM NAMORO ALTAMENTE DEFEITUOSO - PARTE 7

Joshua Harris e Shannon.
Por Joshua Harris


7. O namoro cria um ambiente artificial para avaliar o caráter de outra pessoa.
Apesar de muitos relacionamentos não serem direcionados para o casamento, alguns - especialmente entre estudantes de faculdade mais velhos - têm o casamento como sua motiva­ção. As pessoas que querem sinceramente descobrir se deter­minada pessoa é uma boa opção para o casamento precisam entender que o namoro típico, na verdade, atrapalha este pro­cesso. O namoro cria um envolvimento artificial para duas pessoas interagirem. Consequentemente, cada pessoa pode facil­mente apresentar uma imagem igualmente artificial.

Na entrada da garagem de casa temos uma cesta de bas­quete que permite o ajuste em diferentes alturas. Quando regu­lo a cesta quase um metro abaixo do padrão, eu pareço ser um excelente jogador de basquete. Enterrar não é nenhum proble­ma. Eu deslizo pelo chão e faço a cesta todas as vezes. Mas a minha “habilidade” existe apenas porque eu rebaixei os padrões - eu não estou jogando no ambiente real. Me coloque em uma quadra com o aro a três metros do chão, e eu volto a ser um “homem branco que não sabe enterrar.” [1]

De modo semelhante, o namoro cria um ambiente arti­ficial que não exige que a pessoa apresente as suas característi­cas positivas e negativas. Em um namoro, a pessoa pode entrar no coração do parceiro usando atitudes cheias de charme. Ele dirige um carro legal e paga todas as despesas; ela é linda. Mas e daí? Ser um cara divertido em um passeio não diz nada sobre o seu caráter ou a sua habilidade em ser um bom marido ou esposa.

O namoro é algo divertido, em parte porque nos dá uma folga da realidade. Por esta razão, quando estiver casado eu planejo ter o hábito de namorar com a minha esposa. No ca­samento, você precisa tirar uma folga da tensão do trabalho e das crianças; você precisa “dar uma rugida” de vez em quan­do. Mas duas pessoas que estão avaliando a possibilidade de se casarem precisam ter certeza que elas interagem não apenas em situações divertidas e românticas do namoro, A sua prio­ridade não deve ser fugir da vida real; eles precisam de uma boa dose de realidade objetiva! É necessário ver o outro nas situações reais da vida com familiares e amigos. Eles preci­sam ver o outro servindo e trabalhando. Como ele interage com as pessoas que o conhecem melhor? Como ele reage quan­do as coisas não saem como planejado? Ao considerar um parceiro em potencial, precisamos encontrar respostas a estas questões - questões que o namoro não irá responder.


[1] n.t. - Título de um filme sobre jogadores de basquete de rua.
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